10 Set 2012, 20:18

Texto de

Opinião

Consultas no veterinário

Posto no prato da balança o que anda a passar-se na área da saúde que tem como objeto os humanos, pondero passar a consultar-me no veterinário.

Há 4 anos que tenho um cão. É um facto trivial, bem sei. Não interessa a ninguém, nem mesmo ao meu cão. Mas o meu cão tem-me ensinado várias coisas sobre várias coisas. Podia aqui dar muitos exemplos, mas não tenho especial interesse em dissertar sobre cães, tive uma vizinha que gostava mais do cão do que das pessoas e desconfio das pessoas que gostam mais de cães do que de gente – embora deva confessar que já me tem acontecido. Por exemplo, no caso dessa vizinha: o cão era realmente melhor pessoa do que ela.

Queria destacar aquele que considero o maior ensinamento que o Leão me trouxe. (Se revelo aqui a sua identidade, à revelia dos códigos deontológicos e da comissão nacional de proteção de dados, é porque vai gostar de ler o seu nome no jornal). Que ensinamento foi esse? O Leão fez-me descobrir os médicos veterinários. Não quero alongar-me, não quero sequer a piada estafada: “ai não sabias que havia veterinários?”. Vou direito ao assunto: desde que levo o Leão ao veterinário, tenho meditado sobre as diferenças entre este e os médicos dos animais humanos. E, posto no prato da balança o que anda a passar-se na área da saúde que tem como objeto – sublinho: objeto – os humanos, pondero passar a consultar-me no veterinário. Razões:

– para assuntos correntes da patologia reúno evidência de que é tão competente como os seus colegas que tratam humanos. E os humanos, do ponto de vista biológico, não passam de animais;

– é mais barato;

– tem muito mais tempo para estar com os clientes do que os médicos do centro de saúde;

– os serviços de urgência são muito mais rápidos do que os dos hospitais, não se paga taxa moderadora  e não funcionam com a triagem no sistema de Manchester;

– percebe os clientes sem estes terem de falar. Não que eu goste de não falar quando vou ao médico, mas normalmente não consigo;

– tem menos peneiras: assobia, diz “bichano, bichano!”, põe-se de gatas para tratar gatos, de cócoras para tratar cães, em bicos de pés para tratar cavalos. Os médicos dos humanos só se põem em bicos de pés;

– fruto da caraterística anterior, admite o erro. Quanto aos dos animais humanos, são especialistas no binómio reconhecimento/não-reconhecimento: reconhecem a entidade mórbida, normalmente à custa duma série de exames ultratecnológicos cujo funcionamento foi inventado a leste da medicina, mas não reconhecem a hesitação ou o engano. A nós, confrontados com a crueza dos factos, resta-nos mudar de médico, enquanto eles mudam de paciente – e não é à toa que se chama paciente;

– dá-se ao trabalho de fazer observação clínica: toca, apalpa, avalia a olho clínico, fiel à natureza primeira da medicina, que sabia ler o corpo, dialogava com ele e fazia o seu cuidado numa luta corpo a corpo com a doença. Detesto ir ao médico dos animais humanos e este estar fixado no ecrã do computador, não olhar nem de relance para a zona de que me queixo e se limitar a passar uma série de exames auxiliares de diagnóstico fingindo que eu não estou à sua frente. Quem me garante que em vez de estar a escrever na minha ficha clínica não está a jogar Tetris?

– escuta os familiares, envolvendo a consulta num tom comunicativo em que todos podem exprimir a dor que vai na alma do cão ou do gato. Tecnicamente chama-se a isto modelo sistémico, e é surpreendente que sejam os veterinários a praticá-lo, produzindo com isso o paradoxo de tornar aquela consulta animal muito humana, enquanto muitos dos seus colegas de gente envolvem por vezes o setting clínico numa certa animalidade. É fácil constatar empiricamente o que digo escutando os comentários à saída de certas consultas num serviço de urgência ou num centro de saúde: “pensam que sou algum animal?”.

– não está em fuga para os HPPs, hospitais da CUF e clínicas disto e daquilo, descapitalizando do ponto de vista da competência técnica o serviço nacional de saúde. Os veterinários estão onde é preciso, e não onde se paga como um cão;

– as salas de espera são muito mais divertidas: há vários tipos de bicharada, ótimo para quem gosta de contemplar a diversidade do reino animal, os clientes não contam a história enfadonha das suas maleitas e pode urinar-se nas esquinas.

