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Foto: Arq/Carlos Romão

4 Ago 2015, 11:00

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O Aeroporto não é um não lugar. É “o” lugar.

Dizem que os aeroportos são não-lugares. Mentira. Os aeroportos são lugares tremendos. Lugares onde gente tremenda faz coisas tremendas. Lugares onde pessoas ditas e aparentemente ordinárias se fazem extraordinárias.

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Portugal tem um muito particular jeito para a toponímia, seja das ruas, dos largos e praças, das largas avenidas e, sobretudo, das terras. Temos também um distinto gosto em batizar cemitérios como sendo dos prazeres um prado para o repouso. Contudo, nada bate a ironia quase cínica de batizar o aeroporto do Porto (ou da Maia, se preferirem) com o nome de alguém – Francisco Sá Carneiro – que morreu justamente no ar tendo-o como destino a que nunca chegou, mas do qual partiu mil vezes por ser o Porto a sua casa. Cada vez que vou às Pedras ditas Rubras sempre me espanto (e, como diria o Sá de Miranda, “me avergonho”) com este batismo. E ainda mais me espanto como, apesar da patine de sofisticação, preços exagerados, lojas mais ou menos de marca e pessoas com marcas mais ou menos em cima do corpo, os aeroportos – talvez mais os latinos, talvez mais ainda os nossos – são lugares onde a condição humana se apresenta exposta como em poucos mais. Porventura deles se aproximem os cemitérios, os hospitais e, claro, as maternidades.

Esta semana fui ao aeroporto levar alguém que me importa. Cujo rosto reconheço e que, por isso, me conduz melhor a saber quem sou. Chamemos-lhe família. E, olhando para quem parte, refletindo-me em quem fica, dei por mim a pensar como – e muito felizmente – os aeroportos são tão absolutamente o contrário do que se esforçam tanto por ser. Dizem que os aeroportos são não-lugares. Mentira. Os aeroportos são lugares tremendos. Lugares onde gente tremenda faz coisas tremendas. Lugares onde pessoas ditas e aparentemente ordinárias se fazem extraordinárias. Pessoas que têm vidas ilusoriamente ordinárias, trabalhos desconhecidos, sentimentos banais. Pessoas que sabem que, ainda que estejam nesse não-lugar chamado aeroporto, não podem nunca fingir que são não-pessoas. Conscientes disso – na pele, no coração, no cérebro – não suspendem sentimentos. Vivem-nos. Cada uma à sua maneira. Cada uma à maneira que encontrou. Umas mais contidas, outras mais expansivas. Umas mais alegres, outras profundamente tristes. Umas calando, outras falando. Todas partem e todas regressam. Todas acordam, comem, dormem, sorriem e choram. Todas vivem a vida que é a sua. Que não pode ser de outrem, que não pode ser outra. Com o calor e o frio que esta lhes traz. Com encontros e reencontros, sorrisos e risos, lágrimas e choros, saudades e certezas. Faltas e confirmações. Com cada um e o outro que nele habita. Com as tensões, sofrimentos e certezas que só a vida traz. Que só vivê-la pode trazer. Que bom é ver no outro o nosso semelhante. Ainda que seja só quando a carne treme.

Na volta para casa apercebi-me que, nesse dia, no Porto, amanheceu mais tarde do que o costume. As luzes das ruas apagaram-se ainda antes deste amanhecer. Ao entrar no prédio vi gente feliz a sair da noite para entrar no dia. Todos eram pessoas, ali e naquele momento, aparentemente apenas ordinárias. Vistas do outro lado da rua, pareciam felizes. Pareciam que tinham um lugar. Pareciam ser um lugar. Enquanto reparo que, agora, já amanheceu, penso como gostaria de os encontrar no Sá Carneiro. Para lhes dar um abraço que não é meu nem deles. É nosso.

Lino Miguel TeixeiraEste artigo foi escrito por Lino Miguel Teixeira, consultor de comunicação, a convite do P24.

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