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17 Jun 2017, 13:19

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Opinião

A luz que pagamos sem gastar

Tem surgido na espuma mediática por estes dias a investigação da justiça portuguesa realizada sobre a EDP por alegadas suspeitas de corrupção ativa e passiva por parte de alguns quadros dirigentes da empresa no âmbito dos chamados CMEC’s (Custo para a Manutenção do Equilíbrio Contratual). Estes custos, contratualizados entre o Estado e a EDP – vá-se lá saber para quê, com que objetivo ou para favorecer quem… – foram, revelam algumas fontes, imputados em grandes medida aos consumidores.

Imagem de perfil de Simão Mata

Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

Trata-se de um verdadeiro escândalo nacional que, não sendo caso único no nosso país, nos deixa cada vez mais pobres do ponto de vista económico, ético e, sobretudo, moral. Percebemos agora claramente que numa altura em que os lucros da EDP não pararam de aumentar ano após ano, se esmifrou o consumidor final até ao tutano das suas possibilidades a troco dos desvarios e promiscuidades entre o Estado e esta empresa privada. O Jornal de Negócios noticiava a 14/06/2017 no seu site que nos últimos 10 anos estes CMEC’s se traduziram numa cobrança de 2.500 milhões de euros às famílias portuguesas. Desculpem-me…Uma vergonha!

Mas, no meio deste lodo em que nos encontrámos, não podemos perder a serenidade. Há, por isso, uma questão imperativa a fazer: quantos de nós, cidadãos comuns e utilizadores diários dos serviços da EDP, ouvimos falar nestes tais designados CMEC’s? Certamente que muito poucos ou até mesmo nenhum de nós. Essa ignorância é reveladora do quão afastados estamos dos Centros de decisão política e económica no nosso país, abrindo espaço para as negociatas, os protocolos e os pseudoprotocolos nas nossas costas, colocam-nos depois, mais cedo ou mais tarde, a pagar a fatura dos mesmos.

O lado perverso de todo este estado de alheamento do cidadão-comum face ao que se passa nos “bastidores” desta e doutras empresas monopolistas é considerar que os aumentos dos preços faturados são consequência exclusiva das desregulações nos nossos gastos quotidianos. Centramos assim, de forma pouco informada e inconsciente, na nossa responsabilidade individual os custos da energia desculpando, ao mesmo tempo, os comportamentos irresponsáveis e antissociais de Gestores, Diretores, Presidentes S.A e Companhia Lta dessas empresas. No caso da fatura da luz, andamos sempre com frases do género: “Tenho que desligar este ou aquele candeeiro ou este ou aquele aparelho para não pagar tanto” quando de facto esses aumentos não têm tanto que ver com os nossos gastos quotidianos mas são sobretudo fruto e consequência das promiscuidades entre um Poder Económico voraz e sedento de lucro e um Poder Político incapaz de lhe fazer frente ou colocar um travão. Andamos, por isso, a pagar a luz que não gastamos.

Com estes CMEC’s entre a EDP e o Estado a finalizarem apenas em 2027 compete-nos exigir, enquanto cidadãos e consumidores, o fim imediato destes contratos se a eles estiverem imputados uma “renda” a ser paga pelos consumidores até o final dos mesmos. No parlamento há sinais importantes de tentar reverter este saque aos nossos bolsos. Mas compete-nos também a nós pensar e refletir sobre tudo isto e sobretudo evitar a atitude ingénua de desligar luzes e aparelhos da nossa casa como se as faturas que pagamos fossem apenas e só o reflexo daquilo que gastamos nos nossos lares. Convém, por isso, refletir não sobre a luz que de facto gastamos mas sobretudo sobre a luz que pagamos sem gastar.

Opinião

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