29 Nov 2012, 16:28

Texto de

Opinião

Lost in comunication

Tal como acontecia com Bush, é penoso e divertido ver os jornalistas dos diretos televisivos a tentarem fazer uma síntese dos discursos de Passos Coelho: não sabem o que dizer, perdem-se na tradução.

Pedro Passos Coelho

Foto: Reinhard Kraas

Desde os tempos de George W. Bush que não me lembrava de um líder que tivesse tantos problemas com a linguagem. A confusão de conceitos, de significados e até mesmo de provérbios – como aquele do “You fool me once shame on you, fool me… fool me, a fool never be fooled again” – é imbatível, mas algo como “por porcaria na ventoinha” anda lá muito perto.

E se houve uma altura em que tínhamos um primeiro-ministro que traduzia o discurso de George W. Bush, e que até emulou o “mission accomplished” antes de seguir para Bruxelas como presidente da Comissão Europeia, agora temos um outro que tenta traduzir as palavras de Angela Merkel – e o alemão é bem mais complicado do que o inglês, mesmo do que o inglês de Bush. Os (maus) resultados são evidentes.

No fim-de-semana, discursando na Madeira, o primeiro-ministro conseguiu traduzir o que a chanceler alemã disse na sua visita a Portugal: o “mundo mudou” e a crise financeira internacional deu-nos cabo da vida; mas depois recriou-se e lá foi buscar o conceito do “vivemos acima das nossas possibilidades”, algo que não me lembro ter ouvido da líder alemã – mas Passos Coelho deve ter-se perdido na tradução.

Como não quer contrariar a malfadada “senhora Merkel”, e ir sempre “mais além”, o primeiro-ministro lembrou-se de criticar os que querem renegociar o programa da troika, com o belo argumento “não me lembro de ninguém que tenha renegociado, que entre numa renegociação e saia de lá com melhores condições” (sic).

O que me deixa preocupado, tendo em conta que o Governo que ele lidera tem estado a renegociar, entre outros, os contratos das Parcerias Público-Privadas. Está a quer-nos dizer que ficaram piores do que estavam?

Mas a minha frase preferida foi a de quarta-feira à noite, à TVI (só vi uns 10 minutos): “Devo ter um problema de comunicação”.

Preferida porque, como o Pedro devia saber, a comunicação significa haver um emissor e um receptor (com ou sem o p de Passos). Quando alguém que em toda a sua vida, desde muito jovem, viveu da comunicação – a vida de um político eleito depende dela – comete este lapso, está-nos a dizer que (tal como no caso do alemão) devia ter estudado mais ou tem um problema de dupla personalidade, o Passos primeiro-ministro não consegue comunicar com o Passos candidato.

Tal como acontecia com Bush, é penoso e divertido ver os jornalistas dos diretos televisivos a tentarem fazer uma síntese dos discursos de Passos Coelho: não sabem o que dizer, perdem-se na tradução.

Filinto Melo escreve segundo o novo acordo ortográfico

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