Image de Homossexualidade, heterossexualidade e outras opções ao gosto do freguês

Foto: Arq/Rita Pinheiro Braga

13 Fev 2014, 16:24

Texto de

Opinião

Homossexualidade, heterossexualidade e outras opções ao gosto do freguês

,

Tinha decidido não me meter nestas andanças pois poderia arranjar lenha para me queimar. Pois bem, que me esturrique até os ossinhos se desfazerem no fogo das câmaras crematórias dos avançados mentais.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

A homossexualidade e outros comportamentos sexuais fora da norma são tão antigos como a humanidade. Muitos comportamentos sexuais humanos têm uma profunda causalidade biológica mas, no essencial, os conceitos relacionados com a sexualidade são fruto da forma como o ser humano constrói as suas narrativas em relação ao corpo. Tirando alguns casos percentualmente muito reduzidos, as opções sexuais do Homem são fundamentalmente culturais.

Por isso, a homossexualidade deve ser assumida socialmente respeitando o direito do sujeito ao seu próprio corpo.

A homossexualidade atravessa a história da humanidade. Foi, inclusive, bem regulada na Antiga Grécia. A pederastia, a relação homossexual entre um homem mais velho (erastes) e um adolescente (eromenos), consubstanciava-se como instituição socioeducacional através da qual o adolescente era protegido e educado. Funcionava como rito de passagem para o estado de adultícia. Platão, no entanto, condenava a pederastia carnal que considerava contrária à natureza. O amor platónico estava desprovido da sua dimensão carnal, relacionava-se com o processo de formação do jovem, e estava de acordo com as leis da polis. A maioria dos cidadãos de Atenas era contra as relações carnais entre sujeitos do mesmo sexo.

Por isso, desde bem cedo existiu uma tensão antagonista entre a liberdade individual e a cultura dominante da sociedade. Na Hélade, umas cidades eram mais permissivas que outras e, por exemplo, em Creta, a homossexualidade era favorecida como meio de controlo demográfico. Eis a homossexualidade elevada à condição de grande desígnio político. Em Esparta, a educação da criança era assunto de estado a partir dos 6 anos. Viviam em classes ordenadas por idades, com uma educação dirigida à formação do guerreiro e acontecia como natural a relação homossexual. A “ala dos namorados”, formada por pares de amantes amados, era temida pelos outros exércitos devido à sua extrema combatividade.

Embora os dados sejam mais escassos, tenho para mim que muitos dos ideais dos cavaleiros medievais eram encobertos pelo manto diáfano da mais penetrante homossexualidade.

Portanto, tenho bem consciência da “naturalidade” da homossexualidade nas sociedades antigas e hodiernas. Mas, ……. eu sou eu e a minha circunstância, como dizia o Ortega Y Gasset, e não posso nem quero fugir do que sou.

Mandem daí, seus iluminados, a caterva de ápodos com que usualmente são caraterizados todos aqueles que não afinam pelo diapasão das teorias vanguardistas correntes que tentam estender o conceito de família para lá dos limites da irracionalidade.

Se, para defender os valores tradicionais da família, tiver de apanhar com uma carga de homofóbico, atrasado mental, conservador, retrógrado, moralista, reacionário, clerical, etc., seja, tudo pelo bem da minha consciência. Não posso ser aquilo que não sou. Tenho limites culturais que podem ser criticados por quem não pensa como eu, mas que são o cimento estruturante daquilo que sou.

Tenho entranhado até aos ossos, melhor dito até ao cromossoma 46, o mais puro sentido de liberdade. Religião, fervor futebolístico, ideologia política e orientação sexual pertencem à esfera do privado e aí devem permanecer se não colidirem com as liberdades alheias.

Para mim, os talibãs poderiam para sempre vegetar nos infernos da sua incultura se o seu modus operandi não colidisse com os mais elementares direitos do Homem e principalmente da Mulher e se não se constituíssem como os novos cavaleiros das trevas. Mas não, querem fazer um mundo à feição dos seus dogmas obscurantistas. Ao destruírem os Budas de Bamiyán, ao empobrecerem o património cultural de toda a humanidade, ao rejeitarem a plena afirmação social e cultural das mulheres abriram o flanco a todas as condenações e eventuais revindictas. Têm o direito de acreditarem no que quiserem, não têm o direito de, a partir dessa crença, destruir moral e culturalmente os outros.

