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Foto: Porto24

30 Dez 2017, 14:28

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Opinião

Notícias do meu bairro 2

Peço-vos desculpa por só agora vir dar notícias do meu bairro, mas, agora com o turismo em franca aceleração, anda tudo de cabeça virada pelo trânsito caótico, a passagem das casas a “hosteles”, a redução dos espaços de convívio e a proliferação de romenos aciganados que tocam desafinados acrescentando o nível de poluição sonora cá do sítio.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Quando quero ir para o serrote vespertino com as minhas vizinhas, os bancos de pau feitos de pedra estão todos ocupados com fios das tendas dos artesãos de ocasião, cuja originalidade é irem às fábricas, comprar por atacado aquilo que expõem como criação original. Tenho de reconhecer que alguns são mesmo artesãos qualificados marcados por uma destreza manual que os evidencia dos vendedores ambulantes dos produtos das linhas de montagem fabris. Mas são mesmo poucos.

Lembram-se que vos falei do sr. Fonseca, tasqueiro do bairro, que era casado com a D. Deolinda, não desfazendo uma mulher muito piedosa e símbolo de virtudes cristãs. O Sr. Fonseca foi-se, apagou-se, fundiu a chama da existencialidade (pareço o Sartre). A D. Deolinda ficou inconformada pois um casamento de 60 anos deixa marcas no corpo e na alma que são difíceis de debelar. A depressão da D. Deolinda era tamanha que uma das amigas lhe propôs ir a uma espírita para tentar contactar no além com o sr. Fonseca. Ao princípio renitente, a resistência ao oculto foi-se progressivamente atenuando no espírito da D. Deolinda até que decidiu ir à sessão cabalística da espírita do bairro que se autointitula a Maga da Beira-rio, mulher calejada nestas andanças e que vive maritalmente com o Professor Doutor Karamba, que trata de tudo desde unhas encravadas até à falta de tusa e dor de corno.

A sessão começou num ambiente escuro e fechado e através da experimentada médium indagou a D. Deolinda:

– Estás lá Fonseca?
– Estou, responde o ex-marido do além.
– O que fazes desse lado?
– Levanto-me cedo e faço sexo. Como cenoura que é considerada afrodisíaca e faço o meu crosse num campo de golfe. Apanho algum sol e faço sexo outra vez. Depois do almoço, precipuamente vegetariano, (a dieta vegetariana é rica em óxido nítrico que influencia positivamente a tusa), faço mais sexo. Depois do jantar, onde subsistem as verduras frescas, volto ao campo de golfe e faço mais sexo até anoitecer. Durmo como um anjo para recuperar para o dia seguinte.
– Então estás no paraíso, pergunta algo triste a D. Deolinda.
– Não, já reencarnei. Voltei como coelho numa criação de coelhos perto do campo de golfe de Miramar.

O merceeiro cá do sítio que considera que um gajo que lê um livro deveria ser preso por proxenetismo social, saiu pela primeira vez do país após lhe terem saído 5.000 “aérios” numa raspadinha. Quando lá fui comprar minis e “mendoins”, perguntei-lhe:

– Ó Sr. Silva, então a Suíça?
– Muita neve e frio, responde-me ele.
– E as helvéticas? Quis eu saber curioso.
– Não houve excursão às helvéticas, afirma ele no seu despudor analfabeto.
– As mulheres suíças? esclareço eu.
– Ah! São louras e altas.
– Quando me diz que foi à Grécia, pergunto-lhe diretamente:
– E as helénicas?
– Penso que não fomos lá; talvez da próxima vez.
– As mulheres gregas Sr. Silva?
– Ah! São morenas e de nariz adunco. Atenção, ele não disse adunco, mas sim nariz à águia.
– Também fomos ao Egipto, assevera ele todo ufano.
– E as pirâmides? Pergunto eu malicioso.
– Umas pu.., umas pu….., afirma jactante o Sr. Silva.

O Sr. Arnaldo, guarda-noturno da área, reformou-se e decidiu fazer férias longe. Montou barraca na praia do Areinho. Como ninguém o viu na tasca, quando regressou afirmou alto e bom som que as águas de “Bebidorme” são mais quentinhas que as do Molhe.

O Professor Karamba, meu vizinho da rua de trás, negro musculado que se diz grande cientista espiritualista africano, mas que nasceu na Régua e emigrou para o Porto num barco rabelo, apanhou um enxerto de porrada de um grupo de pescadores da Afurada. O Professor Karamba, que na realidade se chama Jorge Olímpio Silva2 (Silva da parte do pai e Silva da parte da mãe), prometeu resolver com a devida celeridade, menos de 4 dias, um problema de míngua de vigor libidinal num pescador com 78 anos. Ele diz que utilizou todos os procedimentos inscritos nos mais rigorosos cânones da Super Magia Negra. Contudo, o raio do pescador viu o vigor libidinal acentuar-se, não onde era necessário, mas nos apartamentos das traseiras (estou muito metafórico para não cair na rebaixolice). Moral da estória: o Professor Karamba deve-se ficar pelos negócios e maus-olhados e deixar de se intrometer com Eros e Tanatos.

O Quim Dentinhos, meu amigo de infância, assim chamado porque está completamente desdentado desde a juventude, lançou-me: – Zecas, no fim de ano vou à avenida dos Aliados. É a única forma de beber champanhe à borla.

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