Image de Ser médico. Missão ou profissão?

Foto: DR

30 Out 2017, 14:24

Texto de

Opinião

Ser médico. Missão ou profissão?

Deparamos com frases que trazem mundos dentro. Frases que na nudez simples das palavras transportam vidas na expressão mais conseguida da sua singularidade.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Encontrei esta de Miguel Torga, que ele verteu para os seus diários e que brotou do húmus da sua profissão de médico.

“Os segredos que vivem sepultados nas quatro paredes deste consultório (…)! Modesto e atribulado servidor desta religião temporal, vieram-me ter às mãos as dores mais lancinantes, as intimidades mais recônditas, as dúvidas mais inquietantes. E para todas eu tive de arranjar esperança! Do saco vazio da minha pobreza individual, fui obrigado a tirar remédios milagrosos, otimismo, fé, ilusões. E, em troca, os miraculados deixaram-me a sala cheia de espectros. As peles desgraçadas que despiram”.

Esta frase é o hino mais eloquente à divina missão do médico. Quando o médico consegue fazer despir aos seus pacientes as suas peles de sofrimento atinge a dimensão superlativa de deus telúrico. Daqui deriva a força social da missão do médico que é quase sempre visto como um demiurgo que afasta para longe as sombras negras da dor e sofrimento.

O professor também está tocado pela centelha da divindade, mas é o médico que leva mais longe a força desse sortilégio.

Ser mágico envolto no alvo manto da pureza, o médico pega na mão da criança e tira-lhe as dores com a força do seu sorriso. A sua ciência ajuda-o muito, mas é a sua humanidade que o alcandora aos cumes duma ctónia santidade que nos cobre as dores do corpo e do espírito com o manto diáfano da benevolência e compreensão. O médico é recetáculo das dores humanos e em passes de magia transforma-as em esperança.

O médico tem o poder total sobre as nossas vidas mais que o mais despótico ditador. Mas, as suas mãos não são mãos de ferro e clausura, mas sim de liberdade e confiança, pois por elas reganhamos a alegria de viver e uma suportada fé na humanidade.

Quando chegamos em sofrimento às mãos de um médico perdemos a jactância dos nossos egos, a irreverência dos nossos egoísmos, e esperamos dele o golpe de asa miraculoso que nos atenue as dores e nos liberte da doença.

Conheço muitos médicos. Todos têm aquele olhar firme, sereno e seguro de quem vê o mundo como solução e não como suplício terminal.

Conheci médicos heróis que honram a profissão para lá dos limites do humano. Durante a minha estadia na Guiné Portuguesa, estava na 5ª Repartição (era o bar no centro de Bissau onde a malta toda se juntava na cervejada e mancarra) e vejo passar um gajo de cerviz dobrada e de olheiras imensas. Faço o reparo:

– Olha para aquele, vai todo fo….! Deve ter vindo agora da mata
– Responde-me um amigo que fazia a comissão de serviço no Comando Chefe Militar.
– Aquele é o Dr. Luis……… que é ortopedista no Hospital Central de Bissau. É um verdadeiro herói. Não consegue ver os soldados chegar feridos da mata e não os tratar. Chega a operar durante 48 seguidas, à base de anfetaminas. Arruína a saúde para salvar os soldados.

A partir daquele momento comecei a olhar o médico como um deus terreno. Alguns dos meus melhores amigos são médicos – Nelson Puga, José Ramos, Torres Costa. Quando tenho a mais pequena maleita lá recorro a eles como náufrago em busca de salvação. Como sou um pouco hipocondríaco qualquer dorzinha que me aflige é logo transformada num cancro-tumoral-viral-tuberculoso.

As suas palavras, muitas vezes, são mais tranquilizadoras que as medicinas que me prescrevem. Têm o sortilégio do conselho certo nos momentos de aflição. São verdadeiros asclepíades, herdeiros do “Pai da Medicina” – Hipócrates – que há 2.500 anos estabeleceu os postulados da medicina com base científica, isto é, baseados na experimentação e verificação.

A Escola de Cós, polis genésica de Hipócrates, foi, sem dúvida, a primeira universidade de medicina da história da humanidade. Universidade como centro de reflexão e conhecimento que, no século V antes de Cristo, deu continuidade aos pensadores naturalistas, e.g. Pitágoras, Anaximandro, Anaxímenes, que procuravam a justificação da realidade fora dos conceitos dogmáticos da religião.

O médico da Antiguidade Clássica foi o primeiro pensador livre dos dogmas da religião. Inquiria a realidade e dela retirava os seus postulados práticos. Um exemplo: durante a peste que assolou Atenas, Hipócrates verificou que os artesãos que trabalhavam pero do fogo pareciam imunes ao contágio. Mandou acender fogueiras por toda a cidade, facto que erradicou a epidemia. Aprender a ler a realidade foi um dos primeiros ensinamentos de Hipócrates que hoje os médicos continuam a privilegiar.

Para os que não imaginam o que tal juramento seja aqui expresso o Juramento de Hipócrates que responsabiliza todos os médicos do mundo.

“Prometo que, ao exercer a arte de curar, me mostrarei fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei da profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime-

Se eu cumprir esse juramento com fidelidade, goze eu a minha vida e a minha arte boa reputação entre os homens e para sempre. Se dele me afastar ou infringi-lo, suceda-me o contrário”.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.