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Inês Campos, Helena Martos Ramírez, Matthieu Ehrlacher, Aleksandra Osowicz e Filipe Pereira (da esquerda para a direita). Foto: DR

17 Fev 2014, 17:18

Texto de

Opinião

Hale

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Plataforma das Artes. Guimarães.

Guimarães ainda se encontra sob o rescaldo da Capital Europeia da Cultura 2012 e esse efeito benigno faz-se sentir nalguma da sua actual programação cultural, como acontece com o GUIdance, Festival Internacional de Dança Contemporânea de Guimarães, ainda a decorrer no edifício Plataforma das Artes, um excelente espaço arquitectónico vimarense construído de raiz e consagrado à criatividade artística, que reúne várias valências dedicadas a diferentes áreas programáticas e disciplinares como artes plásticas, teatro, música, cinema, performance e dança contemporânea.

O GUIdance é uma plataforma artística que procura revelar novos talentos emergentes da dança contemporânea portuguesa e internacional, sendo por isso um espaço consagrado à criação cruzando por isso uma diversidade de propostas artísticas heterogéneas, tendo como foco principal da sua actividade a dança e a performance.

Hale, estreado em 2012, em Lisboa, tendo sido posteriormente apresentado nalgumas cidades portugueses, teve agora a sua estreia, no passado dia 13 de Fevereiro, em Guimarães, na Plataforma das Artes. Hale é um projecto internacional que resulta inicialmente duma residência artística envolvendo dançarinos nacionais e estrangeiros tendo a estreia absoluta deste espectáculo ocorrido em Julho de 2013, no Espaço Alcântara, em Lisboa. Trata-se dum interessante trabalho colectivo que procura explorar a linguagem corporal exposta a um intenso ritmo performático, em que o corpo de cada performer/dançarino desaparece literalmente da vista do espectador durante a representação, para dar lugar a um organismo artificial construído em moldes de plástico, no interior do qual os performers se encontram escondidos. Chega-se assim a uma situação, algo paradoxal, que impede que os protagonistas da representação colectiva sejam vistos em carne e osso pelo espectador, conseguindo este apenas visualizá-los e detectar a sua presença através das acções e dos movimentos sincronizados que são executados desde o interior desse organismo artificial onde cada um deles se encontra escondido. O colectivo de bailarinos performers que coreografou e integrou este espectáculo é composto por Inês Campos, Helena Martos Ramírez, Matthieu Ehrlacher, Filipe Pereira e Aleksandra Osowicz.

Hale pode ser descrito como uma performance para cinco bailarinos e 23 kg de plástico alimentados por potentes ventiladores mecânicos onde predomina uma enorme plasticidade, cor e movimento. O espectáculo desenrola-se dentro dum enorme dispositivo de plástico, espalhado pelo chão do palco, por onde os performers se vão lentamente introduzindo até desaparecerem no emaranhado opaco de estreitos corredores entubados de plástico que são continuamente insuflados e percorridos estoicamente por cada performer durante cerca de quarenta minutos. Os seus corpos são literalmente engolidos por uma enorme massa plastificada, que se vai adensando e alastrando pelo palco fora, deixando transparecer no seu trajecto algumas formas e tonalidades cromáticas que vão sendo expelidas pelo dispositivo, como se fossem gestos ou gritos mudos vindos do interior dum útero, provocando em nós uma sensação de mistério e estranheza.

Trata-se, sem dúvida, duma invulgar experiência performática de grande eficácia estética que recria de certa maneira o “corpo-sem-órgãos” de que falava Artaud, que aqui pode ser visto como a metáfora dum monumental animal anómalo disposto em acabar com a vida de todos os que nele ousaram entrar percorrendo perigosamente o seu delirante labirinto. Apesar de camuflados e irreconhecíveis ao nosso olhar, cada um desses corpos reage, vibra, contorce-se, rasteja, cai, levanta-se e dança desesperadamente até encontrar uma saída à outrance que lhe permita conquistar a sua libertação.

Hale é um espectáculo performático híbrido, que tanto tem de robusto (hale) como de volúvel e que procura sobretudo experimentar a linguagem táctil do corpo e da matéria em permanente deslocamento, como um poema animal vivo que respira, sofre e ama.

Opinião

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