22 Out 2013, 15:47

Texto de

Opinião

Henrique Manuel mudou outra vez de desemprego

O desempregado de longa duração é um corredor de fundo no meio dos sem-trabalho, um corredor de fundo que em vez de parar na meta corre até bater no fundo.

1. “Henrique Manuel mudou outra vez de desemprego”

João Gesta, Dorme cá hoje

A degradação do valor do trabalho – valor não apenas material, mas simbólico e psicológico – que o triunfo do neoliberalismo globalizado tem provocado é arrasadora. A ponta do iceberg é o desemprego, mas esta degradação manifesta-se de múltiplas maneiras. A extensão com que um fenómeno atinge uma sociedade pode medir-se dum modo intuitivo pelo grau em que se manifesta ou passa despercebido no nosso círculo próximo. É aqui precisamente o caso: não temos hoje dificuldade em nos lembrarmos de imediato de gente conhecida para exemplificar os múltiplos modos pelos quais a degradação do trabalho está a produzir sofrimento – provavelmente nem temos de sair de nós próprios…

2. “Gastos os restantes cartuchos do subsídio social
O desemprego disparou e atingiu-o em cheio
Resta-lhe assim ferido de pobre
Entregar-se ao rendimento mínimo”

Fernando Liberato, Desemprego

Quando alguém perde o emprego fica desempregado. Óbvio, dirão. E o que faz um desempregado? Pede emprego. Passa a apresentar-se regularmente numa instância estatal para demonstrar aos funcionários competentes para o efeito que está a pedir emprego. Melhor, que está a fazer procura ativa de emprego – como se diz na linguagem dos tecnocratas europeus. Que está farto de pedir, que pede e que pede e que pede. E quem tanto pede transforma-se em pedinte – eis a primeira degradação psicológica que a procura ativa de emprego inflinge na vítima.

Continuará esta caminhada de procura ativa cada vez mais passivo até que a linguagem dos tecnocratas passa a classificá-lo como desempregado de longa duração. O desempregado de longa duração é um corredor de fundo no meio dos sem-trabalho, um corredor de fundo que em vez de parar na meta corre até bater no fundo. Eis nova agressão infligida na vítima, que começa a sentir a sua autoestima arrasada, orientando para si um problema que é macrossocial: “sou eu que não consigo”. É a frase-emblema do fracasso sentido como incapacidade pessoal.

De resto, o trabalho é um bom exemplo de como centramos no indivíduo processos que, em grande parte, se tecem fora dele, à margem da sua vontade, responsabilidade ou poder de decisão. Em tempos de pouco desemprego dizia a voz comum que “se não trabalha é porque não quer”, empurrando para a preguiça e o vício moral a responsabilidade pelo facto. Agora que se percebeu que a questão afinal é mais complexa, permanecem mesmo assim as formas atávicas do pensamento do senso comum, dividindo os desempregados nos bons e nos maus. Os bons são os nossos amigos e conhecidos, que queriam mesmo trabalhar mas não há trabalho; os maus são os que vivem encavalitados nas prestações sociais. Reeditamos assim matrizes que vêm de longe e que dividiam os pobres nos bons e nos maus, sendo legítima e devida a esmola aos primeiros e negada aos segundos.

3. “Afonso Dias decide mudar de desemprego para ficar mais perto de casa.”

João Gesta, mais recentemente

Mas vem lá o dia em que acende a luz ao fundo do túnel. Ali parece haver um emprego! Vai e corre, corre sem olhar para trás, arfa e corre e é desta vez o primeiro a chegar. Só que já estava alguém lá dentro… Regressa então à sua procura ativa, vai ritualmente ao centro de emprego da sua zona dar conta do paradeiro da agulha no palheiro.

Quem quer emprego tem de mendigar. De vez em quando consegue – e fica não raro na situação do mendigo: no fim recebe uma esmola. É pior, portanto: ao menos o mendigo recebe logo. Regressa então à procura ativa de emprego e, agora sim, há um ali. Quando está quase a conseguir descobre que não lho vão dar porque já têm alguém em voluntariado. O voluntariado não é, como quando foi instituído, uma missão de ajuda em situações especiais, mas uma instituição permanente que convence alguém que devia estar ali como trabalhador a declarar-se voluntário. Temos assim voluntários sem vontade e trabalhadores sem trabalho – e rescisões amigáveis em que estão todos zangados e abertura de concursos para preencher vagas que já estão ocupadas…

4. “Um emprego é um sinal
Exterior de riqueza.
Sim, senhor ministro.