Há também vantagens do lado do profissional de saúde: generalizando aos humanos os seus métodos, pode açaimar alguns clientes incapazes de se calarem. Por qualquer razão este género de clientes acorre muito aos médicos, atrasando o fluxo das consultas e exacerbando a tendência destes para não terem paciência para ouvir.

Outra vantagem está do lado daqueles que têm realmente vocação para ser médicos, que têm legítimas aspirações a sê-lo e não conseguem entrar em nenhuma das nossas poucas faculdades de medicina. Como é sabido, só acedem a este curso indivíduos com média de candidatura próxima do 19, ou seja, pessoas que não são normais. E do que nós precisamos é de pessoas normais a irem para medicina, pessoas que depois continuem normais e que convertam a medicina numa ciência e prática ao serviço da comunidade e de cada um de nós. Os realmente vocacionados, não entrando nesses cursos onde só entram os raros, iriam cursar veterinária e fariam depois um desses mestrados de agora, um mestrado rápido e em inglês sobre animais humanos – e pronto, toca a atender o pessoal nos centros de veterinária. Porque, afinal, não passamos de animais – nós, os veterinários e os médicos.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Muito, muito bom o texto! Tenho cães e gatos e, não há dúvida, embora não me possa queixar da minha médica de família, a veterinária dos meus bichos é tudo o que o Luís menciona!!! Só uma pequena nota… é açaimar, não assaimar.

  2. Inês says:

    Dinorah, penso que segunda o novo acordo a palavra assaimar se encontra correcta e este autor refere no final que escreve segundo o novo acordo…

  3. Tsuki Akemi says:

    Achei muito bom, porque, patéticamente, quase não se afasta do real, ou afasta-se milimétricamente, o que é preocupante, ou deveria ser. Os afastamentos milimétricos prendem-se com as deduções fiscais Caro Luís, então como deduziriamos as despesas com saúde que nos tempos que correm são imensas e não têm nada tendência em acabar, claro. Depois, deixe-me dizer-lhe que é como “utilizadora”, que sou, dos afamados e prestigiados hospitais da Cuf e, por vezes, da Luz, é que subscrevo o que diz sobre a interacçao médico/paciente e nao com o meu médico de família, mas isso é só porque tenho muita sorte em ainda ter um bom médico de família, coisa rara hoje em dia. Em suma, O que conta e o que interessa é que se eu pudesse escolher entre os médicos a que tenho de recorrer, salvo raras excepçóes, e o veterinário dos meus gatos, escolhia o último.

  4. becki says:

    Sra.D.Inês, comente sobre o texto que na minha ótica está mt bom. Não devia tecer comentários sobre o novo acordo ortográfico, pois, aparentemente, a Sra. o desconhece.

  5. Muito interessante este artigo. Coloca o dedo na ferida de uma forma muito inteligente.
    Acho que, por este andar, também seguirei, a sua sugestão. Pelo menos sei que, com o meu médico veterinário, serei muito bem tratada. :):)

    Parabéns!

  6. Ana Lopes says:

    Epah! Lindo! Finalmente alguém pensa como eu!
    Todos se rirem quando eu digo que confio mais na veterinária dos meus animais do que na minha médica de família. Eles sim, sabem tratar um paciente!

  7. Graça Mendes says:

    Eu sou veterinária e como tal,sinto-me feliz ao ler estas palavras e orgulhosa por pertencer a esta classe.
    Mas de facto o que faz a diferença é a vocação.

  8. Eduardo Côrte-Real says:

    E para além dos estudantes realmente excepcionais que acedem aos cursos de medicina com médias de 19 e de 20, embora sem qualquer espécie de vocação senão aquela de prosseguir uma carreira economicamente muito atraente (que me perdoem aqueles, ainda mais raros, que de facto possuem verdadeira vocação para a medicina) devemos adicionar os “aldrabões” que conseguem média à custa do ensino recorrente, ensino este que – infelizmente – favorece precisamente este género de “estudantes” e mais espaço retira aos candidatos sérios e merecedores.
    A carreira de medicina lida demasiado perto com a integridade física dos mortais para ser encarada levianamente como uma forma publicamente muito aceite de auto-promoção sócio-económica. O código deontológico da classe é muito bonito e interessante mas não consegue prevenir a falta de competência – e de carácter – de muitos dos seus profissionais. E quando essa mesma classe, através dos mais subtis esquemas – muitas vezes pela falsidade -, se auto-protege e valida a incompetência e a impunidade…
    Posso parecer injusto para com muitos honrados e bons membros da classe médica – que existem -, mas precisamente estes, pela sua honra, deveriam combater este estado de coisas, humanizando cada vez mais a sua profissão.

    nota: o subscritor destas linhas NÃO ADOPTA o acordo ortográfico.

