3 Out 2011, 17:48

Texto de

Opinião

A vassourada que falta

Instalámos contentores e ecopontos, mas nem por isso o Porto está mais limpo. A cada passo se encontra um contentor destapado, a babar resíduos.

Lixo

Travessa de S. Carlos: um dos locais do Porto onde é frequente ver lixo amontoado. Foto: Arquivo

Quando cheguei ao Porto, no Verão de 1972, praticamente todas as ruas tinham 2 sentidos  de trânsito. Havia os autocarros de 2 pisos, os trolei-carros, a que mais tarde os meus alunos chamariam “autocarros com suspensórios”, e havia os elétricos, percorrendo ainda a cidade quase toda, com a sua música ronceira inconfundível – “de-be-de-be-de-bbbbbbb-ddddbb…. Brrrrrrããããã….. Brrrããã…. Tlim!!!” – , que conferia uma alegria especial às tardes de domingo.

Semáforos creio que ainda não havia. Mas nos cruzamentos mais movimentados o trânsito era regulado por um agente policial que, bem no centro do cruzamento, sobre um pequeno palanque (redondo como uma enorme bolacha ou como uma minúscula rotunda) executava sinais de um código que os condutores dominavam.

Para ver e ser visto, não lhe bastava o palanque. O que o tornava mais visível era uniforme branco, sobretudo as enormes luvas com que fazia Stop ou mandava seguir. À comunicação gestual juntava o som dum apito. Oh…tantos condutores deixavam o carro ir abaixo ao som estridente do apito do polícia-sinaleiro, como era popularmente designado o agente regulador do trânsito.

O volume de tráfego era incomparavelmente inferior ao dos dias de hoje, ao contrário da população. Quer dizer, a freguesia da Sé e as zonas ribeirinhas ainda estavam pejadas de gente e ainda não tínhamos de distinguir população residente e população flutuante quando nos referíamos aos índices demográficos do Porto.

Assim era o Porto de há 40 anos. Uma cidade relativamente limpa e calma. Mas o cenário mudou muito, de então para cá: adoptámos a sinalização luminosa e os semáforos inteligentes; inventámos a separação do lixo, a recolha seletiva e por toda a cidade instalámos contentores e ecopontos.

Mas nem por isso a cidade está mais limpa. A cada passo se encontra um contentor destapado, a babar resíduos, ou como uma ilha no meio do lixo empilhado à sua volta. Com todas as nuances de perigo para a saúde pública.

De quem é a culpa?

Para já é de quem coloca contentores ou ecopontos num determinado lugar e não faz a recolha do lixo regularmente. E aqueles que, vendo o contentor cheio, continuam a depositar lá o lixo também não estão inocentes. Eu não sou culpada dessa selvajaria, mas sinto vergonha. Passem no gaveto das ruas das Oliveiras e de Sá Noronha e digam-me se não é vergonhoso…

O presidente da câmara reconhece que o Porto é uma cidade suja quando afirma que uma das vantagens da privatização dos serviços de limpeza será uma cidade mais limpa. Admito que sim. Mas vamos esperar pela privatização para ver o Porto de cara bem lavada?

Afinal, em 40 anos não evoluímos tanto assim. O Porto precisa de uma grande vassourada.

Alice Rios escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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