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Foto: Filinto Melo

9 Mar 2014, 14:10

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Opinião

Nada vale mais qu’a Gaia toda, pelo menos para alguns

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No início do ano, o meu filho levou um interessante trabalho de inglês para casa: Fazer um guia para um turista que quisesse visitar um determinado sítio. A professora sugeriu que eles aproveitassem uma das viagens que tivessem feito recentemente, um local de que tivessem gostado ou que os tivesse surpreendido.

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Foi repórter, redactor e editor de "O Primeiro de Janeiro", repórter da revista "Ideias & Negócios" e editor do site Ideiasenegocios.com; entre outros trabalhos, mais independentes do que precários, colaborou com o "Já" e o "Ciência Hoje". Jornalista, portanto, em comissão de serviço (que é como quem diz "a ganhar a vida") no comércio de livros. Adora o Porto e quer escrever sobre ele, sobretudo.

Nos últimos anos, visitou os túmulos de todos os reis portugueses que se encontram na Península Ibérica, foi a Bilbau, Valência e Barcelona, Granada e Toledo, várias vezes a Lisboa, Guimarães, Barcelos, Braga, Viana do Castelo e Valença do Minho, Arouca, Aldeias de Xisto e Aveiro, além de dois périplos pelo Alto Alentejo (e Évora) e pelo Algarve. Por isso, ou talvez não, foi com alguma surpresa que me contou que ia fazer o trabalho sobre… Vila Nova de Gaia.

Não foi totalmente uma surpresa porque ele, bairrista, entende que as freguesias em torno de sua casa têm do mais bonito que pode haver, seguidas de perto pelas restantes freguesias ocidentais do concelho e, só depois, a muita distância, ficam o Porto e as outras cidades, vilas e lugares que visitámos. Manuel António Pina escreveu (em 1979, num texto republicado no livro “Crónica, Saudade da Literatura“) que “talvez as viagens, todas as viagens, se façam principalmente pelo lado de dentro. Talvez, quem sabe?, o viajante, procurando o mundo, caminha sempre de regresso a casa”. Assimilando a especulação, com a sagacidade dos doze anos, o meu filho prefere a casa: a Gaia das caves, do Senhor da Pedra, algumas quintas e o Mosteiro da Serra do Pilar, “que é Património Mundial da Humanidade”.

Lá isso é. Quando o Centro Histórico do Porto foi classificado Património da Humanidade, o mosteiro e a Serra do Pilar, tal como a ponte que os une, a de Luís I, foram integrados na área reconhecida pela Unesco. Naquele ermo, por onde passa “quem vem e atravessa o rio” e vê como na canção o casario de Porto e Gaia, foi fundado em 1537 o Mosteiro de S. Salvador do Porto – que viria a albergar uma comunidade de monges da Ordem dos Agostinhos que vinham do velho e, entretanto, arruinado Mosteiro de Grijó. A primitiva igreja, considerada “pequena e acanhada”, é substituída por uma outra, monumental e original, de planta circular (na forma da igreja de Santa Maria Redonda de Roma) que fazia espelho com os claustros, também circulares. Durante o domínio espanhol, e a paralela importação do culto Mariano, consagrou-se à devoção da Nossa Senhora do Pilar (que ainda hoje se celebra no 15 de agosto).

Paulo Varela Gomes, mestre em história de arte, considera-o “um dos mais notáveis edifícios da arquitetura clássica europeia de todos os tempos, devido à sua igreja e ao seu claustro, ambos circulares e da mesma dimensão em planta”.

Quando entrei no Mosteiro da Serra do Pilar com o meu filho, em dezembro, tinha acabado de ser inaugurado o novo espaço Património a Norte. Enquanto me perdia na exposição sobre o rol de monumentos classificados, ele apressava-me porque tínhamos ido ali ver o Património de Gaia, não outros. Entrou no claustro, tirou notas. Pediu-me fotografias de alguns pormenores da Igreja e, de repente, vi-o nos seus olhos, perdia-se. Já não estava ali. Quando regressamos aos claustros, a sua imaginação estava já com os seus irmãos Hashāshīn a conquistar uma praça ou a defender os justos no Médio Oriente (como no Assassins Creed). Mesmo sem sair de Vila Nova de Gaia ou sem estar em frente da consola de jogos, viajava.

Filinto Melo escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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