21 Mai 2012, 18:44

Texto de

Opinião

Os carros de compras e a cidade

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O presidente da Associação dos Comerciantes do Porto defende a transformação do automóvel numa espécie de carrinho de supermercado.

Mobilidade

Foto: Flickr

Na semana passada tive o prazer, ou desprazer, que ainda estou a pensar nisso, de ir ao Porto Canal participar num debate sobre comércio tradicional (“Concelhos e Negócios” de 17 de Maio). É que sou um comerciante desse tipo, agora sim, com muito, mesmo muito, prazer.

Não sei se sou um parvo, se sou um visionário, mas acredito mesmo que as coisas vão mudar e que a “suburbanice” dos shoppings está de dias contados e que o futuro passa, tal como o passado passou, pela rua. Isto é válido tanto para o mainstream, como para o comércio de bom carácter.

Fiquei aterrorizado, mal cheguei ao Porto Canal, com a conversa que ouvia na antecâmara do estúdio. Falava-se de carros e da absoluta necessidade de os ter à porta das lojas para o comércio tradicional acontecer. Foi por isso que entrei no estúdio já mal disposto, apesar de não parecer. É que disfarço bem e também não queria esta guerra ali, que se falava de outras coisas.

O Nuno Camilo, presidente da Associação dos Comerciantes do Porto, a caminho do terceiro mandato, era o autor do discurso, que foi continuando debate adentro. Entre amostras dos típicos papéis com os dados da desgraça e uma ou outra coisa que já todos ouvimos muitas vezes, lá foi atirando coisas como “alguns comerciantes ficam chocados quando defendo que a Rua das Flores não pode ser pedonal” ou “o Porto é muito acidentado e as pessoas não podem carregar sacos entre Santa Catarina e Cedofeita”. Foi neste ponto que percebi que o que defende o Nuno Camilo, rapaz ainda novo, é a transformação do automóvel numa espécie de carrinho de supermercado.

O que os papéis com os gráficos da desgraça não dizem é que o modelo de desenvolvimento autocêntrico das cidades, fortemente ancorado em paradigmas de meados do século passado, foi uma das causas mais directas do declínio daqueles que supostamente defende: o esvaziamento em massa dos centros das cidades para os subúrbios, onde os especuladores do costume trataram de construir os monstros comerciais com todos os confortos para quem faz o bypass à cidade dentro de uma lata, perpetuando o ciclo estacionamento do trabalho – estacionamento do shopping – garagem lá do condomínio – estacionamento do trabalho.

O que os gráficos da desgraça também não dizem é que ninguém vai de carro, a pé ou de bicicleta comprar um mau produto, caro e a uma hora inconveniente. Também não dizem quais são os atributos de um outro comércio tradicional, o de qualidade e que funciona, que continua de boa saúde, mesmo sem estacionamento à porta.

Felizmente, muitos comerciantes do Porto já perceberam o que é necessário fazer e são eles que estão a voltar a dar vida à cidade, ao arrepio da doutrina ultrapassada da  sua Associação.

  1. Goncalo says:

    Em 1º lugar acho lamentavel a arrogancia e o tom deste senhor.

    “Na semana passada tive o prazer, ou desprazer, que ainda estou a pensar nisso, de ir ao Porto Canal participar num debate sobre comércio tradicional”
    Alguem o obrigou?
    Se calhar depois de ver a gravação da figura que fez, é por isso que está arrependido…

    “Foi neste ponto que percebi que o que defende o Nuno Camilo, rapaz ainda novo,”
    Rapaz ainda novo… o senhor deve ser a voz da experiencia…

    E depois o que aqui escreve não é o que foi dito no debate.

    O actual presidente da associaçao dos comerciantes foi o primeiro a admitir que tem de haver mudanças no comercio e que tem de evoluir, e a associaçao tem feito por isso.
    Defendeu por exemplo uma melhor adaptação dos horarios. Estando por exemplo abertos de acordo com a zona.

    Agora o que foi dito é que não é por ser pedonal que se vai trazer pessoas a certas ruas. Em Santa Catarina faz sentido, mas por exemplo em Cedofeita e na Rua Sto. Ildefonso nao foi uma boa solução.
    Será que sendo a zona toda com carros a rua das flores por ser pedonal vai ter mais gente? Vao começar a andar lá de bicicleta?

    Já agora é muito bonito afirmar que toda a gente deveria andar de bicicleta, mas na verdade é impossivel de acontecer. A Cidade é acidentada, muita gente trabalha longe de onde vive, e gostava de ver como muitos idosos andariam de bicicleta pela cidade.

    Já que vai haver eleições para a Associaçao o senhor deveria apresentar uma candidatura de futuro! E acabava com os carros na Cidade toda!

