7 Nov 2011, 17:34

Texto de

Opinião

Noite no Porto

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Se não se controlar a "movida", o repovoamento da baixa ficará mais difícil, pois poucos serão os interessados em morar numa baixa suja, perigosa e barulhenta.

Noite

Foto: Nataniel Diogo

A movida do Porto começa a ser posta em causa. Discutem-se prós e contras, como questões de horários, ruídos, limpeza, turismo e reabilitação da baixa.

Em primeiro lugar, gostava de fazer uma análise pessoal da situação, como um empresário ligado ao sector da restauração, desde 2006.

Desde esse ano, a baixa assistiu a uma verdadeira (r)evolução da vida nocturna. Num curto de espaço de tempo, surgiram novos e inovadores projectos, que procuravam oferecer algo de novo à cidade e ao seu público, preocupados com uma oferta musical e cultural cuidada e arrojada, contribuindo para uma nova imagem mais cosmopolita e sofisticada da cidade.

Desde então, tem-se verificado um verdadeiro boom no aparecimento de estabelecimentos nocturnos. Grande parte desses espaços tem boa qualidade e identidade, mas, paralelamente, surgem outros negócios com intenções menos claras.

Esta movida trouxe, sem dúvida, uma maior visibilidade à baixa e despertou uma atracção, quer de investidores, quer de potenciais novos moradores, pelas ruas e edifícios desta nobre cidade, contribuindo de forma inequívoca para a reabilitação urbana, social, económica e cultural da mesma.

Contudo, esse rápido crescimento e excessivos picos de concentração de pessoas em determinadas zonas está a criar sérios problemas a moradores, empresários e clientes e autarquia.

Vejamos: restaurantes, pastelarias, churrascarias e até mercearias a funcionar até de madrugada; lojas de conveniência, que, por lei, apenas podem existir em zonas de carência, em zonas de restauração; bares incumpridores de horários, cuja preocupação parece ser tocar a música mais alta da rua; vendedores de cerveja e comida em cada esquina da baixa; falta de policiamento; assaltos e violência; utilização da via pública, montras de lojas e acessos a habitações como WC; excesso de ruído; e enormes quantidades de lixo e vidro nas ruas.

Parece que todos os fins-de-semana são dias de S. João.

Não se percebe como é que a Câmara do Porto permite a existência de estabelecimentos de venda de bebidas sem estarem equipados com WC. Outra situação grave são os espaços que disponibilizam garrafas e copos de vidro para serem consumidos na rua, os quais facilmente se transformam em objectos perigosos, representando um sério perigo nas mãos de pessoas ébrias.

O número de casos de agressão com garrafas partidas está a aumentar gravemente. Surgem notícias e outras histórias de carjacking e até gangues a actuar na zona.

Os moradores exigem medidas rápidas, e algumas até radicais, como o fecho de bares à 0h durante a semana e às 2h ao fim-de-semana.

Surgem as comparações com a Ribeira e a zona industrial. Se não forem tomadas medidas para controlar e regularizar a movida, o tão necessário repovoamento da baixa pode ficar mais difícil, pois poucos serão os interessados em morar numa baixa suja, perigosa e barulhenta.

Por outro lado, a extinção e fecho de bares tornará, sem dúvida, o Porto uma cidade menos interessante e divertida para os turistas, que são cada vez mais, como também levará a uma série de despedimentos, não só de funcionários directamente ligados aos bares, mas também ligados aos fornecedores de produtos e serviços dos mesmos.

Penso que com alguns acertos se poderiam resolver alguns problemas: escalonar os horários dos diferentes espaços de forma sensata e de acordo com o tipo de serviço, de modo a criar uma maior e fluída circulação de pessoas; limitar a venda exterior de bebidas alcoólicas em vidro a esplanadas e até às 23h em lojas de conveniência; reforço de policiamento; aumento de pontos para depositar lixo; e uma maior fiscalização por parte das autoridades ligadas à restauração, por forma a garantir a qualidade dos serviços, produtos e cumprimento de horários.

  1. Ana Natálio says:

    Filipe para tudo é necessário bom senso e acho que é o que mais falta quer a quem frequenta quer a quem tem espaços abertos, claro que existem excepções, mas infelizmente muito poucas.

    Mas as sugestões que aqui deixas fazem sentido, agora é necessário existir vontade, por quem de direito, de as colocar em prática

  2. Luis Santos says:

    Abstendo-me de crer que o âmbito deste discurso será “empurrar” a “movida” para dentro dos selectos bares abertos até tarde…

    A solução não deverá passar por limitar os direitos e liberdades das pessoas desta forma, com encerramentos em virtude seja do horário seja da natureza do estabelecimento, mas antes por controlo de que a liberdade de horários e consumos individual e colectiva que per se não infringe direitos de ninguém seja exercida dessa exacta forma.
    Basta para tal o controlo da insonorização dos bares, pontos de disposição de resíduos, patrulhamento eficaz. Não será necessário forçar horários, e reveste-se de especial ironia sugeri-lo “de barriga cheia”…

Opinião

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