18 Nov 2013, 15:33

Texto de

Opinião

Morte à escola pública

A Educação não é uma questão de escolha pessoal Sr. Crato. É um desígnio nacional que deve procurar anular as barreiras sociais e promover o mérito onde ele surja.

Escola

Foto: SXC

Zeus, pela mão de Platão, obrigava a participação compulsória de todos na discussão da coisa pública. Quem se recusasse a participar na arte política era excomungado e mesmo condenado à morte. Essa lição inserta no diálogo Protágoras evidencia a superioridade ontológica do homem e o inalienável direito que lhe assiste em discutir o seu destino e o destino da sua grei. A intervenção política pode e deve ser uma forma elevada de intervir na sociedade. Como não quero ser condenado pelos deuses aí vou eu, com a lanterna na mão, à procura de um pouco mais de luz sobre o Homem e as suas circunstâncias.

Não me está nos cromossomas a atávica tendência lusa de endossar para os outros toda a responsabilidade do atual status quo, sejam eles políticos ineptos e corruptos, sejam eles “merceeiros” gananciosos e sem sentido pátrio. Também tenho culpas no cartório e, por isso, seria hipocrisia da minha parte queixar-me do forçoso apertar de cinto. Estamos todos no mesmo barco, todos temos culpa e todos temos de contribuir para o país sair da crise. Esta é uma verdade incontornável. Ou alguém acredita que se consegue equilibrar as contas externas vendendo cortiça, vinho, fruta e sapatos, importando Mercedes, “bêémes”, iPads, e outros luxos asiáticos. Para equilibrar as contas temos de “vender”: engenheiros, médicos, enfermeiros, mecânicos, trolhas, carpinteiros, e mesmo assim a coisa está preta. Ou os nossos emprestadores reduzem a margem dos seus lucros pornográficos ou vamos andar a penar dívida até aos confins dos tempos. Como o sol ainda tem cerca de 4 mil milhões de anos de vida penso que antes de o nosso astro-rei se transformar numa supernova ainda teremos tempo de pagar a dívida.

Pedem-nos para salvar o país, salvemo-lo. Levem lá parte do meu ordenado, o décimo terceiro mês, aumentem-me os impostos e empobreçam-me a vida, se tal for necessário, para tirar o meu país da ruína económica e da miséria moral que atualmente o caracteriza.

Empobreçam-me mas não me retirem a esperança.

É demonstração de patriotismo integrar o exército da redenção económica de Portugal. Nós, professores, como funcionários públicos que somos, estamos na primeira linha da batalha, recebendo no peito as primeiras e mais letais balas inimigas. Mas somos resilientes, pois quem tem capacidade para descobrir, em esforço recorrente qual Sísifo hodierno, o homem novo que habita em cada criança e jovem, não pode soçobrar às agruras conjunturais de um país que deu novos mundos ao mundo mas que tarda a encontrar o seu lugar no mundo global de hoje que nos impõe inauditos desafios.

Vem isto a propósito do despudorado ataque que o Sr. Crato pro privado, o Sr. Portas dos irrevogáveis juros aumentados e o Sr. de Vila Real que chegou a chefe de comandita neoliberal, fazem à ESCOLA PÚBLICA.

Existem dois domínios que não podem ser manchados pelas patas interesseiras do mercantilismo privado – saúde e educação. Hoje vou falar sobre o problema da escola pública versus escola privada.

Em Portugal, em 2013, todo o cidadão nasce livre. Só que uns nascem livres para assumir as empresas do pai e outros nascem livres para o trabalho escravo. Esta incontornável realidade não pode ser eliminada em absoluto mas pode ser atenuada. Qual o fator que pode atenuar e por vezes eliminar a ditadura do berço? A Educação.

E por isso a Educação não é uma questão de escolha pessoal Sr. Crato. É um desígnio nacional que deve procurar anular as barreiras sociais e promover o mérito onde ele surja. Todo o cidadão que nasce livre deve permanecer livre pelo pleno desenvolvimento das suas potencialidades. Só a escola pública permite tal desiderato pois não está condicionada pela lógica do lucro. A escola pública não é um brinquedo caro de um país. É a forma de esse país crescer sem os miasmas da segregação, sem as entorses elitistas que marcam o ensino privado. Se queremos que a liberdade ao nascer se afirme na liberdade de ser não podemos permitir os guetos elitistas que têm recebido forte alento deste governo mal governado.

