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Foto: Marisa Oliveira

2 Dez 2015, 12:51

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Opinião

Flores, duas cidades e muita coragem

E, se temos que viver, se somos nós os sobreviventes, tomemos um copo com os amigos, ofertemos flores ao mar, como fazemos na virada de ano nas praias do Brasil para saudar os novos tempos e pedir proteção.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Pego da pena para falar da minha cidade, afinal é “noite de estreia”. Tento arrastá-la em movimentos contínuos e ela, teimosa, empanca na cidade de Palinhos*, doce, trágica, nostálgica.

Busco com ela, a pena, um acordo. Seguimos em frente, então? Seguimos. E, assim acordadas, deitamos o olhar na romaria das flores e das velas a preencher o vazio de nós, humanidade, que sobrevivemos. E não sei bem se mais a pena do que eu entende que as flores para os mortos, de fato, são sempre um tributo aos que sobrevivem. Porque viver é um ato de coragem – abrir os olhos, dobrar cada esquina, disputar um pedaço de mundo, rastrear o que nos faz feliz, cruzar oceanos.

Das pontes, dos homens, dos ângulos e das curvas são feitas as cidades. Das esperanças e de coragens. Pois é preciso muita coragem para ver todas as esperanças se transformarem em lama e arrastarem com elas os homens, os peixes, as casas, as pontes, os amigos. É preciso muita coragem para ver Mariana** ser arrastada lá das Minas Gerais, tão Rio Doce, tão mineira, tão histórica, e virar mar pelas mãos da insanidade e da ambição dos homens. Um mar barrento, sem vida.

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Foto: Marisa Oliveira

Tento seguir pelos oceanos em busca de outras esperanças. Caprichosa, a pena me interrompe para falar das flores, afinal. Insiste em explicar, ao menos em duas palavras, que flores, há milênios, simbolizam a vitória da vida sobre a morte, que o espírito dos homens vencerá a transição entre a vida e a morte. Se ofertadas em coroas, simbolizam o infinito, digo eu, pois, a infinitude.

Assim acordadas, nos separamos. A pena e eu. De novo livre, navegando nas águas doloridas do rio Doce e aportando na dor doída da cidade de Palinhos, reconheço que não podemos desfazer o que está feito. Mas reconheço, uma vez mais, que viver exige coragem. E, se temos que viver, se somos nós os sobreviventes, tomemos um copo com os amigos, ofertemos flores ao mar, como fazemos na virada de ano nas praias do Brasil para saudar os novos tempos e pedir proteção.

 

*Palinhos, Jorge. Uma cidade. Bairro dos Livros, Porto 24, 27/11/2015.

** Em 05/11/2015, 62 milhões de metros cúbicos de lama aniquilaram o distrito de Bento Rodrigues na cidade de Mariana, Minas Gerais. Duas barragens no complexo de Alegria, da mineradora Samarco, se romperam.

 

Marisa Oliveira tem paixão pelo mar, por belos filmes, por viajar. E por ter bons amigos.  Adora ler e escrever e contar estórias. Adora a língua portuguesa. Redonda e macia. Jornalista, colabora em periódicos. Escritora, é autora do romance infanto-juvenil “Guga-Niquim, o menino-homem-onça” e dos contos reunidos no livro “Goiabada Cascão”. Outros contos seus foram publicados em obras coletivas. Brasileira, é carioca da gema.  MO_Bairro dos Livros- Ler é voar_P24-4

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