24 Fev 2013, 13:58

Texto de

Opinião

(Nem) Tudo isto é triste

É certo que o país está em baixo, pelo menos o país real, mas não vale a pena forçar a lágrima, o tempo das carpideiras profissionais já lá vai. Espero.

Muitos dos textos que escrevo para esta secção do Porto24 são pensados – quando não prensados – em locais públicos: cafés e cafetarias, autocarros e carruagens de metro, esplanadas e bancos de jardim, entre outros lugares vivos.

Desta feita, o dito cujo que se apresenta aqui, nestas páginas sem cheiro, nasceu enquanto eu beberricava um café bem tirado e namoriscava “O Homem Duplicado”, de José Saramago, ele também um amor antigo feito de letras nem sempre alinhadas.

Chamou-me a atenção a senhora da mesa ao lado. Hábito, cada um veste o seu, e a toilette humana é tamanha que alguns desses hábitos ainda me surpreendem: nunca tinha visto ninguém sacudir os despojos de um bolo para dentro de uma meia de leite e, depois de tudo bem misturado, deleitar-se com a iguaria. Curioso, nada mais.

Podia ir buscar analogias ao saco – nem precisaria de ir ao fundo, tão em voga que elas estão – e pôr-me a falar da crise, do que as pessoas fazem para aproveitar as migalhas que são o único lucro que lhes entra no bolso – na boca, neste caso – e fazer de tudo isto um faduncho bem recheado de leitosas lágrimas. Não o faço, é provavelmente um gosto que a senhora tem, uma mania como a de um amigo meu que em criança juntava chocolate ao leite condensado. Curiosamente continua magro como um palito.

Em suma, nem tudo isto é triste. Procuram-se motivos constantes para apimentar – salgar? – o dia-a-dia. Isso lê-se nas notícias, vê-se nos lábios transeuntes e ouve-se nas escolhas musicais. É certo que o país está em baixo, pelo menos o país real, mas não vale a pena forçar a lágrima, o tempo das carpideiras profissionais já lá vai. Espero.

Falei do fado, o nosso património para o mundo, entre muitas outras ofertas que deixámos por onde passámos. Por razões profissionais, tenho ouvido mais fado ultimamente. Nunca foi a minha especialidade, confesso, apesar de desde há muito apreciar as formas elegantes da velha guitarra do meu avô, que nunca ouvi propriamente tocada.

Consigo apreciar em particular as gerações mais novas de fadistas. Admiro, desde que lhes pus os ouvidos em cima, as vozes de um alcance infinito da Mariza, do Camané, da Carminho, do grande Carlos do Carmo e da grande Amália, que – confesso novamente – levou algum tempo a conquistar-me. Entre outros. As letras fundas dos poetas que cravaram no fado o testemunho da sua passagem por este mundo são, sem qualquer sombria dúvida, outra grande razão para que o fado se escute, mais do que se oiça.

Descobri recentemente que nomes inesperados – para mim – como António Lobo Antunes, Júlio Pomar ou Jacinto Lucas Pires se inscrevem no passeio dos autores que escreveram letras de fados, onde residiam já Pedro Homem de Mello, José Carlos Ary dos Santos ou David Mourão-Ferreira.

Mais que tudo, descobri recentemente que a ideia preconcebida de que o fado é uma canção tristonha e sombria está parcialmente errada. É verdade que muito do ambiente que rodeia o fado é construído com melancolias e saudades, mágoas e sonhos desfeitos, mas há uma vertente sarcástica, mesmo humorística do fado que convém não descartar, e que contribui para a riqueza da vasta oferta fadística (porque não inventar a palavra, se já se fala da cultura jazzística?).

Tal como as migalhas que a senhora empurra para a chávena vaporosa da sua meia de leite, o fado às vezes engana.

Tudo isto existe, é um facto. Mas nem tudo isto é triste.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Cristina Fonseca says:

    Gostei imenso da escrita, pouco usual num jovem,relacionando uma situação frequente do nosso quotidiano com a situação cultural actual(eu não opto pelo acordo…).
    Parabéns pela perspicácia, pela adjectivação, pela sinceridade e naturalidade da escrita.Um texto subtilmente crítico do quotidiano bairrista,e muito mais…

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