9 Abr 2012, 15:52

Texto de

Opinião

No país dos cristianos

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Esta é a história verídica do Cristiano, um menino de 11 anos – um menino que era Cristiano mas provavelmente nunca será Ronaldo.

Esta é a história verídica do Cristiano, um menino de 11 anos – um menino que era Cristiano mas provavelmente nunca será Ronaldo. Foi roubada ao diário dum adulto que escreve sobre a matéria de que se compõe o mundo hiper-realista das crianças.

“Há 3 dias o Cristiano apanhou provavelmente a maior desilusão da sua ainda curta vida: foi dispensado do lote de jogadores que vão integrar os infantis do Futebolense para disputar o campeonato da Associação de Futebol do Porto. Desde 15 de Setembro, dia em que começou a época para os 20 escolhidos a partir do imenso grupo que joga nas escolinhas do Futebolense, que estava a treinar 3 vezes por semana. O treinador avisara-os de que no final seriam dispensados dois, que regressariam às escolinhas.

Preparei-o para a possibilidade de ser um desses dois, pois sobre alguém tinha de recair a exclusão e devemos sempre prever o cenário mais desfavorável. Mas é autoconfiante e achava que não seria um desses. Afinal foi, e derramou as primeiras lágrimas realmente amargas que lhe vi chorar. Confortámo-lo – e creio que hoje percebeu também que a sua casa é o seu porto seguro. Declarou solenemente que não regressa às escolinhas. Seria dar o braço a torcer, que não é uma coisa que lhe assente com facilidade.”

Salto quase uma página e continua assim o diário:

“Já de há muito que percebi que o mundo do futebol está cheio de pessoas deste género. Este episódio mostra como se tratam crianças de 11 anos: acena-se com o sonho e depois, cruamente, sem preparação, aponta-se o dedo e diz-se “tu não serves”. Por que não ficaram logo em 15 de Setembro com os 18 que iriam competir? Foi para manterem o clima de motivação, a relação competitiva entre os coleguinhas? Sabemos que o futebol profissional é assim. Mas começa-se a incentivar este funcionamento logo nestas idades? É por isso que estamos rodeados de adultos tão interessantes… Estranho traço este o de nos irmos estragando convictos de que estamos a promover qualidades!

Por mim, o Cristiano abandonava o futebol. É um mundo de básicos, uma roleta de tontos, uma máquina de exclusões. Mas está montado no registo circence e ao espetador só chega o brilho das estrelas. Os bastidores do futebol só podem ser sítios cheios de histórias de desilusões, de sonhos desfeitos, de percursos interrompidos – mas o circo brilha e não nos deixa pensar. Os meios de comunicação encarregam-se de nos atualizar diariamente sobre a vida dos Cristianos Ronaldos – contada assim, parece realmente fabulosa. E lá vão as crianças em romaria aos Custóias, aos Padroenses, aos Lavras, aos Boavistas, aos Salgueiros, aos Vilanovenses, aos Coimbrões, aos Oliveiras do Douro, lá vão com a religiosidade com que dantes se ia às procissões à espera de salvar a alma. Por que é que os adultos têm tão pouco juízo?”

Este trecho de diário pôs-me atrás desta realidade. Descobri que só as escolinhas do FC Porto, Benfica e Sporting têm espalhados pelo país vários milhares de crianças sonhando aos Cristianos Ronaldos. E o AC Milan já abriu sucursal no Porto, e o Real Madrid vai abrir em Gaia. Estes são os grandes. E depois há uma miríade dos pequenos, um cardume de clubes cada um com cardumes de jogadores. Em Amarante como na Feira, em S. João da Madeira como na Póvoa. E os pais aos berros nas bancadas, apostando nos pequenos cristianos à espera que um golpe da fortuna os transforme em ronaldos – para que entre então a fortuna que nos arranque da mediania.

Esta história podia bem passar-se apenas no mundo do futebol. Mas limita-se a ser a metáfora de processos sociais bem mais generalizados. Faça cada um o exercício de notar as semelhanças com os mundos laborais que conhece. Ou de notar como vivemos na linha do trabalho em série entretendo-nos nas horas livres com a quimera dos que chegaram alto. Chegue você também: seja empreendedor, aposte nas suas qualidades, sobretudo nas que lhe permitem ir à frente na corrida, abra os cotovelos e afaste os outros para o lado. Conseguiu? Você é bom. Não conseguiu? Lute, aguente, vá outra vez à luta, humilhe-se mas não desista – não seja Cristiano, não vale a pena ser Cristiano se não for também Ronaldo. Não há emprego? Esse tempo acabou, descubra qualquer coisa para vender, uma coisa que seja precisa, uma que não seja precisa, tanto faz, invente uma coisa, uma coisa qualquer. Porque tudo se vende, depende apenas da sua capacidade de empreendedorismo. Seja competitivo e venderá, seja inovador e inventará, corra e suba e subirá. Olhe como ficaram tantos lá em baixo, está a ver? São os cristianos, pois. Estão agora no intervalo da fadiga, estiram-se um pouco a distrair o espírito, leem a Lux e soletram a marca da nova bomba de Cristiano. O Ronaldo, claro.

  1. Francisco Macedo says:

    Infelizmente, o “Cristiano Ronaldismo” deste mundo não passa do lado brilhante de um espelho partido. …E é este o reflexo que a desnorteada sociedade actual acalenta e incentiva como projecto-exemplo de futuro.

  2. liseta silva says:

    Como eu compreendo este texto… estava a lembrar-me dos Passarinhos da Ribeira,( na época do Presidente Nicolau Silva) dos Olimpicos de Fernão Magalhães, do Monte Aventino, e daquele grupo de amigos, de onde sairam e giravam o Tono Bolacha, O Gomes o Oliveira….Eles conseguiram e outros vão conseguir também não podem é ter expetativas , muito altas, até porque não temos o “Pedroto” a espiá-los no cimo do Jardim. Naqueles anos eram felizes, e bons jogadores, jogavam na rua e receber uma Bola já era BOM.
    Se se apostar mais no que é Português é bom, pode ser que o merca.do de jogadores se alargue e se aposte mais na formação nas escolas

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