22 Out 2012, 20:04

Texto de

Opinião

Quando for grande quero ser bombeiro

O sentido de missão destes homens é inigualável e deve merecer-nos um reverencial respeito que só se outorga a heróis.

Durante 7 preenchidos e vívidos anos tive o privilégio de conviver com os Sapadores Bombeiros da cidade do Porto. Homens únicos que eu julgava fazerem parte de uma utopia impossível de encontrar. O bombeiro tem algo de mítico que o transforma em arauto de uma especial ética da existência. Por alguma razão os bombeiros são o grupo profissional em quem os Portugueses mais confiam, à frente de médicos e professores. O sentido de missão destes homens é inigualável e deve merecer-nos um reverencial respeito que só se outorga a heróis, pois abnegação e heroísmo são os valores estruturantes da profissão de bombeiro.

A minha partilha existencial com estes homens foi total e completa enriquecendo-me ontologicamente na assunção de valores únicos de convivialidade.

Como Professor transmiti-lhes o melhor da minha ciência, como Homem dei-lhes o melhor da minha alma. Não porque fosse inicialmente disposto a uma entrega tão absoluta mas porque eles me obrigaram a tal. Quem entra naquela casa fica tomado por um espírito de corpo de tal forma avassalador que rapidamente deixa à entrada as pulsões individualistas.

Os bombeiros profissionais que protegem a cidade do Porto colocam a força do colectivo à frente das tensões egoístas, o que lhes permite um permanente estado de prontidão que muitas vezes permite ultrapassar os constrangimentos materiais e humanos que são apanágio deste tipo de instituições.

Nesses anos de profunda vivência humana vi vários morrer em serviço, outros feridos com gravidade, carne e ossos desfeitos, porque nunca regateiam a dádiva das suas vidas cumprindo os ditames mais profundos do seu juramento profissional.

Por isso os admiro e tenho neles muitos dos meus melhores amigos.

Lembro a minha primeira recruta – os “Iogurtes” (adoptaram este alimento como sobremesa preferida após refeições e foram de imediato assim apodados pelos mais velhos), que me receberam com um misto de dúvida e interrogação já com o processo de recruta a decorrer. Revi neles os meus sonhos de menino e vi-lhes crescer, a par da excelência profissional, um elevado espírito de altruísmo que é o garante ético da profissão de bombeiro.

Recompensaram-me em amizade e gratidão o que lhes outorguei em empenho profissional. Poucas vezes senti tão forte o sentido de utilidade social da minha profissão de professor como com aqueles homens.

A segunda recruta foi denominada os “Voltaren”, pois era a mesinha que eu lhes recomendava quando as dores musculares e articulares ultrapassavam o limite do razoável. Treinar para ser bombeiro é duro mas só assim se consegue a destreza profissional que se lhes exige a cada momento. Também estes, rapidamente captaram o espírito da casa e se transformaram em excelentes profissionais que honram a cidade.

A terceira recruta ficou naturalmente classificada como os “Vitaminas”, pois com eles realizei um estudo acerca dos efeitos de uma suplementação vitamínica específica em alguns parâmetros imunológicos. Mais novos mas nem por isso menos empenhados em crescer como homens e em dignidade profissional.

Cada recruta é o remake de um filme que tem a coragem, ética e responsabilidade como guião. Não há tempo para desistências e, superando dores, lesões e insuficiências, muitas vezes em sacrifício, “constroem-se” profissionais que elevam bem alto o que de mais humano existe no homem.

A ética do servir é apanágio de poucos. Poucos, como os bombeiros, conseguem materializar em atos quotidianos a suprema alegria da dádiva. Por isso, lhes quero agradecer as lições de vida e humanidade que me deram nos anos em que tive a honra de fazer parte deles.

Sou professor por amor e devoção; serei sempre bombeiro por amizade e gratidão.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Joaquim Teixeira says:

    Obrigado professor. Foi um prazer o convivio e as várias peripécias durante esses bons anos, nomeadamente a preciosa colaboração do professor na preparação física do pessoal das manobras que nos levaram ao ponto mais elevado da Europa. Obrigado por tudo e um forte abraço. Bem haja. Chefe Teixeira

  2. Manuel Santos says:

    Amigo Professor José Augusto
    Foi um prazer trabalhar com o meu amigo ao longo dos anos em que pestou serviço digno de um campeão, conjuntamente com os mais abnegados da Cidade do Porto, que não olhavam a meios para defender a vida e os haveres dos seus concidadãos.
    Agradecer, a paciêncio,o desempenho, o convivio e fosse ele quando fosse e a que horas fosse sempre ao lado dos Bombeiros, quando entrava de manhã e saía só à noite.
    Obrigado, por ter sido nosso amigo
    E como dizia o saudoso Raul Solnado “faça o favor de ser feliz”
    Um bem haja, e um grande abração

