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18 Ago 2015, 14:10

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Formar médicos hoje e amanhã – um desafio para as escolas médicas

Estará em discussão o modelo de ensino? Talvez. Mas não esquecendo que “fazer” médicos é também formar pessoas, docentes e investigadores.

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Será lugar-comum chamar aos dias de hoje tempos difíceis. De igual modo abusar do lema das oportunidades. Os tempos que vivemos são antes de mais desafiantes, e serão inevitavelmente de grandes conflitos.

As Escolas Médicas vivem no momento tempos conturbados, porventura em pouco ou em nada diferentes das outras instituições de serviço público. As ameaças serão contudo e obrigatoriamente diferenciáveis.

Na base da pirâmide, na linguagem mais terrena, surge o problema da sustentabilidade. Tenhamos em conta a especificidade da missão, o impacto social e a memória que nos orgulha – até hoje temos formado bons médicos!

O dinheiro que vem do erário público já não chega para ressarcir os recursos humanos que foram, no passado, assumidos como necessários. Estarão estes recursos sobredimensionados, a exemplo de tantas instituições públicas? Estaremos nós, docentes do ensino superior médico, a dar o melhor de nós?

Não me atrevo a recomendar, num mundo cada vez mais materialista, em que a referência maior passou a ser o poder do dinheiro, que se renegue o direito a ser bem recompensado.

Já não me revejo a exigir oportunidades para acumular empregos e a tentar conciliar o emprego público com o emprego privado. Isso, reconheço, estará ao alcance de alguns superdotados, que se conseguem dedicar a tempo inteiro a duas ou mais partes. O ensino da medicina só se entende, no ciclo clínico, em articulação privilegiada com o exercício da profissão e, quando muito, e em tempo inteiro e exclusivo, com a investigação.

Estará em discussão o modelo de ensino? Talvez. Mas não esquecendo que “fazer” médicos é também formar pessoas, docentes e investigadores.
O exercício da medicina hoje não exige só a aquisição de conhecimento científico, mas também de outras competências que assegurarão o referido impacto social e o papel determinante do médico na comunidade. O médico de hoje tem de saber prevenir, diagnosticar e tratar, mas também investigar e inovar, bem como estar preparado para a aquisição contínua de conhecimento, para ensinar e para saber lidar com as pessoas, no respeito integral pela autonomia, pelo direito à informação fidedigna, pela dignidade do ser humano.

Avizinha-se, estando projetada para 2017, a extinção do dito Ano Comum, antigo Internato Geral ou Policlínica. Quiçá, mais do que ameaça, será a oportunidade para focar os decisores na formação prática no 6.º ano do mestrado integrado a que, convenhamos, não temos dado o relevo necessário. Até por aqui é imprescindível o concurso das instituições de saúde, hospitais e unidades de saúde familiar e de saúde pública.

Definitivamente as políticas de educação médica terão de ser concertadas com as políticas de saúde. De uma vez por todas, os responsáveis das tutelas respetivas terão de se encontrar e não há memória de que tal tenha acontecido até hoje. Finalmente, haverá oportunidade para formalmente partilharem recursos e reconhecerem a importância da reciprocidade nos benefícios.

A missão principal das Escolas Médicas será sempre formar médicos. Os médicos terão sempre a obrigação de vir a ser formadores. O Estado terá de garantir estes compromissos com a sociedade.

Nuno MontenegroNuno Montenegro é subdiretor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e escreveu este artigo de opinião a convite do Porto24.

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