4 Fev 2014, 15:15

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Opinião

Noé Sendas – Olhar Impossível

The Eighteenth January TwoThousand Fourteen. 18 de Janeiro a 1 de Março. Galeria Presença, Rua Miguel Bombarda, Porto

Foto: DR

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Noé Sendas (Bruxelas, 1972) é um artista que vive e trabalha em Berlim e cuja obra se tem vindo a afirmar a partir do final dos anos 90. Começou por estudar no Ar.CO, em Lisboa, tendo continuado depois a sua formação internacional no Royal College of Arts, em Londres, e no Art Institute, em Chicago.

O seu trabalho muito rico e diversificado baseia-se frequentemente num curioso jogo de associações em que as imagens ocupam um lugar de primeiro plano na sua obra. Em muitos dos seus trabalhos o artista começa por se apropriar de imagens fotográficas avulsas pertencentes a várias épocas que o artista colecciona e que depois descontextualiza, introduzindo-lhes alterações e detalhes, de que resultam interessantes composições autónomas onde sobressaem associações invulgares com formas geométricas e corpos femininos envoltos numa ambiência modernista de expressão sofisticada e feição surreal. Mais do que reproduzir meramente imagens ou formas já existentes da realidade, o artista, neste caso, procura arrancar a imagem da sua aura original, alterando assim a sua natureza referencial, conferindo-lhe uma nova aparência diferente da que tinha antes.

Trata-se dum trabalho que além de questionar o sentido evocativo e o estatuto material da imagem, procura torná-la numa espécie de entidade anónima, num espaço metafórico do inconsciente sem referência autoral nem identidade particular, numa substância imaginária sucedânea de si mesma, sujeita a manipulações, cortes, decapitações e encobrimentos que visam restituir o corpo da imagem dando-lhe uma nova condição originária, que abarca o seu apagamento inicial e posterior recriação.

Nesse sentido Noé Sendas apropria-se do termo italiano Sprezzatura, de difícil tradução para português, que exprime a arte da bella maniera em que tudo surge sem esforço nem dificuldade e dum modo natural, para dessa forma poder definir melhor a condição da imagem (fotográfica) sujeita a uma perfeita dissimulação sob o total domínio da aparência, que é sem dúvida um dos traços mais fortes da sua obra, com que se procura eliminar qualquer vestígio escrito/inscrito deixado anteriormente na imagem de modo a permitir a sua reutilização futura.

Noé Sendas

DR

A interpretação do mundo tem-se vindo a fazer cada vez mais por intermédio das imagens, apesar de muitos filósofos, a começar por Platão, terem querido bani-las da filosofia, por elas se limitarem a imitar a realidade, fazendo por isso parte duma ontologia do “não-ser”, um tipo ilusório e falacioso de representação que tende a enfraquecer a realidade.

A exposição de Noé Sendas, intitulada The Eighteenth January Two Thousand and Fourteen, que retoma a série Crystal Girls (2009) e Peep (2012), insere-se numa estratégia imagocêntrica que procura definir o ponto de clivagem entre imagem e representação, presença e apagamento, tratando-se por isso dum trabalho não contemplativo ou passivo, mas sobretudo mais apostado no papel interventivo, criativo e até subversivo da imagem. Nas duas séries fotográficas a preto e branco vemos a imagem (re)cortada dum corpo de mulher sem rosto, envolta numa visibilidade alucinada ou num jogo mental imaginário, em que os objectos e as imagens circulam livremente por entre o espaço e a matéria das coisas, chegando nalguns casos a (con)fundir-se com eles.

Daí o poderoso efeito surtido pela representação do corpo duma mulher manequim-personagem, parcialmente barrado algumas vezes por um triângulo, outras por um quadrado ou ainda por um véu ou mancha de cor negra. Nalgumas fotografias aparece ainda a imagem do corpo duma mulher sem cabeça nem tronco, uma imagem de “decapitação” bela e piedosa que o artista recriou de forma a realçar algumas das partes desse corpo pulsional feminino, tornado simultaneamente presente e ausente, através da evocação sonâmbula da sua imagem truncada.

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Numa das últimas salas da exposição vê-se uma escultura feita pelo artista encostada à parede do fundo da galeria. Trata-se mais exactamente duma instalação foto-escultórica duma mulher-manequim com a parte superior do corpo tapada por triângulos de madeira, e em que apenas se vêem as pernas vestidas com collants pretos. Esta instalação reproduz a mesma imagem fotográfica da mulher-manequim que se encontra pendurada na parede lateral da sala. Com esta curiosa “escultura-instalação” o artista pretende acentuar a dimensão foto-performática e erótica que esta peça potencia no contexto geral da sua obra.

Toda a obra de Noé Sendas é percorrida pela marca deixada por diversas formas de expressão artística como a fotografia, o cinema, a literatura, a escultura ou a performance que nesta exposição aparecem de um modo talvez menos literal, o que todavia não impede que o nosso olhar atento encontre nestes trabalhos ressonâncias doutras obras suas que aqui nos surgem sob o modo de clivagens, reenvios, passagens, citações e colagens.

Sem dúvida que esta é uma exposição que merece todo o nosso olhar, um outro olhar impossível carregado de glamour, beleza e magia.

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