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Foto: Arq/Carlos Romão

29 Jan 2014, 10:30

Texto de

Opinião

Do Indizível

Estavam todos de costas voltadas para o mar, numa agitada e perigosa noite de Inverno e, por cada resposta errada, davam um passo para trás na direcção de um afogamento certo. O que lamentavelmente, acabou por acontecer.

Imagem de perfil de Ana Cancela

Nascida em Vila do Conde há 30 anos, desde cedo, e muito motivada pelos pais, revelou interesse em viajar. Tem na Ásia o seu verdadeiro destino paixão e do Japão trouxe o desejo e a vontade de abrir a primeira loja do país dedicada exclusivamente ao país do Sol Nascente. Abandonou o emprego de representação da Alta Costura francesa em Portugal e trocou a moda pela Kuri Kuri. Gosta de música shoegazer, de fotografar concertos e de escrever sobre eles. Gosta de ler e tem José Saramago como um educador. Continua permanentemente irrequieta com a vida.

Os recentes eventos, com demasiados factos ainda por apurar e o único sobrevivente ainda por interrogar, relança na praça pública a polémica da praxe académica e dos abusos com ela relacionados.

A praxe humilha, envergonha, hostiliza e não me parece sequer válido o argumento “fiz amigos para a vida enquanto fui praxado” porque a amizade é, acima de tudo, respeito pelo outro e não resulta de “somos amigos porque fomos humilhados ao mesmo tempo”.

Não concordei com a praxe em 1998 quando vi, incrédula, quatrocentos colegas meus, horas a fio, ajoelhados no solo de gravilha da entrada da Faculdade de Economia do Porto e continuo a não concordar veementemente com a lógica puramente obscena da praxe académica e dos argumentos usados por quem a pratica.

Eu fui humilhado, eu humilho, tu és humilhado, tu humilharás. Uma conjugação mais do que imperfeita da vida académica, que anula o princípio base da comunicação, que é o respeito e a igualdade pelo próximo.

Seja motivado por uma errada ilusão de solidão académica e exclusão das actividades universitárias ou pelo efeito da imposição autoritária dos mais velhos, o facto é que a praxe exerce um efeito dissuasor nos mais novos, mais frágeis, impedindo-os na maior parte das vezes de recusar a participação, sob pena de hostilidade dos outros. Um lugar onde só a autoridade prevalece e à qual não se pode olhar de frente.

As tradições erradas devem ser erradicadas. Estarmos diante de um nosso semelhante, chamando-o de besta e este acatar de olhos presos no chão, para mim é um cenário inconcebível. Não é divertido, não une, é humilhante e desrespeitador. A base da socialização não é, nem nunca será, a humilhação do próximo.

Esta é uma lógica errónea da evolução da vida em sociedade. A praxe é um ritual iniciático absurdo, não é nem nunca será a abordagem correcta de integração social, seja laboral ou escolar. Os seus princípios base são o rebaixamento do estudante recente, muitas vezes só e receoso da não pertença ao grupo. A praxe não dignifica nenhuma academia, muitos menos quem a pratica.

Quantas mais humilhações, mais mortes terão de acontecer para que as consciências acordem? Quando atingiremos enfim, plena e assumidamente, a nossa humanidade?

Opinião

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