23 Mai 2011, 16:36

Texto de

Opinião

Noite e dia

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Urge entender o Porto e ser realista. Se continuarmos com esta política de preços altos, o processo de reabilitação vai demorar uma eternidade.

Sofia de Eça: ''Pretérito imperfeito series''

Ilustração de Sofia de Eça

Fala-se, e bem, de “baixa animada, cidade divertida”, vêem-se outdoors espalhados pela cidade a divulgar o feito, sem dúvida importante para a cidade do Porto. No entanto, eu gostaria também de ver anunciado algo do género: “baixa habitada, cidade vivida”.

Ainda estamos longe dessa realidade. A reabilitação nocturna da baixa foi e é importante para atrair novos interesses e pessoas, que começam a ponderar morar no centro, ou mesmo começar o seu próprio negócio, mas a vida diurna da cidade é a outra face da moeda para uma reabilitação plena e sustentável.

Quando começámos o nosso projecto (Plano B), apostámos numa zona comercial, com uma taxa de ocupação baixa, praticamente sem vizinhos, e com rendas acessíveis. Estas condições permitiram que o nosso e outros projectos pudessem fazer um investimento com menor risco financeiro.

Actualmente, os valores praticados a nível de renda ou venda de imóveis destinados a comércio na zona dos Clérigos são extremamente elevados. Apesar de considerar que essa inflação dos preços é excessiva, o que sobressai são os elevados preços dos edifícios para habitação.

Se compararmos a dinâmica nocturna da cidade com a situação diurna, rapidamente percebemos que são claramente distintas. Se a “noite” do Porto está bem de saúde e recomenda-se, de dia a cidade continua a definhar, a perder habitantes e comércio.

Um dos problemas é a especulação imobiliária e falta de senso de alguns grandes proprietários. Se a cidade passou por uma fase de transformação e valorização nocturna, foi devido às boas condições de investimento que existiram, permitindo o aparecimento de inúmeros negócios e projectos.

Infelizmente, os promotores imobiliários olham para a cidade com uma visão tipificada do género “Agora é que isto está bom! Vale muito dinheiro” e não conseguem distinguir a diferença entre noite e dia, levando à sobrevalorização dos imóveis e afastando eventuais investidores na área da habitação.

A cidade tem milhares de imóveis para venda e outros tantos abandonados. É lamentável haver em muitos casos pouco discernimento e bom senso ou falta de vontade para perceber as diferentes realidades. Urge entender o Porto e ser realista. Se continuarmos com esta política de preços altos, o processo de reabilitação vai demorar uma eternidade.

Se olharmos para Berlim, um dos factores fundamentais para a sua rápida recuperação urbana, social e cultural, foram os preços baixos e acessíveis a toda a população após a queda do muro de Berlim, principalmente na zona de leste. Qualquer pessoa podia abrir a sua própria galeria, restaurante, loja, etc..

Há que regularizar os preços. E porque não criar um imposto ou taxa especial para imóveis abandonados há mais de um ano, como acontece em qualquer país da Europa? Ou, após 5 anos de abandono, o usufruto desses edifícios passar o domínio público ou municipal? São apenas algumas ideias soltas – e, com certeza, muitas mais poderiam ser estudadas.

Cidades como Vila Nova de Gaia, Maia ou Matosinhos continuam a crescer, em detrimento do Porto. Muitas vezes em contexto de crise surgem novas oportunidades. Proprietários e investidores podem aproveitar este momento para criar novos negócios e contribuir para uma reabilitação urbana mais rápida e sustentável.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.