12 Ago 2012, 18:38

Texto de

Opinião

Real virtual e virtual real

A mama descaída é a permanência, a vida tal qual existe no fio do tempo, a de silicone uma arrogância condenada a prazo.

Real virtual e virtual real

Ilustração: SXC

ADVERTÊNCIA: Agosto é o mês das férias. As férias são, no entanto, um conceito em perigo, nas sociedades que desempregam e desregulam o trabalho. Para quem ainda tem o privilégio de as ter, são um tempo em que não devemos fazer nada – nem mesmo turismo, que dá mais trabalho do que muitos empregos. A minha forma de não fazer nada ao ter de escrever uma crónica é escrever uma crónica supérflua, que nem lá vá nem faça míngua, que seja um entretém e uma pura perda de tempo, como as atividades que realmente repousam. É por isso que a crónica que se segue é como é. Leia-a só se estiver em férias, ou mesmo nem isso.

Das sociedades tradicionais para as ultra-urbanizadas, quer dizer, das sociedades orais para as hipermediatizadas, passa-se do sentimento de posse ao sentimento de pose. A mediatização hoje dominante assenta na projeção da imagem – da de cada um de nós, desde logo.

O sentimento de posse era físico, traduzido na terra ou no vil metal. O senhor feudal chamava às suas terras o domínio, e dominava de facto sobre gentes e coisas suas, coisa bem exemplificada pelo direito de pernada. O capital das classes dominantes exprimia-se em propriedade, cuidadosamente acrescentada e transmitida, de modo a assegurar a posição de classe.

O sentimento de pose também é físico, porque a pose não existe sem o físico que a ostente e a projete. Na fase atual das sociedades mediatizadas, o virtual é elevado a um plano inimaginável, e, portanto, sempre para lá do que aqui possa dizer. Acompanhando esta volatilização da materialidade, a pose é largamente virtual. Pode assim afirmar-se sem sofrer a prova dos factos, que era a da tangibilidade daquilo que se erigia em posse. A minha umbilical vidinha içada a acontecimento num blog voará pelos espaços sem que possam desmentir-me; as minhas vistosas fotos voarão pelo espaço tocando os outros sem que estes possam tocar-me.

De tal modo esta vantagem do virtual se foi infiltrando no mundo real que, nas culturas e nas classes em que a pose mais se impôs, a cirurgia estética se tornou um instrumento de construção virtual das materialidades físicas. Um seio moldado pelo silicone é o triunfo do corpo virtual, tornado real pelas mãos do cirurgião construtor de ilusões. Até agora, a medicina queria vencer a doença – hoje quer vencer a imperfeição. (Nota aparte: pela minha parte, bastava-me que o serviço nacional de saúde funcionasse).

Ainda sobre a estética da mama siliconizada, atente-se na circunstância de estarmos perante uma ilusão de nível superior à do ilusionista: porque a ilusão-seio existe mesmo, pode ser palpada e apalpada, uma e outra e outra vez – até que o silicone dê de si e a triste realidade reapareça na silhueta pendente duma mama descaída. As carnes moles triunfam sempre sobre as rijas, inelutável lei que o virtual ainda não venceu – a mama descaída é a permanência, a vida tal qual existe no fio do tempo, a mama de silicone uma arrogância condenada a prazo.

O virtual de 1.ª geração aspirava a simular o real. A marca suprema do seu triunfo sobre a realidade é quando é esta que pretende simular aquele, como acontece no caso da legião de pessoas que aspira à transformação que as aproxime de personagens que se passeiam nos mass media exibindo o seu look virtual-real. Caso extremo: os indivíduos que se submetem a prolongadas transformações corporais para se parecerem com o Gato Félix ou com a cara (?) da Pantera Cor-de-Rosa.

Da posse da terra, do ter posses – quem as tinha era o eu quero posso e mando – vinham os desmandos do poder. Possuía-se tanto que o ser transbordava de soberba. Era assim o poder, um sentimento de posse que fartava e enfartava, que diminuía e apoucava quem não tinha posses, quem da terra só tinha os 7 palmos com que um dia recolheria a ser pó. Hoje, nas sociedades da pose, nem queremos admitir que a nossa bela silhueta, mantida a custo através das linhas zero e das mais finas técnicas de aperfeiçoamento da imagem, um dia recolherá a ser cadáver, destilando líquidos e oferecendo a putrefação aos bichos da escuridão.

Enquanto isso não vem – e não vem, porque está para lá do espaço do pensável e só acontecerá quando estivermos num estado em que já não pensamos -, enquanto isso não vem, dizia, teremos poder à medida que pudermos fazer da pose uma posição e um posto. A pose, nas sociedades do virtual, não é fogo-fátuo, é fogo posto: os indivíduos são fogosos, apreciam a fuga, que é o espaço por excelência do virtual, mostram as vilosidades do umbigo com a mesma sensação de superioridade com que antigamente se passeava a posse por entre os trabalhadores do domínio. E isto não é bom nem mau, como quase tudo na vida.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

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