18 Jan 2012, 21:25

Texto de

Opinião

Nunca mais é sábado

Gosto de trabalhar. Mas gosto mais de descansar – e só trabalho para poder descansar.

Ora aí está 2012! Ainda agora começou o ano e já vem amaldiçoado como o pior desde as guerras do Peloponeso. Recuso-me a acreditar em profecias, sobretudo quando são catastrofistas, e desalinho do coro dos que agouram o que ainda há-de vir. Tenho alguns planos para resistir ao desgaste psicológico do discurso derrotista. Como o egoísmo a mim é uma coisa que não me assiste, vou partilhar um pouco das minhas armas de guerrilha contra o stress a que nos submetem. Agora que ameaçam aumentar-nos a idade da reforma, agora que vamos pagar mais e receber menos, agora que já percebemos que estes que lá estão são da mesma massa dos outros, resistamos recuperando o prazer de não fazer nada.

Quando um português não está a fazer nada não está, como erroneamente se pensa, a não fazer nada. Está a interpretar sem o saber um destino que o transcende, está a ser coerente com uma identidade histórica, que é uma coisa que não se escolhe e vem inscrita na pele como as psoríases. É, pois, uma atitude culturalmente consistente, posto que em relação com a tradição dos povos que desde tempos imemoriais adoram o sol e são infelizes no inverno. Não fazer nada é ser contra-hegemónico, nos antípodas de quem teletrabalha on line e portanto não tem horas e portanto está, como antigamente só Deus, em toda a parte. É isso que me chateia na globalização, o estar em toda a parte a toda a hora e ser cada vez menos senhor dum canto que seja seu.

Não quero que me acusem de não ajudar na recuperação económica do país, e por isso só vou fazer nada no dia que foi feito para não fazer nada – o sábado. E proponho aqui e agora o início duma reflexão profunda sobre o valor do sábado. Aí vai:

Onde começa o sábado? Não me interessa a origem do sábado, essa origem feita de origens que tudo remontam a textos sagrados ou à Grécia Antiga (tenho aliás para mim que, a avaliar pela quantidade de manifestações de rua, a de hoje é muito menos monótona). Quero uma explicação simples do sábado, mas rigorosa e nítida – uma explicação que mereça o sábado que procura explicar. Por exemplo, uma explicação como a que deu Dorival Caim, em que a voz de Vinicius se encarrega de tudo tornar transparente como o whisky que o acompanhava mesmo durante o banho de imersão. Por que tomava Vinicius banho sem parar de beber? Porque hoje é sábado.

O interessante do sábado é ser sábado e portanto haver espaço, tempo e espaço-tempo para meditar o próprio sábado. Poder gastar o sábado todo a tentar definir a sua vital importância para o movimento de rotação da humanidade, o seu fulgor à base da desnecessidade das tarefas contratadas, a sua distensão feita da distensão do rigor, deixando vir a nós os propósitos dignos do ócio – essa obra da natureza no tempo em que era sábia, em que não precisava de ecologistas e nos oferecia os devaneios da preguiça.

Gosto de trabalhar. Mas gosto mais de descansar – e mesmo só trabalho para poder descansar. Também trabalho para ganhar dinheiro. Sim, para a sobrevivência – mas ele só me serve porque o posso gastar ao sábado. É por isso que o sábado é importante, é por isso que ainda ninguém acabou com o sábado – porque hoje é sábado.

Não é por causa de ser o dia em que não temos de trabalhar que gosto do sábado. Nós não temos de trabalhar. Prova-o o desemprego: não se morre de desemprego, mas há muita gente que morre a trabalhar. É preciso dizer as verdades e ser rigoroso na análise dos factos: há acidentes de trabalho, não há acidentes de desemprego. Poderão dizer-me que o próprio desemprego já é o acidente. Pois eu acho que é o trabalho. A história do trabalho é um desfile de mártires, desde a antiguidade egípcia em que se esmagaram aos milhares para erguerem as pirâmides até à revolução industrial, com a sua jornada de 16 horas no meio das rotativas e da limalha e sem direito a cartão sindical.

O que o afã cego do trabalho é capaz de fazer às nossas existências tranquilas está soberbamente demonstrado na colonização portuguesa do Brasil, que pôs a trabalhar os indígenas, a quem a mãe-natureza se encarregava de dar tudo. O conceito de preguiça é moral, e cismámos que os índios não trabalhavam porque eram preguiçosos e isso ofende a Deus – logo a ele, que fez isto em 7 dias, descansou no sábado e nunca mais se incomodou. Ora, o que eles tinham era um longo sábado, com o alimento pendente dos ramos e a sede regada pelo suco dos frutos tropicais e só um estúpido se daria ao trabalho de trabalhar num cenário destes. E foi então que chegámos com as naus carregadas de trabalho, sífilis e escorbuto.

Que reflexões inúteis!, alguns dirão. Ainda não estão no espírito do sábado. Terão ainda durante muito mais tempo de ser bestas de carga à semana até poderem atingir a essência do sábado. O sábado é para quem pode, não é para quem quer – é preciso ter gasto muita energia, é preciso ter queimado muito sábado, até poder entender o sábado.

Ah!, mas que comunhão essa, que enleio esse que fazemos com ele quando o sábado se nos desvenda! Saber gozar um sábado é uma arte minimal, discreta, que não se vende em time-sharing, nos health clubs, nos cursos sobre a gestão dos tempos livres. Quem assim vai gasta o sábado e só lhe resta o domingo antes de segunda – e no próximo sábado já será dia de curso. É preciso deixarmos de nos aperfeiçoar a todo o momento, consumindo nessa voragem todo o tempo de ócio em que podíamos de facto aperfeiçoar-nos. Desinscrevamo-nos de toda actividade programada para sábado, desistamos de domesticar aquilo que ainda não tem destino – e entreguemo-nos ao destino dum dia fora das cogitações utilitaristas que nos dominam.

Que cada um de nós se concentre então no seu sábado – desde que não se concentre, já se sabe, ao sábado – a tentar responder ao porquê de ele ser tão bom e fazer tão bem à alma. Concentremo-nos em questões pouco ambiciosas. Que partam de nós, do nosso prazer, da nossa febre de viver. Tudo o mais dá febre e ilude a vida. Desenruguemos a testa e celebremo-la – porque hoje é sábado.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Simão says:

    Eis uma boa proposta que o Prof. Luís Fernandes nos deixa para enfrentarmos o endurecimento das políticas de austeridade: mais do que o culto da ociosidade, antes um culto do descanço. Aliás a ideia de aumentarem o tempo de trabalho nomeadamente com os cortes nos dias de descanso dos trabalhadores com vista a aumentar a produtividade é uma ideia falacionosa. Como se explica que os países do centro da europa, nomeadamente a Alemãnha, tenham taxas de produtividade elevadas com tempos de trabalho bastante inferiores aos nossos? Viva os feriados, e as pontes, e as auto-estradas, e os túneis!

    Abraço,
    Simão

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