21 Jan 2012, 19:11

Texto de

Opinião

Monólogos de um cidadão: a urgência da psicanálise do conhecimento

,

O discurso sobre a crise cristaliza-se em opiniões de café ou em debates televisivos, transformando-se numa inevitabilidade que temos que aceitar a todo o custo.

Grafito numa rua do Porto

Foto: Pedro Rios

Tudo o que ouvimos ultimamente são vozes a apregoarem tempos difíceis, tempos de austeridade, de contenção de gastos públicos, de cortes nas regalias. Tais discursos invadem desde o mais modesto operário ao mais sapiente académico, do destemido marginal ao mais integrado cidadão, do simples presidente da junta de freguesia até à distante e tão presente troika. Imagino até um programa televisivo do tipo “Peso Pesado” aplicado aos Estados da Europa, devidamente apresentado pelos enigmáticos senhores do triunvirato, a ver qual dos Estados perde mais peso rapidamente e em menos tempo.

Todos conhecemos o mediatismo que marca o mundo dos nossos tempos. E um mundo mediático rege-se por símbolos, por códigos que imprimem formas de pensar e modos de agir. Nos tempos que correm, a informação anda sempre à frente do Homem. Para funcionarmos na “Sociedade espetáculo” temos que absorver notícia, consumir notícia, respirar informação. Pegando na máxima de que um homem prevenido vale por 2, eu diria que, neste mundo mediatizado, um homem informado vale por 3 ou 4, ou por 7 ou 10.

É desta forma, que o discurso em torno da crise se tem mediatizado também, cristalizando-se em opiniões de café ou em debates televisivos, em chavões fáceis, transformando-se numa inevitabilidade que temos que aceitar a todo o custo. E como todo o discurso que se mediatiza, este também foi alvo de um conjunto de modificações e de adulterações, que teve como consequência uma maior amplificação discursiva em torno da complexidade que o tema geraria por si só, uma “crise da crise”, explicitando melhor.

Daí que a categoria “crise” seja o item que temos sempre em acesso direto no ambiente de trabalho da nossas vidas, para que evitemos andar a percorrer o nosso computador interno, disco rígido em disco rígido, pasta por pasta, ficheiro por ficheiro. Tudo se torna mais fácil quando o mundo se organiza em categorias e se elaboram raciocínios através delas.

Recuso-me a entrar pelo “economês” dos mercados, das agências de notação financeira. Nem quero utilizar a linguagem económica demasiado complexa. Primeiro, porque não a domino. Segundo, porque com a parafernália linguística que a caracteriza, contribui em muito para distanciar os cidadãos do que se passa no mundo. Aqui está uma boa demonstração de como a dicotomia do “ter  conhecimento vs. não ter conhecimento” rotunda no mesmo fim. Se antes era a inacessibilidade ao conhecimento uma condição para a manutenção das estruturas de poder e de opressão, nos tempos de hoje a informação que superabunda e que enforma os sujeitos conduz a essa mesma perpetuação das injustiças.

A área laboral é um bom exemplo de análise visto possuir um conjunto de designações que traduz na essência as pretensões desta “sociedade Facebook“. O factor de inclusão e de exclusão dos indivíduos reside maioritariamente na competência dos mesmos. Os trabalhadores valem mais por aquilo que fazem do que por aquilo que são, que é aliás uma tendência do pós-modernismo em todas as esferas da vida social. E aqui importa parar e reflectir: informação, competências… Eis uma sociedade que rejeita a crítica, que procura constantemente indivíduos que desenvolvam competências com base na informação.

Por estes dias assistimos, mais uma vez, a uma destruição da instituição Trabalho, tornando-se a colocar em causa a dimensão socializadora e integradora que esta instituição social adquiria noutras épocas históricas. A “ética do trabalho” e a consequente ” condenação à ociosidade” que lhe está associada, ambas emanadas no século XIX e prolongadas até aos nossos tempos, esbarram com as modificações no mercado laboral, este cada vez mais excludente do que propriamente fator de inclusão.

Na arena política, as alterações ao trabalho foram discutidas recentemente em sede de concertação social. Estranha discussão esta em que se adivinhava desde o início o desfecho: agravamento das condições de quem trabalha, mais precariedade, e ausência de perspectivas para quem ainda continua a fazer das idas aos centros de emprego um verdadeiro emprego.

Os trabalhadores sempre foram o alvo mais fácil de atingir. Há dias, o presidente de um grande grupo económico nacional, a Jerónimo Martins, fugia com o seu património para a Holanda, com reduções fiscais consideráveis relativamente a Portugal. Dizia Soares dos Santos, o tal fugitivo, que salvaguardava algo que era dele, que estava só a defender o seu património. Mas quando um singelo trabalhador ousa lutar pelo seu modesto património, que é, claro está, o seu posto de trabalho de todos os dias e os direitos que a ele estão associados, é alvo de uma implacável ofensiva por parte dos decisores económicos e políticos.

Por outro lado, a ciência tem andado ultimamente adormecida e contribuído para a amplificação das injustiças e das desigualdades sociais. Coisa que não me estranha, ou não fosse a ciência muitas vezes uma extensão refinada dos mecanismos de poder. Lembro-me que a psicologia do trabalho, por exemplo, conheceu em finais da década de 30 do século XX uma revolução científica: falo do movimento das relações humanas, e tinham como Elton Mayo o principal líder de tal revolução. Nela se propunha uma nova forma de organização do trabalho e de mediação das relações laborais. O trabalhador deixaria de ser um sujeito passivo e controlado friamente pelo sujeito “que-pensa-o-trabalho”, por quem o coordena, por quem o corta e acrescenta. Passaríamos, portanto, de uma abordagem “taylorista” de inícios do século XX para uma abordagem que encara o trabalho como um espaço em que se verificam um conjunto de interacções, positivas ou negativas, causadoras de bem ou mal-estar, de pouca ou muita produtividade. As experiências na Western Electric em Hawthorne vieram enfatizar a dimensão social e informal do trabalho. Contudo, apesar deste avanço epistémico, ainda se estava perante a mesma premissa de base: o porquê da não-produtividade dos trabalhadores.

Mais tarde, nos anos 70 do século XX, as ciências psicológicas viviam o apogeu do cognitivismo de segunda geração. A psicologia do trabalho acabou por ser influenciada por essa tendência epistémica. Passado mais que um século da organização científica do trabalho enunciada por Frederick Taylor, o psicólogo do trabalho Ochanine elaborava uma teoria da operatividade que, apesar de já falar em “operador” em vez de “trabalhador”, apontava para uma postura reducionista do mesmo. Este era concebido no seu posto de trabalho através de um conjunto de skills, uns mais dominados pelo operador do que outros, ao longo da sua experiência de trabalho.

O que será que traduz esta tendência de “apagar” os impulsos científicos que provocaram, ou tenderiam a provocar, revoluções científicas? A ciência vive na base de um inconsciente que assenta na manutenção da ordem social. Urge portanto fazer aquilo que um eminente filósofo francês, Gaston Bachelard, designou um dia como a psicanálise do conhecimento científico. 

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.