Ter trabalho é viver
Acima das possibilidades.
Sim, senhor ministro.”

Renato Filipe Cardoso, O cavalo de troika

Tu é que tens sorte!, dizem-me de vez em quando. Porquê?, perguntava as primeiras vezes, pensando que finalmente me tinha saído o euromilhões. Mas não. Lá vinha a frase “Pois! Tens um emprego!”. Tenho medo do meu emprego. Tenho medo de que comecem a achar-me diferente. Um privilegiado. Que comecem a chamar-me coisas como instalado, burguês. Pior: ladrão. Porque afinal ter emprego é roubar a possibilidade de emprego a quem precisa. A escalada do desemprego tem um potencial de erosão dos laços sociais e exerce uma brutal pressão sobre as condições laborais dos que estão empregados.

O trabalho é um sinal exterior de riqueza – basta ver o modo como é taxado. No próximo orçamento de Estado os funcionários públicos a partir dos 600€/mês são considerados ricos. Ser funcionário público é despesa. Despesa pública. Que é a despesa que nos levou a pedir ajuda financeira internacional porque andou a cobrir os desvarios da finança privada. Isso, essa – a que agora nos diz que ficamos caros e é preciso acabar com o Estado. Começo a achar que sim: se acabássemos com o Estado desaparecia o governo, não era?

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Caro Luis Fernandes, quero-lhe dar os parabéns por esta crónica e acrescentar apenas mais uma coisa…e aqueles que acabam o contrato e querem continuar a trabalhar e lhes é negada essa possibilidade e depois abrem concurso para esse mesmo lugar para lá porem outra pessoa(muitas vezes do interesse de quem manda)..e ainda por cima tem a lata de dizer que nao se importam com a pessoa que vai perder o emprego…isso revolta

  2. joão says:

    Não podiam pôr uma fotografia mais lisonjeadora do cronista? No caso, acho que “rouba” algo do que se transmite, para quem chega ao fim do texto…

  3. Sónia Pires de Lima Rodrigues says:

    A desvalorização de uma vida, o roubar de toda uma história pessoal, uma identidade perdida: perder o trabalho (mais ainda – pasme-se – que perder o salário), faz de nós párias de um dia para o outro. Como está tão bem explicada aqui neste texto!
    E, depois, essa dicotomia do “nosso” desempregado “coitadinho” versus o “outro” que não quer trabalhar porque é um vagabundo: análise lúcida daquilo em que nos transformámos.
    Shame on us.

  4. Pedro Matos says:

    Muito bom, parabens pela analise lucida e corajosa que fez ao fenomeno do desemprego…e podia juntar uma outra componente neste pais a dictonomia regional…assim eu venho do sul e estou desempregado, segundo a minha tia que é do Porto é porque eu sou mouro e não gosto de trabalhar, ao contrario da malta do norte…enfim é só mais um ponto de vista falicioso…

  5. O sadomasoquismo explicito do Centro de Emprego, faz “martelar” na cabeça do prego que já está dentro, que há muito não se mexe!, este “desemprego” tocou no fundo. A compulsividade deste bater já é chover no molhado, a esperança dum pingo achado ser diferente, e logo conseguirmos o emprego possível…, só que, é certo como achar a agulha no palheiro, encontra-o, aquele que se “picar” (no “emprego”).
    Mas este fenómeno (desemprego) é sintoma da neurose social vivida nas famílias neste momento, visto como “meu/nosso” problema, é inconsciente por agora, e sem querer, para muitos de nós (desempregados). Nem sequer temos forças para atirar pedras ao sistema politico e sua desgovernação acelerada, parecendo que este prego vira o bico, aos poucos, e em massa, este sistema é ferido de “morte”, dá-se a emergência social neste País, e o POVO, é quem tem o remédio santo, penso! Abraços. Djarama. Filomeno Pina.

  6. Amélia Cristina Reis says:

    Genial,Professor. Obrigada por nos lembrar que não podemos escolher entre ser mendigo ou ser burguês privilegiado porque o diabo já veio e já escolheu.

    Cumprimentos
    Amélia

  7. otilia says:

    Carissimo João
    como habitualmente, achei fabulosa a tia escrita em seu modo lúcido, desassombrado e penetrante de denunciar o terrivel mal social do desempregoque infleizmente, ao contrário de resolver-se se agrava como mais um ciclo infernal do ultracapitalismo caduco e por isso ainda mais violenta e cinicamente agressivo. Bem hajas pela tua voz desperta que sabe despertar consciencias, profunda e transparente.grande abraço amigo

  8. No final do curso pretende-se que o formando se encontre preparado para a procura ativa de emprego, desde a construção do CV e carta de apresentação, ao domínio das técnicas e atitude na fase de entrevista. Desta forma, os objectivos gerais do curso são: (i) aprender a fazer um CV adequado à função a que se candidata; (ii) utilizar linguagem adequada na elaboração da carta de apresentação e (iii) compreensão dos fatores de sucesso numa situação de entrevista de emprego.

