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Foto: Arq/Carlos Romão

10 Fev 2014, 14:35

Texto de

Opinião

Fome de criar bicho

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“Se as suas palavras me dessem dinheiro…” (morador de um bairro social do Porto)

Imagem de perfil de Simão Mata

Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

O meu trabalho de psicólogo com pessoas em situação de elevada vulnerabilidade socioeconómica na cidade do Porto, histórias atravessadas pela marginalidade e a exclusão social, tem sido importante para a tomada de consciência sobre as limitações técnicas dos interventores sociais em alturas de crise económica. Tais problemas dessas populações em sofrimento social requerem urgentemente uma preocupação social e política sob pena de cairmos, se é que não caímos já, numa democracia fantoche.

Não me parece nada de bom princípio em pleno século XXI, num Estado de Direito, com uma Constituição da República (com que alguns querem acabar por considerarem um pântano de direitos e regalias), negarmos, por imperativos de ordem exclusivamente tecnocrática e financeira, a um individuo pobre e sem recursos económicos e, portanto, sem autonomia, um rendimento social que lhe atribuiria o mínimo de dignidade humana. E, muitas vezes, os sujeitos que sofrem as consequências deste recuo desenfreado do Estado Social, são aqueles que apresentam, no contexto da consulta psicológica, um padrão afetivo de grande debilidade, marcado muitas vezes por depressões e outras complicações psicológicas.

Chegam-me ao Gabinete de Consulta as vozes que ninguém ouve. São as palavras daqueles que o Neoliberalismo considera descartáveis e marginais. E naquelas vozes paira todo um sentimento de revolta, uma mistura de raiva e angústia quando falam de si e da vida. Muitas vezes, quando a consciência está mais apurada, apresentam um quadro que denota uma “Consciência da Não-existência” ou um “Padecimento da Invisibilidade”. É frequente surgir também um manancial discursivo assente num inconsciente comum em torno da desculpa pela sua própria existência. Se não são subsidiários do rendimento de miséria proveniente do Estado, são subsidiários da sua própria miséria tendo que fazer de tudo durante o seu quotidiano para comer e subsistir, pedindo esmolas, arrumando carros, olhando por obras nas horas mortas, limpando os vidros das montras das lojas. Outros roubam. Como me disse uma vez um morador de um bairro social do Porto: “Tenho 40 e tal anos e cerca de 20 foram na cadeia; em minha casa não havia dinheiro que chegasse”. E lanço a questão proveniente das vozes que ouço no Gabinete de Consulta: por que estão as cadeias portuguesas cheias de indivíduos sem capacidade económica enquanto grandes políticos e banqueiros corruptos, geradores da situação de crise em que estamos, ainda fazem parte da governação dos países e do mundo? Que justiça cega é esta que atira a matar para os pobres e não faz sequer mira aos mais ricos e poderosos?

Era urgente que as agências de rating, essas constituídas por pessoas que ninguém sabe quem são, os governos dos países, os banqueiros, descessem aos territórios da pobreza e vissem com seus próprios olhos a realidade diária daqueles que passam fome de criar bicho. E essa fome não é só de comida, é também uma fome de esperança e de consolação da alma. E se não passam mais fome é porque a sociedade civil ainda não lhes virou as costas completamente como este Estado parece ter feito. “Eles governam para meia dúzia” dizia-me uma pessoa durante uma sessão de psicologia. “Crianças que vão para a escola com fome, já viu Dr.?” e as pálpebras fecham-se interrompendo o discurso para que não rolem as lágrimas naquelas faces cansadas.

Alguns aparecem no Gabinete dizendo-me que queriam comprar uns sapatos, que lhes doem os pés de tanto andar e que os que possuem os magoam; outros esperam ansiosamente pela boa vontade dos técnicos vivendo na paciente esperança de que estes lhes tragam alguma roupa que tenham em excesso lá em casa. Outros dizem-me que também gostavam de sentir um bocado de respeito e dignidade e comprar uma peça de roupa, provavelmente oferecê-la a algum ente querido, ainda que barata, mas não podem porque a fome lhes aperta muitas vezes o estômago enquanto dizem isto. Muitas vezes, durante a minha escuta dos quotidianos da pobreza, não tenho palavras para tais vidas, sentindo vergonha por pertencer a um país, a uma Europa, a um mundo, onde a valorização artificial de uns é a miséria desenfreada de outros. Mas aqueles que ouço no gabinete de consulta rapidamente me poupam as palavras que lhes embalsamariam a alma por umas horas ou dias e me dizem certeiramente: “se as suas palavras me dessem dinheiro…”

Este artigo de opinião foi enviado para o Porto24 pelo psicólogo Simão Mata, que escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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