3 Jul 2012, 19:23

Texto de

Opinião

Um direito recusado

Não tenho carro e não me sinto na obrigação de o ter. Sinto-me no direito de transportar o meu filho na bicicleta e sinto esse direito negado por não ter por onde.

Miguel Barbot de bicicleta com o filho

Foto cedida por Miguel Barbot

Ando de bicicleta sem medos.

Pego na bicicleta e naquilo que tiver que pegar e vou. Vou carregado com pessoas e tralhas, sem capacetes, sem frescurinhas, mas com cuidado e o respeito possível pelo código de estrada.

Há vezes em que passo vermelhos, admito. São aquelas em que não vem ninguém. Há vezes em que ando em sentido contrário, quando não há perigo, objectivamente. Pecadinhos inocentes, justificados por ser apenas a minha integridade a estar, no campo teórico, em risco.

Há coisas que não faço. Entre essas coisas que não faço inclui-se andar em cima de passeios. É que acredito que há uma espécie de hierarquia na estrada. Essa hierarquia é a inversa da da maioria das pessoas que usam a rua e tem como o seu topo o querido peão e, bem lá na base, os pesados e usurpadores monstros fumegantes de lata.

O peão manda. O peão é mais que as bicicletas, é mais que os carros, é mais que os outros peões que correm. É mais que o metro e mais que o autocarro.

O peão tem o direito à cidade. Tem o direito de cortar a direito sem olhar e o direito de andar a direito sem se desviar. Somos nós, todos os outros, que lhe negamos esse direito. Aos bocadinhos.

É por ter isto bem presente, que há dias, muitos, quase todos, em que me sinto culpado. É nos dias em que carrego o meu bem mais precioso na bicicleta.

Não tenho carro e não me sinto na obrigação de o ter. Sinto-me no direito de transportar o meu filho na bicicleta e sinto esse direito negado por não ter por onde.

Entre Leça, a escola, e a rotunda da Boavista, a casa, são uns bons quilómetros. Tirando os paredões à beira-mar, não há ciclovias, só aquilo na Avenida da Boavista, que obriga a uns atravessamentos radicais.

Depois disso não há mais nada. Só o passeio. E é pelo passeio que vamos. Devagar, a ritmo de peão quando os há. Tilinto a campainha, com um sentimento de culpa e um sorriso embaraçado, a pedir desculpas por não meter o meu filho no meio do inferno de lata.

Num dos dias mais quentes do ano, subi como sempre a Boavista. Contei dezenas de ciclistas. Uns no meio dos carros, outros no passeio, outros na faixa bus. Todos sem saber por onde ir.

Alguns deles eram velhos conhecidos, outros nem por isso. Quase todos sorriram para o rapaz da bicla esquisita que leva o filho atrás.

  1. Luis says:

    Peço desculpa mas a ciclovia num é um direito. Sendo eu um ciclista e grande aficionado num me acho no direito de exigir ciclovias num país que simplesmente não foi planeado para tal e com uma população que tem tão pouca tradição de andar de bicicleta.

    Não se pode ter tudo senão depois é o barraco que se vê uns querem autoestradas outros é rotundas enfeitadas outros é marinas outros hospitais… enfim é preciso ter-se bom senso uma ciclovia custa para fazer no mínimo 500 euros/m´2 isto se não ouver necessidade de alargamento ou destruição de alguma outra estrutura que exista no percurso. É fazer as contas e pensar se é um pedido sensato?! Depois não se queixe que o governo se ache no direito de aumentar impostos.

    • Fernando Magalhães- Oporto; Portugal says:

      Caro Luís:
      Em nenhum ponto do texto do Miguel lhe vislumbrei qualquer exigência às instituições do poder de construção de ciclovias. O Luís equipara os investimentos na mobilidade, como obra de construção civil; ainda por cima a 500€/m2 para que o leitor fique estarrecido perante tal desvario e suspeite de que a sua área é a engenharia ou afim.Inclusivamente equipara a mobilidade em bicicleta aos lobbyes das parcerias público/privadas dos hospitais, confundindo os custos dos enfeites internos dos pratos das pequenas rotundas com custos das obras rodoviárias feitas pelo poder municipal com intuitos de segurança das interseções rodoviárias e acalmia de tráfego.Talvez preferisse o investimento em semáforos, para ter que parar mais vezes, mesmo que na outra via não passe ninguém.Equipara a mobilidade a investimento turístico em marinas e parte do princípio de que onde há ciclovia há, quase por fatalidade, destruição de infraestrutura associada. Fala de sensatez. Sensatez tão só gastar em pinturas e sinalização vertical. Limitar ou condicionar os sentidos e faixas de tráfego e o número de automóveis em circulação, tudo isto no mesmo espaço urbano, tal como está, porque não somos do norte da Europa

  2. Pedro Medina says:

    O que é bom para o Luis, ciclista de banheira, é mais facilidades para os carros.

    É com mentalidades destas que o país é cada vez menos europeu.

  3. Eduarda Reis says:

    Como Mãe, e utilizadora frequente deste meio de tansporte tão útil e amigo do ambiente, gostaria de saber como é que consegue transportar o seu filho para a escola e actividades extra-curriculares (desportos, consultas médicas, actividades de lazer, entre outras), diariamente com todos os constrangimentos que refere no seu texto, bem como o perigo que se apresenta a todos nós que diariamente utilizamos este meio de transporte (alternativo).
    Obrigada e um bem-haja!

  4. Sara Antunes says:

    Também como mãe fico surpreendida como consegue gerir o dia-a-dia de uma criança, com atividades tão dispares e distantes, de bicicleta. O percurso que faz com o seu filho, todos os dias é o mesmo, Boavista-Leça/Leça-Boavista? Não necessita de o levar a outros locais? Como faz? O seu filho sente-se confortável e seguro a andar na parte de trás da bicicleta tanto tempo? Como é que ele encara esta opção do pai?

    • Vou buscá-lo onde estiver de bicicleta. Na cidade sou mais rápido que os carros, especialmente em horas de ponta. Relativamente às actividades extra-curriculares, pergunto, que actividades extra-curriculares referi?

      Claro que o meu filho, como a maioria das crianças, adora andar na bicicleta.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.