Image de Jogos Olímpicos do Rio: a representação portuguesa

Foto: DR

30 Ago 2016, 11:35

Texto de

Opinião

Jogos Olímpicos do Rio: a representação portuguesa

O ser humano necessita de mitos, religiosos, políticos, desportivos, para tentar dar sentido à existência e preencher o vazio da vida.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Através dos mitos o homem tem acesso a um nível de realização que a sua prosaica existência impossibilita. Nos mitos investimo-nos numa dimensão emocional que deixa pouca margem para o domínio da razão. O por isso o excesso é o pano de fundo na análise dos mitos e de tudo o que lhes corresponde.

Vem isto a propósito de algumas análises excessivas que muitas pessoas fizeram à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mais uma vez a emoção tomou o lugar da razão e toca a encontrar culpados para sacrificar na ara das nossas frustrações. É óbvio que as coisas não correram como todos desejávamos, mas é forçoso separar o trigo do joio e fazer a crítica com a consciência de escala que a história desportiva portuguesa exige.

A nossa primeira participação olímpica foi em 1912, nos JO de Estocolmo, e começou logo mal com a morte de Francisco Lázaro por choque térmico por, estupidamente, ter untado o corpo com sebo, supostamente para não perder água. Desde essa data até ao presente conquistamos 24 medalhas olímpicas. Para darmos noção de escala à nossa valia desportiva importa salientar que Michael Phelps, na sua vida desportiva que agora termina, ganhou mais medalhas que Portugal em toda a sua história.

Por isso, antes de mais, devemos ter consciência das limitações endémicas que desde sempre caracterizaram o desporto português e analisar, com algum relativismo, os resultados dos JO do Rio de Janeiro. O desporto que temos é reflexo do país que somos. Um país com uma economia inerme e debilitada, finanças caóticas e destruídas, indústria frágil e diminuída, políticos venais e incompetentes e povo abúlico e inconsciente, não pode aspirar a ser excecional como um todo e tem de se contentar com alguns nichos residuais de excelência. Encontramo-los em alguma ciência, em alguma indústria e em algum desporto.

Bafejados pelos ventos do Olimpo, no desporto, até conseguimos, de vez em quando, sair da aurea mediocritas com que nos contentamos e atingir patamares de relevo. Por isso, se alguém quiser criticar os resultados da prestação portuguesa nos JO do Rio, primeiro tem de fazer uma viagem bem lúcida ao que fomos e somos, em todas as vertentes pelas quais uma sociedade se manifesta.

O que é de admirar não é a pobreza dos nossos resultados desportivos olímpicos; o que é de admirar é que um país exangue, parado e contemplativo há muito tempo, consiga encontrar forças que lhe permitem criar e desenvolver um desporto que, de todo, não nos envergonha. Estar entre os dez melhores do mundo é façanha difícil e cometida a poucos. Só os incultos da coisa desportiva, só os fanáticos do resultado, só os acéfalos que transportam para o desporto em geral as taras competitivas do futebol interno, é que podem vituperar os resultados excecionais que conseguimos no Rio de Janeiro.

Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro, David Fernandes, Nelson Évora, Patrícia Mamona, Ana Cabecinha e Nelson Oliveira estiveram lá, naquele patamar em que os humanos se aproximam dos deuses. O que lhes podemos pedir? Simplesmente que deem tudo o que têm dentro de si na procura da vitória. Mais nada. Não lhes podemos exigir nada mais que o empenho absoluto o que induz anos e anos de entrega, superação e sacrifício. Os resultados foram denodadamente procurados, mas a sua concretização foi condicionada pelos humores dos deuses. A dimensão aleatória do desporto não permite a promessa antecipada de medalhas. Temos, de uma vez por todas, evitar prometer medalhas.

Temos, por imperativos de consciência, prometer dar o melhor de nós próprios, na procura do êxito. Por isso, os atletas que atrás apontei são merecedores do nosso aplauso e admiração. Eles não têm de se desculpar de nada. Eles estão entre os melhores atletas do mundo e devem ser evidenciados como exemplo. Devemos merecer o seu valor dando-lhes condições para continuarem a senda de qualidade que os caracteriza. Que continuem a porfiar para serem melhores. Se vão ter medalhas ou não, é assunto que devemos relegar para o campo dos nossos mais íntimos sonhos.
Mas, há também motivos de críticas, não aos resultados, mas ás atitudes. Como pode o responsável pela missão olímpica aos JO do Rio estar orgulhoso da representação portuguesa? Critico a sua atitude politicamente correta.

Houve motivos de orgulho e houve motivos de desorgulho (permitam-me o neologismo), é necessário afirmá-lo com coragem e clareza. O pai do desporto de alta competição em Portugal, e meu mestre, o insigne Professor Mário Moniz Pereira, ganhou a carta de alforria para o desporto português através de um trabalho único na área do meio-fundo e fundo do Atletismo. Criou as bases de um trabalho em profundidade que permitiu os maiores êxitos do desporto nacional. Esse património tão rico está delapidado até à insignificância. Aqui sim, é necessário estudar a etiologia e encontrar o antídoto para a doença. Merece esse esforço, não só o país, mas todos os cabouqueiros que nos fizeram acreditar que quando queremos também podemos.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.