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Foto: Miguel Oliveira

17 Abr 2017, 14:07

Texto de

Opinião

Linguagem do corpo

Falar do corpo e da sua linguagem é falar da vertente substantiva da vida. Falar do corpo é falar dos adornos biológicos (o cabelo, a barba, os sinais, as sardas), ou dos adereços externos intimamente colados ao corpo (o vestuário, os enfeites, os perfumes).

A linguagem do corpo não se reduz à voz e à palavra, mas também à postura, ao gesto e à mímica. Só por mero exercício teórico se pode separar o substantivo (aquilo que tem substância, a parte real das coisas) do adjectivo (a qualidade acrescida), o sujeito e o seu mundo subjectivo, do objecto (as coisas concretas, a começar por aquelas que lhe estão mais próximas e que constituem o seu corpo físico). Falar do corpo é falar do diálogo do sujeito consigo próprio no território do corpo e, sobretudo, no ajustamento do corpo às vicissitudes e fatalidades da vida. Falar do corpo é olhar a substância material da existência através das janelas da estética, da ética, da biologia e da antropologia. Fala-se através do corpo, pensa-se e escreve-se através do corpo. O próprio mundo inanimado “relaciona-se” com o homem e com os restantes seres vivos através das formas e demais atributos físicos que compõem os diversos corpos, sejam corpos celestes – astros, sejam corpos terrenos – pedras. O corpo transporta a personalidade ou seja, a figura psíquica típica de cada um, mas esta não vive sem o corpo. A figura pode ser criada ou recriada, mas é inconcebível sem o corpo físico. A literatura, o teatro, o cinema, compõem figuras, desenham cenários, mas sempre usando e às vezes abusando do corpo físico.

Convido os leitores a viajarem comigo na barca da escrita, cruzando os mares duma existência concreta, concebida e perpetuada por Eça de Queirós em Os Maias.

Maria Eduarda e a sua cadelinha escocesa. Tantas vezes o peludo bichinho povoara os sonhos de Carlos da Maia: “… trotando ligeiramente atrás de uma radiante figura pelo Aterro fora”, ou então “aninhada e adormecida num doce regaço…”

A primeira aparição de Maria Eduarda frente a Carlos da Maia acontece junto do Hotel Central em Lisboa, onde estava hospedada e Eça descreve-a assim: “com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita.”

Quando se preparava para abandonar o país, em plena Estação de Santa Apolónia, no auge tragédia, Eça oferece-nos este retrato da mesma senhora: “toda envolta numa peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma máscara.”.

Se repararmos nalgumas formas e cores usadas pelo escritor. para esculpir e colorir a figura feminina, elevada à condição de rainha da tragédia, constatamos a importância que o autor concede à adjectivação da vertente substantiva da vida. Ora vejamos: Maria Eduarda mostra “aplicação” e “modos doces e graves”. Nos Olivais Carlos quando se abeirava da porta “sentia-se logo envolvido num extraordinário conforto moral” Outros adjectivos usados por Eça “divina, esplêndida, sublime”. O mestre coloca na boca de João da Ega esta apreciação: “Loira, alta, esplêndida, vestida pela Laferrièrre, flôr de uma civilização superior, faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas”.

E a cadela? A bonita cachorrinha, que, quando farejava qualquer perigo à sua volta, saltava do empedrado das ruas alfacinhas para os delicados braços de Juno, a deusa, sua dona?

Como chegaram até nós as míticas figuras criadas pelo genial escultor da palavra que em 16 de Agosto de 1900, disse adeus ao mundo, embarcando para o Olimpo a bordo da nau das metamorfoses finais? Como se equilibram, no arame da vida, as coisas que Deus cria, os homens vêem, a natureza transforma e a terra come? Como se transformam as coisas, quais os pressupostos da mudança, particularmente naquilo que ao homem diz respeito, quando observado (o homem), pela janela da estética (a imagem retocada de si mesmo), pela janela da ética (o ideal a perseguir a perfeição), pela janela sensorial (o que os olhos vêem)?

Em termos biotipológicos e psicológicos, o corpo humano sofre (como todos os corpos vivos) alterações radicais durante todo o seu desenvolvimento pós-embrionário. Porém, esta modelagem constante que aparece exposta aos nossos olhos, mimetiza em grande medida no plano ontogenético aquilo que à escala filogenética aconteceu. Isto é, de certa forma o homem copia durante a viajem da vida, logo a partir da estação do berço até alcançar a estação da maturidade adulta, situada lá longe, na plenitude da existência, toda a evolução Darwiniana desde o Homo Sapiens até ao senhor Carlos da Maia dos nossos dias.

Como será o resto da viagem à escala evolutiva não o sabemos. Decerto num amanhã ainda encoberto pelo crepúsculo da ciência usará um computador colado ao corpo para substituir as funções vitais quando estiver cansado. Terá talvez muitas peças de plástico, umas por razões de saúde como já hoje acontece, outras para iludir a morte, tal qual os pneus dum automóvel de corrida que se trocam num ápice de acordo com a mudança do tempo atmosférico. Certamente alguns lustres serão acrescentados às oito ou nove décadas de expectativa de vida que o homem de hoje já possui. Temos porém a certeza que o nosso comboio parará seguramente numa qualquer estação de destino daqui a quarenta anos ou daqui a cinco minutos; hoje e sempre; aqui ou além no futuro longínquo. E ainda bem que assim é, a morte é imprescindível para dar sentido à vida.

O nosso barco pára no cais dos 50 anos de Maria Eduarda e de Carlos da Maia..No rosto de ambos estão bem marcadas as fissuras da tragédia que irrompeu como um vulcão nas suas vidas. No corpo de ambos estão impressos os sinais da angústia que o tempo ajudou a cristalizar. Na alma de ambos apaga-se lentamente a luz do passado, abrindo-se em rasgões iluminados o espectro escuro da morte.

E a cadelinha? A bela cachorra escocesa, que dançava como um diabrete diante da deusa?

Essa foi a mais feliz! Não deu conta de nada, nem sequer de envelhecer!

 

Carlos Mota Cardoso é especialista em Psiquiatria e vogal do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos.Carlos Mota Cardoso - Secção Regional Norte Ordem dos Médicos

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