    • Yeti says:

      Ó senhor doutor engenheiro (ohoh tantos titulos) nuno camilo, deixe-se disso. O Porto tem muitos carros. Precisa de mais bicicletas, mais metro e mais autocarros. Ponto final. Agora, quem teve sempre carrinho para ir ao fundo da rua ou motorista nunca vai perceber isso.

  2. bela ideia,eu se fosse o Miguel ,candidatava me,e acredite que ele ganha. says:

    aí está uma grande ideia.Miguel Barbot,candidata te.acredite,que ele ganha.

  3. Miguel says:

    Geralmente é sempre assim em altura de eleições.

    Sabem todos muito, fazem todos ainda melhor!

    Candidatarem-se para trabalhar em prol e na defesa de todos os comerciantes, isso é que não dá muito jeito.

    A critica construtiva é sempre bem recebida, venha ela de onde e de quem vier.

    Criticar por criticar, só dá notoriedade de burrice, o que pela idade e experiência não lhe fica muito bem.

  4. Ricardo Morais says:

    Não li ninguém a falar de bicicletes só de menos carros. A cidade tem demasiados carros.

    Muito bom texto.

  5. Carlos Faria says:

    Do que li, e agora e o que ouvi na entrevista, parece-me a mim, que o Sr. Miguel Barbot, nao esta preocupado com os Comerciantes da Cidade, mas apenas está interessado no seu proprio negocio, parece-me logico, se vende bicicletas é normal que queira a cidade cheia de bicicletas.

    Já agora se a rua onde o seu estabelecimento fosse numa rua pedonal, gostaria de saber, como é que conseguia que os seus fornecedores fossem descarregar.

    Sr. Miguel Barbot, eu moro em Santa Catarina, tenho 2 filhos e familiares idosos, acredite que de bicicleta é dificil descarregar o carro.
    Mas o Sr. Não deve saber isso.

    Como já disse anteriormente, vivo em Santa Catarina e, ainda bem que o Sr. Camilo é jovem, pois o seu trabalho é de um jovem, mas de um jovem empreendedor e inovador e pode crer que eu vejo o trabalho que a Associação de Comerciantes faz junto dos Comerciantes.

  6. Sérgio says:

    Tenho a certeza que a Rua da Flores pedonal vai ter muita mais vida e pessoas, só pode achar o contrário quem lá não põe os pés há muito tempo…

    Alguém que ainda acredita que a cidade vive em torno do automóvel não deve estar em cargos directivos sejam lá eles quais forem.

  7. Tininha says:

    Meus Senhores só para dar uma achega, eu vivo na Rua das Flores, mesmo ao lado de uma empresa, que tem 2 lugares privativos, não imagino do que seria dessa empresa se a rua fechasse, eles estão sempre a carregar camionetas.

    Já agora, e felizmente a nivel profissional fui obrigada a percorrer grandes Capitais Europeias e nunca vi uma rua pedonal com um declive acentuado, como a rua das Flores.
    Mas se calhar vi mal…

  8. “os nossos clientes chegam à loja de bicicleta”

    O fundamental para o sucesso do comércio tradicional não é ter carros a passar ou a estacionar à porta. O fundamental para o comércio local não é atrair carros, mas atrair pessoas. Ter pessoas que passem a pé, de bicicleta, e que parem para ver as montras, que socializem nos cafés, que reconheçam outras pessoas, amigos que ocasionalmente saem das lojas com um saco de compras e vão para casa a pé, de metro ou de autocarro. Uma cidade do futuro precisa de ruas e pessoas, precisa de espaços pedonais porque é mais fácil de caminhar por eles, porque mais facilmente se chega a algum lado através deles, porque não há carros nos passeios, não há ruas engarrafadas, não há poluição.

    Tenho pena de ouvir os comerciantes receosos de que o seu problema se resume a achar que só quem anda de carro vai parar, entrar e comprar, porque não vai. Vejamos o que se passa em muitas cidades europeias onde o trânsito é altamente condicionado no centro, onde há movimento, pessoas e vida.

    E depois, que ideia estúpida é essa que as pessoas têm medo de fazer um coisa tão inocente como andar de bicicleta? Se ainda não viram idosos a andarem de bicicleta pela cidade devem andar muito distraídos. Se a cidade é acidentada talvez seja porque o carro é o causador de muitos acidentes (esta foi propositada). Esse argumento não pega e todos nós que pedalamos diariamente pela nossa cidade, e outras, andamos atentos e temos sido testemunhas (aqui e aqui) que a bicicleta não escolhe idades e que esse mito da cidade aos altos e baixos está há muito ultrapassado.

    Obrigado por tudo Miguel.

  9. Indurain says:

    Na minha opiniao porto e uma das cidades mais ciclaveis que ja vi nunca, eu vivia em madrid e fazia muito mtb desde os 15 anos mas nunca deixe o carro pela bike, quando cheguei ao porto foi um espectaculo, vendi o carro e tudo. força a todos andem de bike sejam criativos!

