17 Nov 2011, 18:15

Texto de

Opinião

O agulheiro do sonho. Ou como se pode amar sempre mais uma mãe

Passei ao lado de uma grande carreira profissional – agulheiro especializado da STCP, por culpa da mania da minha mãe em fazer as compras diárias com cronologia incerta.

Passei ao lado de uma grande carreira profissional – agulheiro especializado da STCP, por culpa da mania da minha mãe em fazer as compras diárias com cronologia incerta. Em todas as situações, o inesperado surge quando perdemos o controlo do tempo. Depois de Einstein, tempo e espaço ganharam irmandade e ocupar um espaço corresponde a fazê-lo num dado tempo que pode não corresponder ao tempo dos nossos desejos.

Vingava eu “brilhantemente” na terceira classe à custa do Pinho, Acúrsio, Monteiro da Costa, Jaburu, Hernâni, Pedroto, Virgílio i tutti quanti, que oferecia ao Dinis para ele me deixar copiar as contas de multiplicar e dividir que nos eram pedidas na escola como trabalho de casa. Às de “sumir” e “substramir” eu ainda dava um jeito, mas as outras eram um suplício de Tântalo para o proto-futebolista, proto-bombeiro, relapso das coisas escolares, que eu era na altura.

A escola era o meu trabalho, diziam os meus pais, mas eu, talvez tocado pela vulgata marxista que condena o trabalho infantil, ganhei uma especial propensão para o lazer e as atividades várias que o lazer comporta. Um filósofo afirmou que é o supérfluo e não o trabalho que dá a verdadeira dimensão da elevação humana. Ora, eu fui muito elevado desde muito cedo.

Com medo do Professor Vasconcelos Filho (o Vasconcelos Pai foi também meu professor nas primeira e segunda classes, patamares de conhecimento que eu ultrapassei valorosamente à custa dos pastéis que a minha mãe oferecia recorrentemente ao professor. Devo muito à doçura, tenho de reconhecer) e por inépcia em vencer as exigências escolares, cada vez mais prementes com o avançar das semanas, decidi que a escola era lugar não grato para a minha ânsia de liberdade e desejo de supérfluo e decidi passar os dias a mudar a linha do elétrico no final da Rua Formosa ao Largo do Padrão.

Saltava para o elétrico em desaceleração final, uns bons metros antes da bifurcação, captava a agulha e com destreza profissional desviava a linha para a esquerda, dando passo ao 16 para Matosinhos e 17 para a Foz, alternando com linha para a direita dos carros que iam à procura do seu destino numérico no leste da cidade: 10 para S. Roque, 11 para Rio Tinto, 12 para Gondomar e 13 para S. Pedro da Cova (penso que fiz corresponder com exatidão os números aos destinos).

Estávamos numa sexta-feira, com os anteriores dias da semana em falta à escola, quando me surge a minha mãe de surpresa e me apanha completamente absorvido na consecução da minha novel profissão de agulheiro. Trabalho não remunerado que poderia ter acarretado problemas jurídicos à STCP por estarem a explorar indevidamente o trabalho infantil.

– Que estás a fazer aqui meu desgraçado? , interroga-me a minha mãe alarmada.

– Vamos de “requitó”, que te vou levar à escola.

Pega-me por um braço e leva-me de roldão pela rua Santa Ildefonso fora em direção à escola do Bonfim, no Campo 24 de Agosto.

– Mãezinha, não me leve que o professor é muito mau e vai-me bater muito.

– Diz-me a verdade, meu desgraçado, há quantos dias andas nisto? Não me mintas que te desando, diz-me a verdade.

– Desde segunda-feira. Não me leve, pedia eu aterrorizado.

Insensível aos rogos pungentes do agora ex-agulheiro desfeito em lágrimas, a minha mãe toca à porta da sala e chama o professor.

– Senhor professor, venho trazer o meu Zeca, que esteve muito doentinho toda a semana e pedir desculpa pelas faltas.

– Muito bem, está desculpado, pode deixá-lo minha senhora, que ainda aproveita o resto das aulas de hoje.

Lá reentrei na sala de aula com a alma em festa e a certeza de que uma mãe não tem outra solução que não desculpar sempre os desvarios de um filho.

  1. Clementina Campelo says:

    Ora aqui temos, em direto, uma prova de que nunce é tarde para nos “fazermos ao caminho”.
    Ainda bem que tudo foi assim! Pois, caso contrário, talvez nunca nos tivéssemos cruzado. E quem ficava a perder era eu !!!
    Bjs

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