9 Mai 2012, 21:42

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Opinião

Marcha Global da Marijuana – A luta continua!

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Mais vale ir direito ao assunto: talvez usar canábis, sobretudo em determinados regimes de consumo, faça mal à saúde – mas pode, mesmo assim, fazer bem à pessoa.

No último sábado, 5 de Maio, realizou-se mais uma Marcha Global da Marijuana (MGM). Bem podia recorrer ao lugar-comum e lançar a palavra de ordem: a luta continua! Qual luta?, perguntariam os a leste. A luta contra a luta contra a droga. E você luta contra os que lutam contra a droga?, perguntariam ainda os a leste. Não luto contra a luta contra a droga, luto contra coisas que, sendo inúteis, provocando efeitos ao contrário dos que querem promover, gastam milhões do dinheiro que é nosso e pode ser mais bem aplicado.

Comecemos pela tal “luta contra a droga” –  a war on drugs, batalha já antiga liderada pelos EUA. Luta velha de mais dum século, reforçada a partir das administrações Reagan e Bush pai (o filho foi mais discreto, talvez recordado dos seus tempos Johnny Walker, talvez distraído à procura daquelas armas de destruição maciça que afinal não era lá que estavam). A war on drugs é contínua, conhece uma nova batalha mais-do-mesmo de cada vez que se reúne o organismo internacional, eleito por ninguém, para atualização do convénio proibicionista da comissão de estupefacientes da ONU.

Enquanto a war on drugs continuar, continuará também a luta pela desmistificação duma política que erigiu aquilo que queria (?) combater em problema mundial, com mais produtores, mais distribuidores, mais consumidores, mais notícias nos jornais, mais toxicodependentes, mais vítimas colaterais, mais branqueamento de capitais, mais crime organizado, mais crime desorganizado, mais leis, mais polícias, mais julgamentos, mais  prisões, mais centros de tratamento, mais especialistas – e, claro, mais drogas.

No âmbito geral daquilo a que poderíamos chamar war against war on drugs – assim ao estilo do homem que mordeu o homem que mordeu o cão – diríamos que o movimento social canábico é um sector de vanguarda. A MGM é apenas uma das expressões deste movimento, que procura atrair visibilidade mediática para uma causa. Podemos ridicularizar e dizer que é um desfile promovido e protagonizado pelo pessoal que gosta da ganza, assim ao estilo do que acontecia há umas décadas nos EUA quando manifestações públicas denunciavam a discriminação racial e o vozear banana dos que pensam que pensam dizia que aquilo era coisa de pretos.

Como qualquer movimento social, o movimento canábico é essencialmente não-político no sentido estrito da palavra, mas essencialmente político se pela palavra entendermos o governo de cada um de nós na complexidade multirreferente da  polis actual. De vocação anti-autoritária, contesta as leis que se destinam a pensar por nós e reivindica o direito à plena gestão da nossa vida pessoal – uma política do sujeito, portanto, de que a canábis é o elemento de resistência simbólica.

Agrupa gente muito heterogénea, desde logo porque pertence pelo menos a 2 gerações e a muitos países (a MGM realiza-se simultaneamente em 200 cidades) e não é redutível aos prosélitos da ganza ou a estilos juvenis específicos, mais ou menos conotados com a deriva psiconáutica.

Acontece que o movimento canábico tem com demasiada frequência assentado a sua tática na tentativa de demonstração do quão inócua é a canábis, ingenuamente instalada em estilos de vida que não representariam qualquer ameaça nem conteriam potencial de desordem – no limite, aliás, a canábis seria mesmo terapêutica. O movimento canábico não deve, a meu ver, assentar nem na neutralidade do produto, nem nas suas virtudes medicinais.

A procura de estados translúcidos – leia-se trans-lúcidos – entra a direito pela esfera do direito a dispor de si, da reivindicação do prazer, e esse nunca foi, nunca será, um terreno nem inócuo nem neutro, como o demonstra a batalha-sem-fim sobre a legitimidade de certas práticas em torno da sexualidade. E, portanto, mais vale ir direito ao assunto: talvez que usar canábis, sobretudo em determinados regimes de consumo, faça mal à saúde – mas pode, mesmo assim, fazer bem à pessoa. Porque uma pessoa é muito mais do que a sua saúde, quando esta é concebida a partir da mentalidade ASAE que releva do higienismo, numa espécie de constrangimento neurótico obcecado com o limpo, o asséptico, o liofilizado. Vida sem ácaros, a caminho de corpos danone esvaziados do prazer de ser corpo como sempre se foi, desde o tempo em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso por causa do triste hábito de comer maçãs.

Não nos bastava a comissão de estupefacientes da ONU, temos agora também vigiados os hábitos do consumo, adquiridos a tanto custo ao longo de séculos numa caminhada que nos tirou da fome medieval e nos deu algum conforto e abundância. Somos agora persuadidos à dieta sem sal, à feijoada sem carnes vermelhas, ao pão integral sem manteiga, ao dia do não fumador, à semana do coração, ao ano internacional contra a obesidade, ao combate ao sedentarismo, à condenação do sofá. Que é isto?

Ora, comer chouriço caseiro com as mãos é problema meu, não ir ao médico de família (só vou aos da família, por razões económicas) também é problema meu. Insistir nas propriedades terapêuticas da canábis é voltar a ficar nas mãos da indústria farmacêutica e dos médicos, que têm sido tradicionalmente setores resistentes à alteração do status quo legal do fenómeno droga. Argumentar-nos-ão que dispõem de melhores produtos farmacêuticos para cada coisa das coisas em que a canábis se revela interessante, e, no dia em que dela se fizesse um incontornável medicamento, passaria das tabelas de estupefacientes, onde está prisioneira, para as fórmulas lucrativas dos laboratórios, donde só sairia mediante receita médica.

Disse um dia o grande Manuel da Fonseca que suspeitava que a vida era uma coisa que nunca acabava bem. Com medicina ou sem medicina, acrescentamos nós – e às vezes demora-se mais a morrer e morre-se pior por causa dela. E não acaba bem com canábis ou sem canábis, acrescento ainda. Aquilo que me interessa é que, neste ruído entre 2 silêncios que é a vida (esta não sei já quem disse), vivamos com o direito à gestão dos nossos próprios prazeres e tenhamos o direito ao nosso autocuidado – porque nem em tudo o que fizermos há-de ter de intrometer-se a boa consciência dum polícia ou dum médico….

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

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