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7 Nov 2017, 16:53

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Opinião

A Medicina da era digital

O mundo de hoje é o mundo da informação: imediata, fácil e imensa. Esta enorme conquista torna o conhecimento imparável, esbate fronteiras e ultrapassa os limites do tempo. Sem subtrair o enorme valor e benefícios que esta revolução digital trouxe ao nosso modo de vida, urge igualmente refletir sobre os potenciais perigos e riscos que esta possa acarretar.

Com efeito, paradoxalmente, o acesso universal e ilimitado à informação poderá ter um efeito perverso se a pessoa que a utiliza não disponha de sentido crítico e conhecimento necessários para a poder adequadamente triar, selecionar e avaliar com bom senso. No que diz respeito a informação sobre saúde, este é um aspeto de enorme importância e com potenciais repercussões na sociedade.

Certamente, no exercício da nossa prática clínica, já fomos muitas vezes questionados pelos nossos doentes que apresentam dúvidas (legítimas), incertezas ou até “autodiagnósticos” baseados neste tipo de informação. Como médicos, não apenas temos o dever de informar e esclarecer, mas também de alertar para os potenciais riscos e ameaças à sua saúde. Assistimos, igualmente, de forma epidémica à emergência de uma panóplia de teorias e terapias não convencionais que se apresentam como meios de curas promissoras e infalíveis aos doentes. Sem colocar em causa o direito ao livre arbítrio do doente relativamente a esta matéria, não devemos deixar de refletir sobre as suas potenciais repercussões futuras.

Como cuidadores dos nossos doentes, é imperioso esclarecer e informar os nossos doentes à luz dos princípios que regem a Medicina Baseada na Evidência. Outra atitude seria naturalmente um contrassenso…

Recentemente, assistimos à polémica sobre a decisão de não vacinação de crianças portuguesas pelos seus pais baseados em argumentos pobres em fundamentos científicos válidos, fidedignos e replicáveis e com um risco real para a saúde pública. Além da imperiosa reflexão sobre onde começa e onde termina a liberdade destes pais ao tomarem este tipo de decisões (com consequências inquestionáveis para a saúde dos seus filhos), urge igualmente refletir sobre o impacto e repercussões que estas decisões, da esfera de ação individual, possam ter em todos nós enquanto grupo coletivo social.

O recente surto de sarampo emergente em Portugal é um exemplo paradigmático deste tipo de consequências. Será legítimo considerar válidas este tipo de decisões autónomas e individuais quando as mesmas podem ameaçar a sociedade como um todo? Ainda mais dúvidas nos assaltam se pensarmos que as mesmas não assentam em qualquer argumento válido e sério cientificamente. Estaremos a presenciar um novo retrocesso de parte da sociedade que prefere assentar o seu paradigma de conhecimento à luz de teorias não científicas e metafísicas?

Não deixa de ser estranho e controverso que após séculos de grandes conquistas científicas em prol da humanidade, elevando o papel da ciência como o meio para alcançar o conhecimento, se assistam hoje a diversas correntes que, sem fundamentos sólidos, sem metodologia de estudo e sem segurança, se apresentem como teorias alternativas passivamente aceites sem qualquer hesitação ou interrogação por muitos doentes e governantes.

Desde o século XX que a Medicina Baseada na Evidência tem representado um forte componente da nossa prática clínica, caracterizando-se por uma “utilização conscienciosa, explícita e criteriosa da evidência clínica actualizada”. Deste modo, grandes avanços a nível científico têm sido validados e colocados ao serviço dos doentes e, por conseguinte, da humanidade. Assim sendo, como médicos cuja deontologia nos consagra o exercício da nossa profissão com o maior respeito pelo direito à Saúde dos doentes e da comunidade, temos o dever ético e moral de salvaguardar e defender a segurança dos nossos doentes. Sem prejuízo pelo respeito inerente ao livre arbítrio de cada doente enquanto ser humano livre e autónomo, temos nós igualmente o dever de esclarecer, informar e alertar os doentes, cabendo a estes sempre o poder e decisão finais sobre a sua saúde. Do mesmo modo, o nosso papel enquanto zeladores dos doentes não se deve esgotar nas paredes dos nossos consultórios. Como médicos, com responsabilidades sociais na defesa da Saúde, devemos igualmente ser proativos na sensibilização, educação e esclarecimento da sociedade em geral e dos decisores políticos. Deste modo, não só estaremos a honrar a nossa herança Hipocrática, mas estaremos igualmente a dar um contributo sério e premente de cidadania na defesa inabalável da segurança e da Saúde ao serviço dos Doentes.

Dalila Veiga é médica do Serviço de Anestesiologia/Unidade de Dor do Centro Hospitalar do Porto e vogal do Conselho Regional Norte da Ordem dos Médicos.Dalila_Veiga_Ordem dos Médicos

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