12 Nov 2011, 20:05

Texto de

Opinião

Mobilidade: um bem sobre-taxado

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A mobilidade é um bem central que está caríssimo. É um elemento central para a competitividade das empresas e dos trabalhadores nacionais. Resta-nos a última alternativa que seria o andar a pé.

Mobilidade

As cidades já não estão feitas à dimensão do humano

A mobilidade, conceito central nas sociedades modernas, exigiu que as nossas vidas fossem construídas de acordo com os seus ditames. Comboios, metros, autocarros, mas também vias rápidas e automóveis, levam-nos a todos os lugares da cidade. O espaço urbano está pensado de acordo com as suas exigências. Os percursos profissionais exigem essa mobilidade e maleabilidade. Não se trata apenas de desenvolver competências, mas também de poder aplicá-las em diversos locais, por vezes bem distantes entre si.

Este bem, indispensável na atualidade, é objeto de pesadas taxas e impostos. Vejamos: o automóvel é sujeito a imposto de circulação; taxa máxima de IVA para manutenção; imposto sobre produtos petrolíferos nos combustíveis que consome. Como se isso não bastasse, existem também as famigeradas portagens (e os percursos com portagens invadiram inclusive espaços de trânsito urbano e metropolitano).

Que alternativas há? E que opções elas configuram? Sob a designação de transportes coletivos agrupam-se os autocarros, metros e comboios. Ora, no passado recente a bilhética de todos estes sistemas de transporte foi agravada. Para uma família com 3 ou 4 membros que se desloque diariamente para o centro portuense não compensa o transporte coletivo. Mas aí, se não se tem estacionamento no local de trabalho, é-se alvo fácil dos parques de estacionamento com tarifas assustadoras.

Os movimentos são, pois, contraditórios: fala-se em favorecer o transporte coletivo, mas impõem-se bilhéticas paradoxais. É neste contexto que se falou em portagear o veículo que entre no centro da cidade – citando-se o exemplo londrino – como uma medida de rara inteligência.

A mobilidade é um bem central que está caríssimo. É um elemento central para a competitividade das empresas e dos trabalhadores nacionais. Resta-nos a última alternativa que seria o andar a pé – não fossem as distâncias médias entre local de trabalho e domicílio assustadoramente proibitivas.

Evocamos a questão do ir a pé de uma forma irónica, mas também amargamente ilustrativa. É que as cidades já não estão feitas à dimensão do humano, mas do binómio humano-máquina. Olhemos para muitos dos novos hospitais – veja-se o de Braga – ou centros comerciais e constataremos que não são sequer pensados para serem alcançados a pé, mas antes de carro ou de outra forma de transporte.

É esta uma das armadilhas do urbanismo contemporâneo: não é pensado para o homem, mas para o binómio homem-automóvel (ou, mais raramente, outro meio de transporte). As consequências expressam-se depois no dispêndio de energia – combustíveis – e nos movimentos pendulares em termos de tráfico. E as consequência em termos de saúde mental que este estado de coisas implica em muitos de nós. Os relatórios de saúde que elencam vários indicadores estão aí. No nosso país, o consumo de antidepressivos e ansiolíticos estão a níveis assustadoramente altos.

A forma como pensamos nas nossas cidades, ou melhor como as não pensamos, terá a sua quota-parte na explicação deste estado de coisas.

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Há outra alternativa, visível em várias cidades espalhadas pelo mundo: a bicicleta. Paris é um incrível exemplo da reintrodução deste meio de locomoção, excelente para a mobilidade dentro do tecido urbano mais denso. Em 2007, procedeu a essa adaptação, na capital francesa, com incrível sucesso, atualmente.

    Uma articulação bem feita com metro ou autocarro permitiria o transporte da bicicleta para a entrada da cidade, favorecendo a sua utilização a quem vive na periferia (resultado de anos de políticas erradas de urbanismo, mas isso é outra conversa).

    No Porto, começa a sentir-se um ressurgimento tímido do ciclismo urbano. O argumento de uma topografia desfavorável é mera desculpa para quem não sente necessidade (ainda) ou não tem vontade de abandonar o automóvel.

  2. Daniel Fonseca says:

    O binómio homem-máquina não tem que estar necessariamente errado; no sentido da nossa evolução, andar só a pé já não chega é pouco eficiente, a “máquina” é que não precisa de ter um motor dos que dão cabo do ambiente, podemos considerar a bicicleta, uns patins ou mesmo até as sapatilhas com rodinhas atrás como as dos miúdos, não é preciso é reinventar a roda, porque ela já foi inventada, é só dar-lhe bom(ns) uso(s)!

  3. Nuno Oliveira says:

    “Resta-nos a última alternativa que seria o andar a pé”

    E a bicicleta. Também observo o (re)aparecimento das boleias.

  4. Pedro Medina says:

    Precisamente pelos motivos apontados, a bicicleta deverá ser considerada uma importante parte da solução para os problemas de mobilidade. A maior parte das cidades civilizadas já percebeu isso e tem vindo a adoptar medidas no sentido da melhoria das condições para os ciclistas.

  5. Saberá o doutor do que fala! Talvez não. Talvez não saiba que andar a pé é afinal possível. Talvez no seu dia-a-dia não passe sem as tais nuances obscuras, não as do binómio humano, que é para não se cansar, mas as do binário automóvel para poder acelerar. Pedalar uma bicicleta é e sempre foi uma opção. Integrar a bicicleta com os transportes públicos é e será a alternativa para as distâncias médias entre local de trabalho e domicílio. Já agora, quantos carros entrarão na cidade, para o centro portuense, transportando uma família com 3 ou 4 membros? Compensaria essa estatística o argumento para o desagravamento das taxas e impostos rodoviários?

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