  9. Eu sou licenciada em medicina e completamente dedicada ao sistema nacional de saúde. Acho que o seu texto é muito engraçado. E subscrevo que os veterinários são, regra geral, muito atenciosos (com excepções, obviamente)…

    Mas tenho pena que seja esta a sua opinião sobre os “médicos de gente”! Há muitos de nós que dão o litro pelos doentes, trabalham horas extra que não são, obviamente, pagas; e vão para casa a pensar nos doentes… Há mesmo muitos de nós a fazer um trabalho árduo e, muitas vezes, enfrentando imensas contrariedades.

    É por isso com algum desalento que leio este texto e que reparo que é com alguma leviandade que se fala dos aspectos mais negativos da medicina esquecendo aqueles que até fazem um bom trabalho. Na realidade, o que salva o sistema nacional de saúde é o património humano dos hospitais e centros de saúde; não será certamente por causa de recursos abundantes!!

    A minha sugestão é que não recorram a esses médicos “maus”, que se informem bem antes de escolherem (quando possível) um clínico. E sempre que acharem que o serviço foi mau, então escrevam nos livros de reclamações ou queixem-se nos gabinetes de utentes. Acreditem que se houver muitas reclamações, as administrações dos hospitais vão reparar!

    Não se esqueçam, no entanto, de louvar quem faz muito mais pela sociedade do que a maioria daqueles que se queixam dos médicos.

  10. Maria says:

    http://opiniao.porto24.pt/2012/09/10/luis-fernandes-consultas-no-veterinario/

    Tão, mas tão bom … Tudo o que nós precisamos é de pessoas normais e que se mantenham normais …

    Fez-me lembrar a ultima vez que estive numa consulta de especialidade: tempo com a médica especialista = 10 minutos, 9 dos quais à espera que a impressora imprima as folhas das receitas. Tempo com a enfermeira = 45 minutos, 45 dos quais passados a olhar e falar comigo; tempo com a dietista = 1h45minutos, 1h e 45 minutos dos quais a falarmos de mim e da comida.
    …Resultado: não fiz o que a médica mandou e pasmem-se estou bem melhor. A ter elevado a dose de medicaçao prescrita pela dita já tinha morrido a esta hora.

    Diz-vos esta que desde os 10 anos de idade passa muito tempo nos hospitais com esses (pouco) humanos chamados médicos de pessoas.

  11. Carlos says:

    Como Médico Veterinário, e apesar de não exercer clínica na actualidade, queria demonstrar o meu agrado pelo artigo na sua generalidade. Como disse, não exerço clínica, mas muitos colegas meus trabalham arduamente todos os dias no sentido de prestar os melhores cuidados aos pacientes animais. Mas o prestar os melhores cuidados passa também por dar atenção aos donos e pessoas que adoram esses animais,e isso é algo que nos é incutido ao longo da formação. Muitas vezes com parcos recursos (os custos de uma consulta/cirugia veterinária não são muito inferiores aos custos em Medicina humana, mas o preço cobrado ao cliente é absurdamente inferior), bem como a falta de meios de diagnóstico disponíveis torna muitas vezes esta actividade uma tarefa hercúlea.
    Claro que a depreciação generalizada a todos os médicos é errada, há muitos bons profissionais na medicina humana, muita gente de coração.
    Talvez o problema resida mesmo no acesso ao curso de Medicina. Nos dias que correm, se um miúdo tem óptimas notas no secundário vai sendo “empurrado” pelos pais, professores, etc , a decidir entrar num curso para o qual não está minimamente vocacionado. Provavelmente assim se perdem excelentes Engenheiros, Físicos, Químicos, que poderiam marcar a diferença.
    De qualquer forma, em nome dos Veterinários… Obrigado

  12. José says:

    Lamento que se continue a escrever artigos de opinião populistas e baseados em esteriótipos. Não deixa de ser interessante uma série de incoerências neste texto que nem me vou dar ao trabalho de inumerar. Lamento também que o autor tenha tido algum problema com algum médico, mas seguramente não retrata a realidade. E quando a retrata é preciso perceber melhor os motivos pelo qual isso acontece e não começar a criticar uma classe na sua globalidade. Mas acho muito bem que algumas pessoas passem a tratar-se com veterinários ou dentistas ou podologistas o técnicos de análises clínicas, o que quiserem… Seguramente terão muito tempo para falarem e ouvirem a própria voz no momento da consulta, com tempo já de si curto por indicação governativa e desperdiçado com conversa de treta, enquanto os outros doentes estarão a bater à porta do consultório impacientes…