    • Manuel Pires says:

      Tudo o que é ineficiente, como por exemplo as pessoas reformadas, tem que ser banido. É assim que os liberais pensam.

      Como todos podem saber, a máquina é uma concepção engenhosa da mente humana para reduzir o esforço e/ou o trabalho, com vista a libertar progressivamente o homem das tarefas árduas e demoradas Desse modo poder-se-ía incrementar os tempos livres e o lazer. Só que nas sociedades modernas, as máquinas tem servido, cada vez mais, para tornar o ser humano obsoleto face à produção de bens de consumo e dessa maneira conduzir os patrões a prescindir da massa trabalhadora. Se em termos empresariais, este desquite pode considerar-se correcto, pois ignorar o desenvolvimento tecnológico
      seria uma demonstração de falta de inteligência da pessoa enquanto patrão, o mesmo não se pode em termos sociais, pois a pessoa, enquanto político, ao corromper o objectivo primordial da máquina, faz uma demonstração de “non senso”, conducente a pôr-nos todos a ver navios e a apanhar papéis. O problema é tanto mais grave quando o poder político, em contra ciclo com esta realidade, aumenta a carga horária e a idade de acesso a reforma. O patronato sacode a água do capote, pensando que não têm que dar solução a um problema que não é deles, enquanto os políticos, insensíveis à necessidade de mudança, chutam a “bola” para o campo dos cidadãos, dizendo que os tempos são de crise, e como tal têm que se habituar aos sacrifícios, pois a alternativa é ainda pior. Mas que alternativa???
      Que futuro espera a nossa juventude?

      Citando Eduardo Lourenço: A maior crise dos tempos modernos, não é a do petróleo, mas sim a crise dos horizontes.
      Há que despertar consciências.

      Gostei do seu texto

  9. Luis, mas não Fernandes says:

    João, por favor não alteres o teor do teu comentário. Acho que, para quem o lê, transmite realmente aquilo que és na realidade.

  10. Ana Cristina MArtins says:

    Mais uma grande crónica, Luís Fernandes, a adensar um pensamento sobre problemas que quase se vão banalizando na nossa atmosfera social. Destaco a ideia da corrosão do tecido social pelas clivagens geradas, pelo acicatar de rivalidades entre empregados e desempregados e diferentes subgrupos dentro de cada uma daquelas classes, enfim, pela destruição da solidariedade no seu núcleo mais profundo – o coração dos indivíduos, os humores e afectos essenciais à criação de laços de cooperação.

  11. Uma coisa essencial na entrevista de emprego é a clareza de idéias, dê respostas claras as perguntas que lhe forem feitas, não exagere e nem tente enrolar o entrevistador, fique a vontade para expressar a sua real opinião. Dica importante: não tenha medo ou receio de falar dos próprios defeitos ( esconder seus defeitos é sinal de infantilidade e falta de auto-conhecimento ) fale sobre eles com naturalidade, demonstre confiança para assumi-los e diga como você lida com eles.

  12. A Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL) organiza um ciclo de Ateliers de Procura Ativa de Emprego. Os ateliers têm o propósito de apoiar a população lusófona, desempregada, na procura de emprego, através da sua formação ao nível das estratégias e recursos necessários à procura de um trabalho. O ciclo de ateliers compreende a pesquisa de oferta de emprego com o recurso a meios informáticos, a redação do CV e carta de motivação, e a preparação para a entrevista. Estes decorrerão nos dias 29, 30 e 31 de Outubro, no número 180, route de Longwy, com a possibilidade de escolha, por parte dos participantes, do horário para cada um dos dias de formação (das 10h00 às 12h30 ou das 14h00 às 16h30). A participação nos ateliers é gratuita. As inscrições decorrem até ao dia 24 de Outubro e devem ser feitas através do número 29 00 75 ou do e-mail Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar .

  13. Acontece que até à data nenhum dos principais sites e portais de emprego em Luxemburgo, se dedica a satisfazer de uma maneira eficaz, as necessidades linguísticas e culturais desta população estrangeira à cultura local.

Opinião

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