3 Set 2012, 20:09

Texto de

Opinião

Sim, também nós somos capazes

No momento em que vivemos, tomemos o exemplo do Nelo que nos permite acreditar que também nós, quando queremos, conseguimos.

O que têm em comum o cidadão Manuel Ramos e Maria João Pires, Álvaro Siza Vieira, Maria Helena Vieira da Silva, António Damásio, José Mourinho, Sobrinho Simões?

Eu respondo: “Excelência”.

E vocês, perscrutando os mais recônditos lugares da memória perguntarão às vossas meninges: “Mas quem é este Manuel Ramos?”

Deixem-me contar-vos uma história.

Nos refluxos duma descolonização repleta de entorses sociais e injustiças humanas que trouxe de regresso à terra-mãe os Portugueses da diáspora que espalharam portugalidade por todos os cantos do mundo, chegou de Angola, em 1975, o jovem Manuel Ramos que trazia como bagagem principal o inconformismo, quiçá raiva, de quem é expulso do seu rosebud e uma forte personalidade em ebulição.

Tive-o como adversário nas minhas competições de canoagem. Desde esse momento admirei-lhe o pundonor e a capacidade de autossuperação. Ganhei-lhe uma ou outra vez mas ele ganhou-me muitas mais vezes porque colocou no treino aquilo que o diferencia do comum dos mortais – uma incontornável capacidade de superar a dor, forte motivação e superior disciplina de treino.

Um estágio dos sul-africanos em Vila do Conde deu a oportunidade ao Manuel Ramos para ver como treinavam aqueles que eram na altura os melhores maratonistas do mundo da canoagem. O discípulo aprendeu bem a lição.

O Manuel Ramos, após um apogeu desportivo extraordinário que o alcandorou ao nível dos melhores do mundo nas provas de rio desportivo e maratona, teve de abandonar a prática desportiva intensiva por uma razão muito prosaica – tinha de trabalhar.

Lembro-me de o ver, numa barracão atarracado, com o frio como companheiro das manhãs de inverno, mãos e corpo enregelados, a construir os seus primeiros kayaks, ainda toscos na conceção e feitura mas já impregnados da sua vontade indómita que demonstrava ao numerá-los com esferográfica que mal se notava na fibra.

A partir daí o Manuel Ramos, que era o Nelo para os amigos e colegas de canoagem, passou a ser o NELO – um projeto profissional que transporta muito da vida do seu ideólogo.

Como cresceu o Nelo através da NELO?

Fundamentalmente através da superação de desafios que ele a si próprio coloca a cada momento. Aquilo que os cursos de gestão, marketing, organização empresarial e capacidade de chefia procuram dar nas universidades, desenvolveu-o o Nelo na canoagem e transportou esse élan transformador para a sua indústria nascente.

Superou escolhos e bloqueios e paulatinamente começou a construir o seu futuro. Penso que o Nelo gosta e procura as dificuldades pois essas motivam-no, como uma droga, para a autossuperação.

Quem é hoje em dia o Nelo?

É principalmente um Português de que todos nos podemos orgulhar.

Não posso nem quero separar a obra do obreiro. A obra é a consecução da alma do homem. E o que o Nelo conseguiu até aqui é principalmente fruto da sua insuperável ânsia de futuro. O Nelo acaba um projeto e, após um breve momento de contemplação e regozijo do adquirido, rapidamente parte para outro, como verdadeiro militante do futuro que é.

Está tocado por um forte sentimento de incompletude que é apanágio dos transformadores, aqueles seres que não se resignam com as dificuldades e, contornando-as, abrem novos caminhos de realização.

Do barracão genésico foi crescendo de forma saudável e sustentada. Do barracão inicial passou a melhor construtor nacional de kayaks. Daí, até atingir o patamar da excelência – é hoje o melhor construtor do mundo de embarcações de canoagem – foi um longo mas profícuo caminho.

Senão vejamos.

Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, o NELO obteve 1 medalha.

Jogos Olímpicos de 2000, em Sydney, o NELO obteve 5 medalhas.

Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, o NELO obteve 14medalhas

Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, o NELO obteve   20 medalhas

Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, o NELO obteve 25 medalhas.

Sempre em crescendo onde estará o limite?

Não sei, porque este homem, como militante do futuro que é, só tem os limites que a sua consciência lhe impõe e uma incontornável vontade de vencer que lhe permite ombrear ao lado dos insignes Portugueses que apontei acima.

No momento em que vivemos, fértil em momentos de desistência e conformismo, tomemos o exemplo do Nelo que nos permite acreditar que também nós, quando queremos, conseguimos.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. José Luís Durães Rego says:

    A excelência.
    Quem viaja no site da NELO, mesmo que não goste de desportos naúticos, apetece-lhe voar naquelas lindas peças de canoagem, autenticas peças de museu. Nunca é demais felicitar o Manuel Ramos, pela EXCELÊNCIA E O SEU DINAMISMO. O Zé fala de catedra, como homem conhecedor da canoagem e que acompanhou toda a evolução da NELO. Parabéns para ti, Zé, também por saberes reconhecer o mérito…abç JLuís Rego

  2. Clementina Campelo says:

    Haja quem lembre os homens dos bastidores! Sem eles outros não brilham!Parabéns Professor e continue a ser contestatário e inconformista neste país “mentalmente adormecido” cheio de gente instalada.
    Clementina Campelo

  3. Domingos Silva says:

    No plano desportivo, num País onde se prefere falar dos ataques de mimo e de vaidade de alguns desportistas milionários, eis que surge alguém que fala abertamente daqueles que nada tinham e hoje são grandes. E reconhecer a grandeza nos outros é também ser grande. Parabéns Professor José Augusto e parabéns ao Nelo e à NELO.
    Domingos Silva

  4. Luiza Kent-Smith says:

    Confesso que sou fâ das tuas prosas. Tens um estilo muito proprio e falas sempre a verdade. Adorei o texto e a homenagem a um grande Português. Alias obrigada por lembrares aos Portugueses que temos gente “bem grande” no nosso pais. Apesar de viver no Canada desde 2006, continuo a ser Portuguesa com raizes em Foz Côa e Moçambique de que muito me orgulho. Desculpa os erros mas o meu computador fala Ingles!!! Um grande abraço e escreve sempre. LKS

  5. João Egdoberto Siqueira says:

    Parabéns, Professor! Ao ler o texto, enxergamos-vos e ouvimos-vos como se presente: sem papas às línguas, com retidão e, principalmente, com respeito e justiça a que de direito. Se nossa a memória do nosso passado é curta, que será de nosso futuro?!
    O contato não está sendo frequente, mas a lembrança é perene!
    Fique bem, meu Professor!
    Siqueira e Cynthia

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