  13. Beatriz says:

    Acho que este texto acaba por rebaixar médicos humanos para enaltecer médico veterinários e não é isso que se pretende. Pretende-se que os médicos veterinários sejam valorizados como profissionais de saúde tão competentes e responsáveis como os de medicina humana e não mais como aqueles que, não conseguindo entrar em medicina humana, escolheram uma “medicina menor” como último recurso, sendo esta mais fácil e onde lhes são exigidas menos responsabilidades.
    Há quem queira medicina veterinária como 1ª opção, mesmo tendo média para medicina humana! É uma questão de vocação e não de falta de opção.
    Portanto é importante passar a ver ambas as medicinas como profissões equiparáveis do ponto de vista clínico (considerando apenas a vertente clínica da veterinária), embora aplicadas a pacientes de espécies diferentes. É assim a mentalidade em países como a Inglaterra, a França, a Holanda e a Suiça.

  14. Muito bom este artigo.Parabenizo-o pelas suas sensatas palavras que chegaram ao cerne da questão:”o que é e deve ser um acto médico”.
    Sendo eu Veterinária,sinto-me lisongeada com o seu artigo,não obstante como em qualquer profissão há bons/maus profissionais,há humanidade ou não naquilo que se faz…
    Bem haja Luis Fernandes!

  15. Leo Silva says:

    Gostei muito deste texto . Concordo com a ideia . Apesar de parecer brincadeira , tem muito de verdade . Tenho cães, gatos e canários.
    Muitas vezes vou com eles ao veterinário e sei como são bem tratados … Por outro lado,a forma como os humanos às vezes,são atendidos, é de assustar .
    Infelizmente a saúde no nosso País anda muito doente!!!
    Felicito os médicos que tudo fazem pelos doentes e espero que sempre o façam.
    E , já agora, escrevo sem acordo ortográfico porque não concordo com ele …

  16. João Silva says:

    Este texto só pode ter sido escrito com alguém muito frustrado com a vida e que fez uma birra por uma situação insignificante qualquer.

    Quem entra em Medicina é porque trabalha amigo, não é por ser anormal e já agora deixe de ser ignorante que com médias abaixo de 18 entra-se em Medicina. O típico português gosta de reclamar e queixam-se de ter as tais consultas de 5 minutos, quando em 90% das vezes vão ao médico dizer merda que uma pessoa em casa lidava sem nenhum problema. Há doentes a sério para atender, o médico não é uma lixeira para as pessoas irem despejar a vida pessoal.

  17. Beatriz says:

    Penso que acaba por ser triste enaltecer uma profissão recorrendo a uma comparação redutora e estereotipada de duas realidades que não são comparáveis (alhos vs bugalhos?). Além disso, não me parece de muito bom tom fazer juízos de valor (sobretudo generalizados) relativamente às competências dos que seguem o curso de Medicina, apelidando-os de “anormais” por terem uma média de 18 ou 19…será preferível, então, enaltecer a mediocridade, como tanto se faz neste país?
    Em todo o caso, obrigado pelo texto e pelos problemas de fundo que levanta. É sempre bom reflectir sobre a nossa profissão de modo a que esta seja verdadeiramente um acto responsável para com o doente.
    Com os meus cumprimentos,
    Uma médica (“de humanos”)

  18. Duarte says:

    A normalidade é uma curva de distribuição. É normal haver anões na cidade do porto. Não seria normal se metado da população fosse anã. Frequentemente se confunde portanto normalidade com moda ou média…

  19. Filomena says:

    Olá, Prof, penso que o objectivo principal foi conseguido: a discussão. lol.. Nunca um artigo foi tão comentado aqui no porto24. E isso é muito bom.

    Veijios

  20. SF says:

    O mal dos “médicos de gente” é… tratarem “gente”. A mesma que dentro do consultório requer tempo, mas fora queixa-se do atraso. A mesma que muitas vezes tenta enganar o médico em proveito próprio. A mesma que muitas vezes exige exames auxiliares de diagnóstico e crucifica (ou mesmo processa) mesmo não havendo necessidade para os mesmos. Individualmente da capacidade de cada um, que pouco tem que ver com a nota (existem tantos com vocação dentro dos que escolhem medicina como dentro dos que escolhem medicina veterinária), o que difere realmente é o tipo de população tratada… e nesse caso, os “médicos de gente” têm muito menor gratificação por parte do doente quando em comparação com os seus colegas médicos veterinários.

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