30 Jun 2011, 10:46

Texto de

Opinião

Há sempre uma primeira vez

Eu e o Dinis vivemos como um só até aos nossos 20 anos. Este meu primeiro escrito é a melhor homenagem que posso fazer ao meu melhor amigo que continua jovem e louco nas memórias que retenho das vidas partilhadas na nossa cidade.

Convidado para fazer parte do painel de “opinadores” do Porto24 disse que sim de imediato, com a vontade de me dizer através da minha cidade e de exaltar a minha cidade através do que penso e sinto.

A minha relação com o Porto é um caso perdido. Não há racionalidade que explique essa relação; é tudo, ou quase tudo, território de emoção. Outros, como eu, sentirão esta cidade de forma tão absoluta; um deles, de certeza, é o Carlos Tê, um criador inigualável e eficaz captador, em poesia, do melhor e do pior que somos.

Regresso com frequência aos meus discos referenciais – “Por este rio acima” e “Mingos & Os Samurais”. O primeiro é o melhor álbum de sempre da música portuguesa, o segundo é o álbum da minha vida. Neste, Carlos Tê, um profundo conhecedor da cidade que amo, colocou na maravilhosa voz do Rui Veloso as emoções da minha geração. Tudo naquele álbum me diz respeito. Os poemas que o compõem são pedaços vívidos de uma existência partilhada, ao pormenor, pelos coetâneos dos loucos anos 60 da cidade do Porto.

Há dias, o “Mingos & Os Samurais” fez-me chorar outra vez. Fez-me recordar a morte do Dinis César de Castro. Morreu em combate nas matas da Guiné. Um herói medalhado que colocou nas mãos da Pátria aquilo que tinha de mais valioso – a sua vida.

Eu e o Dinis partilhámos em uníssono os bailes em Valbom, a emergência dos vários grupos rock que acompanhávamos fiéis, os medos atávicos das beldades do tempo, os beijos roubados em assomos de valentia.

Nos bailes, no panorama de “tampas” usual da época, éramos dos poucos que dançavam mais vezes porque como tínhamos as mãos cobertas de calos e bolhas pela prática do remo, afirmávamo-nos como serralheiros mecânicos, os ais Jesus dos “chiços de ateliê” que viam nos estudantes a sua fonte de perdição.

Eu e o Dinis vivemos como um só até aos nossos 20 anos. Este meu primeiro escrito é a melhor homenagem que posso fazer ao meu melhor amigo que continua jovem e louco nas memórias que retenho das vidas partilhadas na nossa cidade.

  1. Campos de Barros says:

    Antes de mais as mais sinceras felicitações pela iniciativa,que permitirá dar a conhecer um Porto por vezes ainda pouco conhecido, cidade onde estudei e que se encontra profundamente ligado a muitos anos de dirigismo desportivo,o que,por coincidência,me proporcionou conhecer o autor do primeiro artigo,pessoa de grande valor intelectal,já com valiosas contribuições à comunidade.Bem haja,pois.

  2. Ramiro Rolim says:

    Espero que a tua prosa, tal como esta primeira, sejam hinos ao Porto e aos portuenses. Espero conhecer, pela tua pena, as tuas muitas histórias de vida e de cidadão do Porto. Anseio que a tua janela arejada e debruçada sobre o DOURO e zonas ribeirinhas sejam uma fonte de inspiração e de contemplação duma realidade complexa e tão difícil como no passado, apesar de diferente.
    Enfim, espero que sejas o Manoel de Oliveira da prosa, da narração de episódios desconhecidos e significativos sobre esta invicta cidade nas suas 24 horas, em que o desporto, certamente, são parte significativa da tua trajectória de sofrimento e de crescimento humano.
    Abraço

  3. Ricardo Fernandes says:

    As vozes que promovam e dignifiquem o Porto (cidade e região) nunca serão demais. As do Prof. Zé Augusto, mesmo reportando-se a factos passados há décadas atrás, tocam-nos pela actualidade que ainda transmitem. Ficamos à espera de mais, Prof.!

  4. José Luís Rego says:

    É um privilegio partilhar contigo as tuas histórias, que concerteza nos irás contar lá do teu MIRA DOURO, as tuas criticas ao quotidiano portuense, que te corre pelas veias da vida…Aquele abtraço

  5. É muito bom poder partilhar as histórias da nossa, “tão maltratada” Cidade, e por Homens que a sentem, como tu, meu companheiro e amigo. Um abraço

    • João Alves says:

      Conheço-o…sem que me conheça. Guardo a imagem dos saltos do basket. Saltos e mais saltos que o elevaram aquilo que é hoje. Vi-o…sem que ele me visse no fcdef, onde me manti ligado ao basket. Sempre defendi que o desporto faz exemplos de vida. Não fui à guerra mas o “meu sangue” andou por lá. Sei alguma coisa do Porto, sei alguma coisa da guerra…. Mas há muito mais para saber. Fico à espera. Abraço!

  6. Paula Batista says:

    Professor,
    não sou portuense, contudo a sua eloquência no discurso faz-me reviver o que não vivi, mas que poderia ter vivido por tão real que soa.
    Fico à espera de mais.
    beijinho

Opinião

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