Eu quero que as elites do meu país nasçam integradas na escola pública, saudavelmente contaminadas pelas não-elites. Não quero a guetização da educação. Quero a escola como nivelador social, desiderato que está nos antípodas dos interesses das escolas privadas. Não quero que os melhores surjam por decantação social mas por emergência natural do todo educativo.

Vivemos numa sociedade cada vez mais desigual e segregadora. A “guerra civil” pode estar à espreita por detrás da porta da segregação. A forma de evitar que a luta de classes venha a entrar, na sua versão violenta, no modus vivendi das sociedades modernas passa pela redignificação da escola pública e da possibilidade de acesso de todos à educação. Educação plena e não para preencher estatísticas.

A escola pública tem de crescer em sentido de missão, em importância social, em dignidade humanística. Temos de lutar por ela porque ao fazê-lo estamos a lutar por um país mais humano e solidário. Por isso, temos de destruir o ensino privado, seja de cariz religioso, ateu ou agnóstico. Eu sei que este é um sonho de nefelibata mas, no país da Utopia que me move os passos, existe uma escola una, para todos, que permite a emergência dos mais aptos sem o estigma exclusivista que marca o ensino privado.

Não devemos permitir que o ensino privado acentue a ditadura do berço potenciando as desigualdades. Essa é uma das missões patrióticas mais importantes que temos pela frente. Não existe ensino privado de qualidade e outro fraco. O ensino privado é todo mau porque acentua a formação de elites em ambiente socialmente asséptico. E a sociedade não é asséptica; está contaminada com muitos vírus que a podem destruir. O mais virulento dos vírus – a segregação social, pode ser combatido eficazmente pela escola pública. Deem-lhe os meios e a força social para que tal consiga.

Eu quero uma escola pública aberta à inovação e à formação plural.

Os meus impostos e os impostos de todos os trabalhadores deste país devem ser direcionados para dar esperança e sentido de vida a todos que nasçam, independentemente do berço que lhes caia na lotaria da existência. Quero uma escola que recupere a dignidade dos saberes e experiências “supérfluos”. A cultura é um supérfluo, mas o nível de evolução de uma sociedade vê-se pela quantidade de saberes supérfluos (não o são em absoluto) que integram os seus curricula escolares. Música, dança, pintura, escultura, desporto, cinema, fotografia, são saberes que não só formam o homem como lhe abrem as portas de dentro, aquelas que o podem fazer conviver com os deuses e a transcendência.

A escola pública, ultrapassando a sua missão genésica de dar educação a todos deve, também, ter a coragem de funcionar como filtro da excelência. Convenhamos que nem todos conseguirão conviver com a exigência que uma formação séria, profunda e plural implica. Esses terão na escola pública específica a possibilidade de desenvolver competências escolares e para-profissionais adequadas ao seu nível de empenho e desenvolvimento. A sociedade não pode excluir ninguém. Quem quiser que se exclua por moto proprio.

A escola pública é um incontornável nivelador social. Que aqui e ali está mal orientada, está. Mas hoje está muito melhor que ontem. Hoje, apesar das patifarias que os vários desgovernos têm feito à escola pública, existe uma tensão para a qualidade que move a maioria dos professores e que permite manter um módico de qualidade que nos faz avançar nas estatísticas internacionais. A escola pública continua a melhorar, apesar dos maus governos.

O Sr. Crato, tal como Marter Luther King, teve um sonho. Luther King sonhava por uma sociedade de homens livres onde todos fossem iguais em direitos e oportunidades para lá dos credos, da cor da pele e das idiossincrasias. O sonho do Sr. Crato é destruir a escola pública, abrindo a lógica mercantilista neoliberal a todos, mesmo aos professores, que assim se transformariam nos próprios assassinos da escola pública que os formou e lhes deu sentido de vida. Perverso sonho.

