6 Jul 2012, 20:03

Texto de

Opinião

Napoleão, Lenine e a “esplanadação” das praças do Porto

,

Se a generalidade das construções já são privadas, o estacionamento foi concessionado, a limpeza também, o que falta? Privatizar o espaço público!

Houve um tempo (e um lugar) em que se acreditou que a força do Estado, sobretudo o republicano, assegurava o reforço da cidadania e era a alternativa correta ao poder absoluto do rei (mais ou menos influenciado por nobres e clero). Alguns levaram tão longe a fé no Estado que acharam até que ele podia substituir quase tudo, eliminando até a diferença entre as pessoas e sacrificando a liberdade de opinião.

A queda do Muro de Berlim fica simbolicamente associada ao fim dessa utopia perigosa. Mas, o que a substituiu não é menos perigoso, acreditando-se que o “livre mercado” é o novo rei absoluto a que o povo se deve submeter.

Na cidade, a tradução do poder (mais ou menos absoluto) do “mercado” e de um liberalismo radical que Reagan e Thatcher conseguiram impor depois da queda do muro não são apenas os shoppings, onde não se pode fazer manifestações ou tocar viola com uma caixa para esmolas na frente, nem sequer tirar fotografias ou relatar qualquer crime.

A privatização da cidade e o triunfo do mercado não se traduziram apenas em loteamentos e condomínios (mais ou menos) fechados, onde alguns vivem por detrás de muros e videovigilância.

A cidade “normal” e (mais ou menos) “histórica” não está imune.

Mas, se a generalidade das construções já são privadas, o estacionamento foi concessionado, a limpeza também (entre tanta outra coisa que costumava estar entregue ao Estado, central ou local), o que falta? Privatizar o espaço público!… Como?

Três movimentos se articulam para tal, um de natureza arquitetónica-urbanística; outro de natureza eminentemente económica; e um terceiro legislativo. Haverá mais talvez, mas a reflexão vai para estes 3:

1. A replicação de projetos de arquitetura fazendo o que alguém chamou a reprodução das eiras de secar milho, ou seja, espaço lisos, de granito quase sempre, com o mínimo de jardins e canteiros, bancos e o que quer que seja que crie “obstáculos” a uma imagem lisa, monótona, tem triunfado no Porto (Aliados, Relação, Leões,…), permitindo a utilização das praças como espaços multiusos para barracas de farturas e carrosséis, feiras, comícios e o mais que faça falta;

2.  Praças, passeios largos e outros espaços lisos públicos (como a Praça da Ribeira) são ótimos para colocar cadeiras e mesas onde se pode descansar, desde que se consuma! Os cafés, bares e restaurantes prolongam-se para o espaço que é de todos e o hibridismo triunfa, pelo que quem se senta tem os pés no espaço que é nosso, mas senta-se numa cadeira que tem dono…;

3. Na Praça da Vitória (ao fundo da Rua de S. Bento da Vitória), o triunfo da privatização é mais requintado, com um espaço público, usado por todos há décadas, a ser fechado com um cartaz dizendo que alguém nos faz o favor de deixar usar um espaço que João de Almada projetou como público há mais de 2 séculos; nas Cardosas, por detrás do edifício que foi convento e onde todos entrávamos há umas décadas (porventura ilegalmente?), agora o espaço abre-se e fecha-se ao comum dos mortais de acordo com a vontade do proprietário do hotel. Haverá mais casos? Seguramente! Quantos mais? Onde? Fica o desafio aos leitores!

Algo parece certo. É que, com o desenvolvimento do turismo, a privatização continua e aprofunda-se. Não se vende apenas a EDP, a Refer e a TAP (a empresas públicas de China, Angola e Abu Dhabi…). Também nas cidades este neoliberalismo e o recuo do Estado tem tradução e vê-se cada vez mais os hotéis a definir os lugares dos táxis ou do estacionamento de autocarros e até a controlar o acesso em ruas de uso exclusivo por peões… para nada dizer de formas mais subtis, como a maneira como, numa área que devia ser de proteção ao Património da Humanidade (do lado de Gaia), se abrem hotéis ou colocam teleféricos como forma de usar em proveito privado a paisagem que é de todos e que também desde Gaia deveria ser valorizada, preservando e defendendo os interesses dos residentes sobre os interesses dos visitantes.

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.