  3. Olá Prof. Zé Augusto, como nós o conhecemos!
    Você é o maior! Como se deve lembrar sou o recruta 10, da geração “iogurte”. Quero lhe agradecer tudo o que escreveu a nosso respeito, grandes verdades e agradecer tudo que nos ensinou. Particularmente lembro-me de algumas máximas que ainda hoje me acompanham: aquando da minha lesão no menisco ensinou-me uma: “aprender a conviver com a dor”!!!
    Na altura soou-me uma enormidade, hoje, depois de muita dor e reflexão, sei que me ensinou das coisas mais importantes na vida, pois ela faz parte de quase tudo. Não perdi a recruta devido a essa frase.
    É um professor duro, exigente e até difícil, mas por isso tudo é que entrou nos nossos corações, onde não entra qualquer um… É cá dos nossos, sabe o que passamos e muitas vezes passou connosco!
    Um exemplo a seguir, manda e exige, mas dá o exemplo e desafia-nos ao mesmo e melhor, você tira sempre o melhor que há em nós!
    Hoje reformado, nutro por si um enorme respeito e amizade.
    Bem haja prof. e como diz o Manuel Santos, “faça o favor de ser feliz”!!!
    Grande abraço.

  4. GUEDES says:

    Como elemento dos Voltaren, e amigo deste grande Homem, que ensinou a aguentar as dificuldades e as dores de uma recruta, faço minhas as palavras que ja foram ditas pelos colegas. Parabens ESCOLA e faça o favor de ser feliz.
    Grande Abraço.

  5. José Machado says:

    Viva prof,assim é tratado por este(velhote),que mais poderei acrescentar ao acima mencionado pelos meus camaradas,apenas dizer,que de tantos elogios que lhe possámos dar,nunca agradecemos os ensinamentos,as palestras,o ombro amigo,a presença nos momentos mais difíceis,prestados por semelhante ser HUMANO,sinto-me feliz por poder dizer públicamente que tenho um amigo deste quilate.
    Um grande abraço deste bombeiro aposentado.

  6. Artur Dias says:

    Viva o Professor José Augusto. Viva o Professor que se entregou de corpo e alma ao espírito dos Sapadores Bombeiros da Cidade do Porto. Viva o Professor que vestiu a nossa camisola, que compartilhou momentos constrangedores da nossa vivência, que soube compreender os nossos problemas, que compartiu connosco tristezas e alegrias. É pois desta forma, e só assim, que se consegue compreender os “Homens únicos” que se julga “fazerem parte de uma utopia impossível de encontrar”.
    Obrigado Professor.
    Um grande abraço amigo e “faça o favor de ser feliz”.
    Artur Dias

  7. João Egdoberto Siqueira says:

    Este é o meu professor, que se presta como exemplo de pessoa, de dedicação ao que gosta, de gostar do que faz. E de transmitir o que é necessário, memso que da forma como ele sempre dizia: doa a quem doer! Fique sempre bem, meu mestre!

  8. Mais um viva a este grande Senhor, penso que ainda não foi tudo dito deste grande ser HUMANO, e espero que muito coisa ainda se tenha a dizer, pois é sinal que ainda não terminou os seus ensinamentos.
    Caro professor é sempre bom ouvir palavras tao carinhosas e honrosas como o sr. fez questão de dizer, agrada-me que tenha convivido connosco, mas agrada-me mais que ainda o possa fazer, seja a pé, na bicicleta ou a jogar uma sueca, como sei que o sr. gosta. No nosso meio o sr. terá sempre um lugar de honra, espero que tenha saúde, alegria e muita força na verga, pois só assim nos consegue acompanhar.
    Abraços com muita amizade e “faça o favor de ser feliz”
    Francisco Lima

  9. JOSE LUIS DURÃES REGO says:

    Desde muito novo aprendi a estimar e repeitar os HOMENS DA PAZ. Sempre que visitava os meus tios maternos, em Barcelinhos, lá ia eu visitar o quartel dos bombeiros, quase todos os meus tios fizeram parte da corporação seguindo os passos do meu avô Vicência, que não conheci e, que fez parte da corpo fundador dessa instituição. Os bombeiro sobre quem o Prof. Zé Augusto escreve, são profissionais do seu oficio e sabem honra-lo. Os chamados voluntários, são também HOMENS valorosos que muito estimo e respeito.
    Uns e outros são o orgulho das NOSSAS GENTES.
    Bem hajas Zé , pela homenagem que prestas aos NOSSOS HOMENS.
    Abç. Josè Luís D.Rego

  10. Fernando Figueiredo says:

    Que mais dizer sobre este Sr.Professor com um H muito grande, que se sentava na mesa ou em qualquer lugar desde o mais antigo até ao mais moderno.
    Só lhe desejo as maiores felicidades deste mundo, e um muito obrigado pelas palavras proferidas aos Bombeiros do B.S.B
    Bem haja Professor José Augusto.

    Figueiredo

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