  10. Yeti says:

    (muito)Mais autocarros, mais linhas de metro, mais bicicletas, mais andar a pé, menos carros na cidade, é disso que precisamos.
    Claro que quem teve sempre motoristas ou carrão para ir ali à esquina nunca vai perceber isso.

  11. Daniela Saraiva says:

    Primeiro gostava de dizer que tenho uma loja numa rua de transito condicionado e que acho que é uma vantagem para mim! Os turistas sentem-se seguros a andar pela rua exploram-na mais, visitam as lojas com mais calma…
    Quanto às empresas e às cargas e descargas são feitas na mesma com autorização e tempo limite para isso o que torna a rua mais funcional!
    Quanto às bicicleta, vivo num sítio em que a bicicleta é utilizada por muitas pessoas de idade e que muitas vezes é para elas muito mais fácil a deslocação de bicicleta que a pé.
    O argumento que geograficamente é impossivel andar no Porto normalmente é feito por quem nem tentou andar…
    De qualquer forma acho que o que disseram era que se devia abolir o trânsito automóvel no centro das cidades e não em adoptar a bicicleta como meio de transporte…

  12. Mauricio says:

    Sabem o que é que os shoppings tem? Pessoas. E sabem o que é que os shopphings NÃO tem?? Carros…
    Pelo menos nunca tive de andar ás voltas de um carro para entrar numa loja nem nunca tive de saltar num corredor por causa de um carro desgovernado.

  13. carlos says:

    Realmente é verdade os shopping não tem carros… agora entendi o que são aqueles parque de estacionamento por baixo… não são carros, devem ser legos! e é verdade nos shoppings é só bicicletas, dentro da Sport Zone!

    • Ricardo Morais says:

      Tem tanto como Cedofeita, com o Parque de Carlos Alberto ao lado.

      Meu deus, que resposta ridícula.

  14. Daniel says:

    Bem visto Mauricio. Nos shoppings os carros ficam estacionados em sitios proprios depois as pessoas tém que caminhar algumas centenas de metros para ir as lojas.
    Mas parece que os comerciantes do Porto não se importam que os clientes tenham que tropeçar em carros estacionados em cima dos passeios quando vão fazer compras. As vezes parece que a vontade deles era que pudessem entrar pela loja a dentro de carro!

  15. carlos says:

    mas o grande problema é que o que está escrito neste texto não corresponde ao que foi dito no debate!
    Esse é o grande problema

    • Amigo Carlos, se calhar não está a falar do mesmo debate em que participei. Ora vejamos as declarações do Nuno Camilo:

      Aos 41’40” -“O Porto é uma cidade muito acidentada o que provoca uma diferença relativamente à mobilidade das pessoas. Se nós hoje olharmos e pensarmos, uma pessoa que tiver que ir a Santa Catarina e tiver que ir para Cedofeita a pé, torna-se complicado. É muito melhor haver essa mobilidade em termos de carros”.

      Aos 42:45” – “A Rua de Cedofeita era das mais movimentadas da Cidade do Porto, que passava lá uma série de carros todos os dias e hoje vemos uma parte pedonal em que os comerciantes se queixam constantemente”

      Aos 42:58” – “E vemos agora uma intervenção que a CMP deseja fazer e que está a preparar para isso na Rua das Flores para tornar a rua pedonal, o que nós consideramos que é o melhor caminho e que vai fazer com que muitas pessoas deixem de frequentar estas zonas”.

      • uma correcção ao último comentário, onde faltava um “não”. O que o Nuno disse foi:

        “(…) para tornar a rua pedonal, o que nós consideramos que NÃO é o melhor caminho e que vai fazer com que muitas pessoas deixem de frequentar estas zonas”.

  16. Ricardo Duarte says:

    Realmente vivemos num país muito complicado, não posso deixar de dar o exemplo da Dinamarca e restantes países nórdicos que tanto temos aprender com eles….mas hoje não me apetece discutir que estou cansado de ter estas discussões……Força , Miguel e manda-os aquela parte!!! Pá, na Dinamarca quase 40 % da população desloca-se diariamente( esteja sol ou neve!!!) de bicicleta no trajecto casa-trabalho-casa e é por isso que é o País mais feliz do Mundo, com uma economia funcional e moderna, meus senhores!!!!!!!!!!!!!!! E deixem-se de grilos na cabeça quando dizem que o Porto é acidentado, acidentes são vocês….

  17. john says:

    Normalmente os lugares para estacionamento à porta das lojas não são usados pelos clientes. São os próprios comerciantes que estacionam lá os seus carros o dia inteiro.

    Realmente algum comércio tradicional está ultrapassado e o Camilo é o símbolo disso.

    Faltam-nos mais pessoas com a fibra e a corajem do miguel. Produtos e ideias novas, a pensar no futuro.

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