Sou ateu e por isso desprovido de bengalas escatológicas. Mas ainda era capaz de abdicar de mais algum do meu ordenado se alguém me desse a certeza que no final dos tempos ia ver o Sr. Crato a arder, num caldeirão, no inferno dos seus pecados.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Araújo says:

    Como cidadã e professora fico grata por esta excelente publicação.Desejo que se possa desencadear uma profunda reflexão a partir das questões aqui enunciadas que se apoiam em principios e causas e vão muito para além das reações,tão pontuais e oportunistas, que por vezes provocam mais indiferença do que empenho na defesa de direitos e maior consciencia de justiça social.

  2. Rodrigo Almeida says:

    Fantástico comentário… realmente na sociedade não há espaço para um cartesianismo mercantilista. Afinal, a sociedade e todas as suas vicissitudes é que, no sentido da interação, dá o verdadeiro estímulo informacional fundamental para se desenvolver cidadãos vividos e o homem como um todo. No sectarismo ideológico da escola privada estas conjunturas não existem, promove-se o desenvolvimento de um ser inexperiente e incompleto, sem os anticorpos fundamentais para se despertar uma autonomia nestes cidadãos.

  3. Mais um excelente texto, de inconformismo e apelo à valorização do homem como ser inteligente que é, capaz de operar qualquer mudança, mesmo em situações de dificuldade extrema.
    A nossa classe política, empenhada em recuperar o “assento dos deuses”, onde nada é posto em causa e tudo é “inspiração divina”, entende que a escola pública, não pode continuar a criar talentos vindos de classes não privilegiadas ou ditas inferiores. Entendem que è às elites financeiras, que cabe esse “desígnio” nacional….
    Aos outros cabe a subserviência e sobrevivência, através de um salário miserável com algumas palavras de conforto.
    Não sou homem de esmolas nem de coisas a metade.
    Como professor aposentado, também não sei o que significa pedagogicamente uma escola pública ou privada.
    Sei e isso sim, o que é uma escola. “Lugar onde o valor individual se revela e se valoriza, independentemente da sua proveniência ou fonte de origem”.
    Tal como o autor do texto acima, meu colega e amigo Zé Augusto, também sou irreverente e como ele, também penso e digo:
    “Tirem-me tudo…, menos a esperança”.

  4. Domingos Silva says:

    Crato vem de um “plano inclinado” e de lá não saiu. Crato é um erro crasso. Crato penhorou a educação, sem pedir pareceres ou opinião. Crato é o “sim, chefe” do pinóquio., … e o pinóquio agradece! O Pinóquio anda a vender Portugal aos retalhos, o Crato oferece a educação pública aos privados. Crato é o patrocinador do desemprego entre os professores. Crato ofereceu de “mão-beijada” a escola pública ao seu empregado (ou também será chefe?!), o secretário de estado. Crato é burocrato. Crato é um pensador de retrete, só tem ideias de merda. Crato é botânica “uma espécie de fava preta algarvia”. Descarte-se este Crato.
    Porque, tal & qual o pinóquio disse quando era candidato: “a pior coisa é ter um governo fraco”, acrescentando que “se formos governo posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português”. Direi que o pior que a educação pode ter é Cratos destes.
    Domingos Silva
    18-11-2013

  5. José Machado says:

    Eternamente grato por ter sido meu professor e pelos ensinamentos para a vida que me tornaram o homem que hoje sou,Fui Sapador Bombeiro,hoje aposentado,continuarei a idolatrá-lo onde quer que esteja,GRANDE HOMEM José Augusto,como sempre,na defesa da verdade pela verdade,grande abraço deste”velhote”

  6. Dinis Santos says:

    Concordo plenamente com o texto, mais uma vez um grande texto de uma “grande” cabeça! Parabéns pelas palavras e que tentem mudar o rumo da educação!

  7. Avaliações, rankings, cessação de contratos, horários zero, agrupamentos e mega-agrupamentos, mudanças de programas, agressões a docentes, aumento do número de alunos por turma, cheque-ensino ou, mais pomposamente, liberdade de escolha, exames para ingresso na carreira. Se juntarmos a tudo isto um Ministério empenhado em reduzir a importância da escola pública (…) podemos constatar que a educação em Portugal se transformou num campo minado onde falta tudo o que é essencial para que funcione, escreve o jornalista Manuel Carvalho, na edição do Público de domingo.

Opinião

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