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4 Jan 2017, 15:11

Texto de

Opinião

Lugares que são só meus

Os mapas são ladrões. Mostram onde queremos ir, mostram como lá chegar e roubam-nos o direito de nos deixarmos espantar pelo caminho. Um viajante que para numa esquina para perguntar as direções a um mapa não quer ver as ruas e pessoas à sua volta. Vê apenas aquilo que já lhe deram a ver.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Kierkegaard tem um texto muito bonito sobre uma pessoa que caminha só e repetidamente pelas mesmas ruas e pracetas anónimas de uma cidade que desconhece – as ruas que nenhum guia turístico descreve e as praças que nenhum mapa destaca – e desse modo descobre um lugar que só a si pertence e que não pode partilhar com mais ninguém. Este viajante não é só mais um visitante de uma atração turística, é alguém que descobriu o segredo de um sítio e o tornou só seu, igual a mais nenhum.

Acontece-me o mesmo, às vezes, quando viajo, em que o que me fica são os becos secundários de boulevards famosas, quadros esquecidos nos cantos húmidos dos museus, uma idosa que vende queijo fresco temperado de sorrisos tímidos, um lavadouro público destroçado nos arrabaldes de um subúrbio sem nome.

E, às vezes, nem os mais sofisticados mapas conseguem impedir que isso aconteça. Como certa vez, num ano novo, numa cidade só vagamente conhecida, quando eu tentava ir para um encontro combinado, mas o GPS insistia em me fazer perder. Dei assim por mim a voltar uma e outra vez ao ponto de partida. Até que em plena desorientação, reparei finalmente esse lugar de partida: um cruzamento de ruas estéreis, contornando uma montra escura e sem nome, tapada com papel autocolante. Mas mais de perto, pressentia-se luz e música a vir dessa montra. E mais perto ainda, entre as gretas do papel autocolante, via-se que lá dentro havia luzes quentes e pessoas que dançavam e falavam calorosamente, pela meia-noite a dentro, às escondidas de todos.

Menos de mim, claro, que assim, perdendo-me, consegui levar uma dança secreta para o novo ano que começava.

Jorge Palinhos

Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.