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Foto: Arq/Miguel Oliveira

12 Mai 2016, 10:02

Texto de

Opinião

Leituras de alta costura

A minha professora dominava a verdadeira elegância de conseguir fazer muito parecendo nada fazer.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Foi com uma professora da minha escola secundária que eu aprendi o que era a elegância.

Não foi paixão minha, daquelas que fazem os alunos fixar intensamente professores distraídos, ou sensualidade dela, das que fazem os adolescentes agitarem-se atrás das mesas. Na verdade, mal se dava pela minha professora: era uma mulher baixa e larga, de cabelo ondulado negro e rosto miúdo. Não punha ênfase na maquilhagem, não usava roupa vistosa ou de bom corte, e fitava os alunos que a saudavam no corredor sem nada dizer. Nem alardeava afetação ou qualquer outro dos maneirismos que se confundem com sofisticação.

A minha professora dominava a verdadeira elegância de conseguir fazer muito parecendo nada fazer. E por isso, dentro da sala, sentava-se atrás da secretária grande e quase não se mexia até ao toque de saída, conduzindo a aula como a uma orquestra.

Falava devagar, baixo, com palavras medidas, à altura certa para ser escutada por todos. E dizia tudo quase sem falar. Como da vez em que me perguntou se eu não ia seguir Literatura depois do secundário, com tamanho desinteresse que eu tive de seguir Literatura depois do Secundário.

Ou então, quando leu uma passagem de Os Maias.

Entendam-me: não era suposto um professor de Português ler na aula. Deveria apenas mandar ler e corrigir os erros, soluços, balbuceios e outros tropeções dos alunos, que tornavam a leitura em voz alta numa massa disforme de palavras da qual ansiávamos por escapar.

Dessa vez, foi ela, a professora, que leu. Leu como se não lesse, de voz nua, entregue à ironia, ao humor e à música do texto. E subitamente o texto entrou a correr pela sala: fez-nos caretas, lançou-nos sorrisos, piscadelas de olho, mostrou-nos até a língua antes de se ir embora também a correr.

No final ficou um silêncio algo entontecido, como se aquelas palavras amontoadas na página tivessem feito um bailado magnífico diante dos nossos olhos e agora nos espreitassem timidamente do palco, à espera dos aplausos.

Que não houve, na verdade. Os aplausos são quase sempre lançados por quem esteve a dormir ou a pensar noutra coisa, e nós estávamos demasiado atordoados pelo que tinha acabado de acontecer. Alguns – os ferrenhos dos textos de apoio Europa-América – até consideravam a hipótese de tentar ler o livro de Eça.

Ainda hoje desconfio que aquela minha professora foi feita pela Coco Chanel.

 
Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Jorge Palinhos

Opinião

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