20 Nov 2012, 11:38

Texto de

Opinião

A maratona de Nova Iorque

Para o bem e para o mal, todos somos um pouco norte-americanos, por muito que queiramos fugir à força que emana daquele país de liberdade e loucura excessiva que é espelho do que somos.

Este ano o furacão Sandy não permitiu a realização da maratona de Nova Iorque. No ano passado, foram 47.763 os “partintes” de Brooklyn e 47.340 os “chegantes” a Central Park. Eu estive lá a acompanhar um atleta meu que terminou entre os primeiros 50 mil. Temos de lá ir outra vez para que o Nuno chegue entre os primeiros 49.500. Estou a brincar, o Nuno, com grande estoicismo, pois a sua atarefada vida profissional só lhe permitiu treinar 2 a 3 vezes por semana durante uns exíguos 3 meses, conseguiu entrar entre os primeiros 5000. O Nuno é um advogado, ex-guarda-redes de andebol, e pesa uns bons 100 kg. Foi obra de desmedida vontade, de se vencer, vencendo os 42.195 m.

Fui para o quilómetro 26 acampar no meio de espanhóis para ver passar o Nuno. Perdi-lhe o rasto naquele mar de gente em desfile permanente durante horas. Entretanto, fui tomando umas notas:

“Os irmãos aviadores do Allo! Allo! são quase apanhados pelo Super Homem, mas este, talvez influenciado por alguma estranha kriptonite, fraqueja em desistências de velho artrítico. No entanto, o escocês de saia levantada pelo vento tenta ultrapassar o preto de calções de banho e pila pequena (pudera: o frio era tanto que não dava para voluptuosas intumescências) mas sufoca em esgares de enfisematoso. Só na maratona de Nova Iorque é que se poderiam encontrar tantos atletas a correr desfraldando a Stars and Stripes, o que bate certo com o fervor patriótico exacerbado pelos acontecimentos do 11 de Setembro. O dogma judaico está bem representado pelo chapeuzinho que encima o cocuruto de um descendente mais fundamentalista de David. Judeus, para mim, só do estilo Woody Allen, suprema inteligência num humor corrosivo que coloca tudo e todos em causa. Com o seu humor cáustico, Woody Allen é sério sem se levar a sério. É um paradigma da cultura livre desenfeudada a dogmas e doutrinas sectárias. Ou então Jon Stewart, com a sua iconoclastia irreverente. Ali vai um palhaço com alguma cor a escorrer-lhe pelas faces mas muito mais digno que o pseudo-bailarino com frufrus muito rabichas. Aquele corre e apressa-se a filmar-me; ainda bem que reconhece que o Zé Augusto da beira-rio que se dignou a premiar Nova Iorque com a sua excelsa presença. O fantasma sem cara quase que tropeça no homem-aranha, ambos ultrapassando um grupo de coelhinhos bichonas com pompons no cú. Ali vem um senhor muito digno de smoking, enquanto o japonês vestido de espanhola corre em espasmos intermitentes que nada prenunciam de bom. Uma velha anafada, para não dizer gorda, meteu-se em andanças e agora vai a passo; chegar aos 26 km já lhe valeu o céu do Olimpo ao lado de Zeus Horkios. Um barbichas com cara de demente, todo vestido de branco, corre aos soluços com olhar esgazeado assemelhando-se a um carro com o catalisador entupido. O costumeiro barman equilibra os copos e garrafa na bandeja com uma mão enquanto levanta o avental com a outra. Ganda artista.

Enfim, a maratona de Nova Iorque é uma festa multitudinária que congraça milhares de atletas que fazem jus, quase todos, à máxima de que o que vale é participar. Os que estão lá pelo fito primacial do desporto – vencer – são muito poucos, para aí uma vintena. Os outros, usufruem um momento único de convivialidade e partilha numa experiência única na cidade mais extraordinária do mundo – sou eu que o digo, que já conheço muito mundo e arredores.

De qualquer forma todos vencem, quanto mais não seja vencem a distância e as metas que se autoimpuseram. Sente-se o desafio naquele fluir incessante de vontades irmanadas no mesmo fito – chegar ao fim.

A minha viagem a Nova Iorque foi o cumprir de um desejo de viver materialmente as múltiplas vivências virtuais que já tive naquela cidade. Calcorreei as ruas e lugares de Nova Iorque como se a conhecesse profundamente. E conhecia, no espírito. Em muitos sítios foi o dejá vu, foi revisitar lugares do meu imprinting cultural bem profundo. Todos os que se deixaram tocar pela cultura norte-americana são visitas frequentes da cidade que nunca dorme. Não me senti estranho; senti-me parte integrante duma cidade que fez sempre parte do meu mais vívido imaginário. Que prazer, de manhã sair do hotel e sentir na face o frio agreste das primeiras invernias; de seguida, passear à procura do primeiro Starbucks e regalar-me com o café gigante e os muffins que são imagem de marca do viver norte-americano. Ficar sentado a saborear o café e a leitura que podemos desfrutar sossegados. Já tinha ido aos Estados Unidos, mas desta vez senti-me mesmo americano.

Quero esquecer-me dos excessos turísticos que nos tratam mal. O american way of life não é um projeto de vida para mim, é um momento de fruição, esporádico, mas que faz jus ao passado cultural que definiu muito do que sou hoje. Para o bem e para o mal, todos somos um pouco norte-americanos, por muito que queiramos fugir à força que emana daquele país de liberdade e loucura excessiva que é espelho do que somos”.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Luiza Kent-Smith says:

    Curiosa descriçao da minha cidade preferida!Adorei os pormenores da maratona que desconhecia totalmente. Já passei vários periodos em NY e caminhei por quase toda a ilha de Manhattan.Abraço forte deste Canada já coberto de neve.

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