29 Jul 2012, 14:12

Texto de

Opinião

Navegar é preciso…

Muito do turismo moderno partilha do pecado mortal do etnocentrismo. Ir visitar outras culturas mas sem entrar em verdadeiro contacto.

Michel Foucault, no início da sua obra “História da Loucura”, faz uma referência a Gil Vicente a propósito dos seus autos das barcas. As barcas, embarcações que durante a Idade Média viajavam de porto em porto, funcionavam como transporte para o que era indesejável em cada cidade. As barcas criavam uma zona de ninguém, em que o excluído e as identidades pardas se mudavam de lugar em lugar.

Neste sentido, as barcas transportavam pessoas que eram excluídas e que se iriam sujeitar ao julgamento e à opinião de outros no esforço de se adaptarem a um novo espaço. Gil Vicente nos seus autos explana detalhadamente diversos tipos de figuras medievais (ou tardo-medievais) e o modo como elas são julgadas ou se relacionam com a esfera religiosa – no fundo fazendo um julgamento moral sobre os seus comportamentos.

E nos dias de hoje?… No que ao turismo diz respeito, o segmento dos cruzeiros é um setor da atividade que tem vindo a conquistar importantes franjas do mercado, sendo resistente à crise mesmo no que ao mercado nacional diz respeito. A atividade de marketing tem desdobrado a oferta de cruzeiros pelos mais variados grupos de interesse: desde os cruzeiros dedicados ao desporto, aos casuais, aos dedicados à família e por aí em diante. Para muitos fazer um cruzeiro será a concretização de um sonho de uma vida (ou um sonho induzido por campanhas publicitárias?); para outros, uma alternativa diferente às férias que já se costuma fazer.

A atividade cruzeirista apresenta diversas vantagens: a vantagem de um hotel (o navio) que oferece normalmente muitos serviços ao melhor nível, ao mesmo tempo que se desloca, permitindo depois a visita a locais diferentes a partir do elemento mais invulgar que é a água.

No entanto, e usando da grelha foucaltiana evocada fugazmente no início do texto, o que poderemos acrescentar? Se nos tempos medievais a barca era o que levava, o que no fundo aliviava as cidades da desordem e do indesejável, o cruzeiro moderno procede de modo exatamente oposto. Os navios estão cheios de ordem, transportam todos aqueles que dispõem de meios económicos suficientes para despender neste género de férias – uma elite no fundo. O cruzeiro é o mesmo que se desloca, o turista que deseja ver os outros a partir do seu bem-estar, que não deseja contactá-los mas apenas a sua ver a superfície.

Muito do turismo moderno partilha do pecado mortal do etnocentrismo. Ir visitar outras culturas mas sem entrar em verdadeiro contacto. Visitas apressadas e sem tempo para verdadeira troca. No fundo: o turista fotografa não para ver melhor mas para mais tarde recordar o que não viu. Um comportamento paradoxal que acaba por reforçar a cegueira: penso que conheço o outro, porque estive lá, mas sem nunca verdadeiramente ter estado lá…

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.