Image de Hospital de S. João – o meu hospital

12 Dez 2013, 22:40

Texto de

Opinião

Hospital de S. João – o meu hospital

Entrei com pulseira vermelha quando cheguei com o coração aos saltos. E uma sinfonia de elevado profissionalismo evitou que abandonasse precocemente as alegrias e vicissitudes da vida.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Hospital de São João

Foto: Arq/Miguel Oliveira

Pode parecer estranho este sentimento de posse sobre um instituto público como um hospital mas, como se poderá verificar de seguida, este sentimento de posse não é assim tão desproporcionado.

É óbvio que os sentimentos que emergem da relação com uma instituição passam pelas interdependências que se estabelecem com as pessoas que a constituem. As instituições consubstanciam-se em pessoas a trabalhar em rede, com as suas grandezas e misérias, e não em organigramas abstratos.

Tenho uma relação muito especial com o HSJ desde os seus primórdios. Ainda recordo o meu espanto infantil perante a enormidade dos caldeirões da cozinha, aquando duma visita guiada oferecida pela administração da altura, a todos os enfermeiros do norte do país, dias antes da sua inauguração oficial. O meu pai foi enfermeiro. Mais tarde, com o filme Shining, de Stanley Kubrick, recuperei memórias do medo que os imensos corredores vazios do HSJ me provocaram na altura.

Mas passemos ao que interessa.

O grau de evolução de uma sociedade pode ser aferido pela análise da forma como se preocupa com os mais jovens e os mais idosos. Respeito pelo futuro simultaneamente ao respeito pelo passado faz cada cidadão sentir-se parte de um todo integrado e evita a formação de aleijões humanos que relegam o indivíduo para uma marginalidade social, muitas vezes evidente, outras sub-reptícia. Isso acontece, ainda hoje, nos mais jovens por ditadura do berço e nos idosos pela menorização dos seus contributos como elos na cadeia evolutiva que caracteriza cada sociedade. Quando os velhos são analisados pelas equações que deificam o PIB é melhor descartá-los o mais rapidamente possível.

Mas, um dos sinais mais relevantes de humanismo de uma sociedade, é dado pela forma como esta considera e resolve os problemas da doença, da dor, da senescência. Os cuidados de saúde dão a exata dimensão ética de uma sociedade.

O desiderato de uma sociedade em combater eficazmente a doença e pugnar pela erradicação do sofrimento passa pelo bom funcionamento dos hospitais públicos.

O HSJ, por aquilo que me foi dado observar ao longo dos anos, tem sido, em geral, um exemplo de dignidade ética, preocupação humanista e empenho profissional. Nestes conturbados tempos, em que na lusa casa falta pão e todos têm razão para se queixar, não podemos desistir de nós. O HSJ não desiste e tem melhorado, mesmo nestes tempos minguados de meios.

É lógico que, como em qualquer outro instituto público, vingarão no HSJ focos de incompetência, demissão e dolo do interesse público. Mas pelo que me é dado observar, de há uns anos a esta parte, existe uma tensão corretiva que tenta erradicar esses focos e fazer entrar o HSJ numa senda de elevado serviço público.

Não vou falar do HSJ como centro de investigação científica que me permitiu realizar alguns dos trabalhos mais conseguidos da minha carreira académica. Fisiologia, saúde óssea, imunologia e hematologia, aprofundadas na perspetiva do desporto, foram campos que abordei como investigador e que me estariam vedados se não fosse a determinante colaboração do HSJ e da sua Faculdade de Medicina.

Não vou falar do HSJ, dos meus colegas e amigos, que todos os anos colaboram, de forma totalmente graciosa, com a minha faculdade na lecionação de várias matérias nos mestrados e doutoramentos, enriquecendo-nos os curricula.
Não vou falar do apoio inestimável que o HSJ deu a alguns dos atletas mais proeminentes do desporto português, e.g., Vanessa Fernandes (medalha de prata nos Jogos Olímpicos em Triatlo), Emanuel Silva (campeão do mundo e medalha de prata olímpica na canoagem de velocidade), José Ramalho (campeão europeu e vice-campeão do mundo de canoagem maratona) entre outros, permitindo-lhes controlar o treino e a saúde.

Vou falar do HSJ como casa que alberga as minhas mazelas e da forma como sempre fui tratado. Eu, e os outros. Há sem dúvida uma cultura humanística neste hospital que urge preservar contra tudo e contra todos.

Sou um cliente habitué do HSJ. O rol das minhas patologias faz as delícias dos amantes das palavras caras: taquicardia paroxística resistente à cardioversão química, rotura completa da inserção proximal do colateral interno com infiltração hemorrágica, glaucoma por hipertensão intraocular, entorse de grau 3 com lesão ligamentar total, fratura acrómio-clavicular com arrancamento ligamentar, estenose uretral com hipertrofia benigna da próstata, etc.

Só eu já dei trabalho a quase todas as especialidades da medicina. Convivi nos corredores, salas de espera e enfermarias, em simbiose de dor e sofrimento, com outros azarados como eu sentindo na alma e corpo o fluxo operacional deste hospital.

Por isso, quero dizer obrigado ao Hospital de S. João, englobando neste agradecimento o mais simples funcionário auxiliar e o médico mais brilhante que me operou. Entrei de urgência muitas vezes no HSJ. Ninguém sabia quem era o pouco que sou, por isso a forma como fui tratado releva da forma como todos são tratados.

O que vi?

Acima de tudo justiça e profissionalismo. Entrei com pulseira amarela quando cheguei com o pé inchado por entorse. Entrei com pulseira vermelha quando cheguei com o coração aos saltos. Aí, meus amigos, todos dão tudo por tudo. Uma sinfonia de elevado profissionalismo para evitar que aquele ser humano que lhes chegou às mãos abandone precocemente as alegrias e vicissitudes da vida.

Vi médicos, enfermeiros e auxiliares serem maltratados por energúmenos que pensam que o mundo deve ser regido pelos imperativos da sua má formação. Nunca vi uma reação mal-educada ou intempestiva que seria perfeitamente normal em quem convive diariamente com o pior que o ser humano desenvolve.

Por isso, nestes momentos de esquizoidia social em que parece que andamos de costas viradas para os outros, quero expressar a mais sentida gratidão a todos os profissionais que diariamente fazem do HSJ uma instituição social de elevada qualidade.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Helena Vidinha says:

    Foi assim que te conheci!!!Por trás de todas as tuas capas, continuas a ser o José Augusto amigo, sensível e verdadeiro. Obrigada.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.