10 Ago 2012, 17:20

Texto de

Opinião

Mais leve, mais quente, mais forte

Os dias que vivemos parecem-me cobertos de uma cinza melancólica. Que injusto. O povo – o Povo – merecia mais da meteorologia.

Nessa altura eu era mais leve. Em todos os sentidos. Movido a cassetes compiladas meticulosamente, sem pensar que um dia elas iriam ser afastadas da vida ativa sem que lhes fosse sequer concedido o estatuto respeitável dos vinis. O Walkman era eu, não o aparelho.

Os anos 90 eram “bem medidos”, como miavam os Três Tristes Tigres na rádio. Por mim, não se perdia tempo com pesos e medidas, “Troika” era nome para se dar a uma cadela siberiana, “austeridade” era uma palavra por inventar.

A minha bicicleta, primeiro uma Janota com encosto, depois uma BMX, mais tarde uma de montanha, segundo as modas medianas da altura, cortava o vento como quem sonha ser um galgo. De casa até Labruge. De Labruge até casa. Com o mesmo entusiasmo, ignorando o calor e as multidões agoirentas que, da berma da estrada, citavam o Velho do Restelo, o Papão e o Salazar que, no fundo, era uma mistura dos 2 anteriores.

Viajei muito, comi muitos cachorros à beira da praia, devorei muitos Pernas de Pau, muitos Super Maxis, muitos Epás, passo a publicidade, que a instituição em causa está para lá das precauções mercantilistas. Já então tinha memória, achava-me um rapazinho crescido quando, no fundo, não passava de um infantil saco de sonhos. Ainda bem.

Ao olhar as rochas e os minúsculos oceanos que se juntavam no meio delas, eu via a criança que efetivamente já não era e nos meus olhos havia apenas certezas. Mais do que saber o que queria, sabia o que iria ser. Pretensiosismos de Zandinga, o homem que também por essa altura enfeitiçava o Sporting que – só por isso, claro – não era campeão.

Eu era mais leve, os dias eram mais quentes. O verão não passava por nós disfarçado de inverno, os seus enxames tórridos picavam-nos com força. Se nesse ano não houvesse a quinzena no Algarve, havia sempre Leça, Angeiras ou a já referida praia de Labruge. Todas elas à pinha, entre turistas de trazer por perto de casa, veraneantes a armar barraca por não se conseguirem entender com os ferros e os panos das ditas cujas, crianças das colónias de férias e “chiães” e respetivos donos a quererem gozar as “vacanças” longe dos “birus”.

É uma história de outros tempos, esta. Risível, em certa medida – sim, agora já me preocupo com os pesos e as medidas – uma vez que falo de uma época que ainda ontem era hoje. É engraçado que, ao pensar na década de 90 do século passado – para lhe acrescentar mais peso – lembro-me de sol e céu azul. Os dias que vivemos parecem-me cobertos de uma cinza melancólica. Que injusto. O povo – o Povo – merecia mais da meteorologia. É que, ainda por cima, para os lados do parlamento – o parlamento – diz-se que tem estado bom tempo.

Hoje sou mais pesado. E a bicicleta está arrumada. Mea culpa.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.