Em relação às orientações sexuais a mesma coisa. Se os “meninos” e as “meninas” querem explorar a sua sexualidade através dos corpos e das almas dos seus iguais sexuais, o problema é deles e neles deve radicar a lógica moral que os justifica.

Agora quando querem mexer com os sentimentos, a cultura, os valores dos outros, então as coisas já saem do privado e entram na responsabilidade da res publica.

Depois de todas as introspeções possíveis cheguei à axiologia que me corresponde e que afina com o diapasão da minha sensibilidade, da história da minha formação e da cultura em que encontrei as minhas referências éticas e estéticas.

– Sou contra o casamento de sujeitos do mesmo sexo.
– Sou contra a procriação medicamente assistida para casais hétero e homossexuais.
– Sou contra as barrigas de aluguer para casais hétero e homossexuais terem filhos.
– Sou contra a introdução das “teorias do género” nos curricula escolares.
– Para mim não existem novas formas de parentalidade que não decorram da natural ligação biológica entre um macho e uma fêmea.

Depois desta clara petição de princípio vamos lá tentar dar uma ordem à desordem social em que caiu a discussão dos “desviados” do género.

Se por um lado tenho dúvidas quanto aos interesses das crianças que convivem em ambientes de homossexualidade, não as tenho em relação a tudo o resto que atrás enunciei.

Diz-me uma colega que muito respeito que não existe nenhum artigo científico que evidencie a deterioração da saúde psicológica e afetiva da criança quando é criada por um par homossexual. Na sua perspetiva, que logicamente todos os seres bem formados defendem, será melhor uma criança ser criada num ambiente de carinho, preocupação e amor fora dos padrões de normalidade biológica que caracterizam o par tradicional do que numa família normal envolta em choque emocional e violência física.

Aceito, naturalmente, que um ambiente desviante marcado pelo insulto, agressão e descontrolo emocional numa família tradicional é mais perigoso para a saúde física e mental de uma criança que um ambiente de amor e carinho numa relação homossexual.

No meio de todas as minhas certezas existe, sei-o bem, um imenso território de falácias e indefinições. Só que a compreensão de uma realidade “contranatura” não deve reduzir a importância da denominada família natural. Quem diz isso foi filho de uma família natural disfuncional, sofreu no mais profundo de si com o afastamento dos pais mas teve a felicidade inaudita de os ver retomar o trajeto a dois, uns anos mais tarde.

Por muito mal que funcione, a família é o núcleo fundamental de uma sociedade sã. Numa sociedade sã, a família é o porto de abrigo de todos e a fortiori para aqueles que a sociedade tende a marginalizar.

Aceito a livre opção sexual de cada um. Mas, por favor, não me obriguem a lutar, já não digo contra os meus valores, mas contra a minha fisiologia. Numa tentativa de aceitação de formas de pensar e agir diferentes das minhas acedi a ir ver o filme “Brokeback Mountain”. Pois bem, tive de sair do filme a correr com vómitos a revoltar-me as entranhas.

Não quero fazer torcer às minhas idiossincrasias as opções alheias. Ninguém tem o direito de sonegar a liberdade de realização sexual seja a quem for, por mais divergentes que sejam da norma as suas tendências sexuais. Mas, por favor, não me obriguem a afinar por um diapasão que é profundamente contrário à minha formação, aos meus valores, à minha fisiologia. Liberdade total para os homossexuais, bissexuais, transexuais e qualquer-outra-coisa-sexuais. Agora, por favor, não me obriguem nem à sociedade a aceitar os delírios parentais que motivam atualmente todos os transviados de uma sexualidade natural.

Deixem-me morrer e à minha geração para tentar implementar os nexos transformadores que aceitam a relação homossexual, não como opção livre que começa e acaba no par, mas como modelo social “revolucionário” que coloca a pseudofamília homossexual ao par da família naturalmente biológica que nos estruturou o corpo e a mente.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.