12 Abr 2012, 20:55

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Opinião

Filinto Melo: Golpe de sala de estar

Torna-se quase uma impossibilidade isso de haver um golpe de estado em Portugal (a não ser que seja idêntico ao que aconteceu na Grécia e na Itália).

Há uma semana participei num golpe de estado, curiosamente na véspera do aniversário da morte de Salgueiro Maia.

Foi uma galhofa de gente desocupada, no Twitter, que me despertou o sono desde que vi, pelas 23h, uma pergunta de uma conceituada jornalista espanhola a Pilar del Rio (viúva de José Saramago) sobre se havia algo de diferente – o “El País” teria dado informações de um agrupar dos correspondentes estrangeiros.

Logo de seguida, outro tweet adensa o mistério, o hoax. Nenhum dos portugueses reclamava movimentações de tropas ou noticiava coronéis a saírem para tomar café montados nas suas chaimites, enquanto, do lado dos espanhóis, as preocupações avolumam-se. Em 2 minutos, depois de percorrer Google, Twitter, Facebook e as televisões percebi que nada se passava e confirmei que o golpe de estado “vinha” de Espanha. Mal penso isto, no segundo em que o penso, surge o primeiro tweet mordaz com a situação, de um comunista de Leça, o primeiro tweet com a hashtag #prayforportugal e uma imagem que prova, pela fraca técnica de Photoshop, ser falsa.

Imaginei, e twittei, logo vários cenários, desde a independência da Madeira à recordação da fuga do rei em 1808 e quando já reinavam as piadas a brincar com os espanhóis – e inadvertidamente com os repórteres portugueses que, incapazes de perceber sarcasmo e ironia, posteriormente foram ao Twitter tentar explicar o que se tinha passado…

Eu diverti-me imenso com o golpe de estado, talvez irresponsavelmente dando razão a alguns se queixavam da loucura que teria sido aquilo. Meio a brincar, recordei que o verdadeiro golpe aconteceu em Itália e Grécia, cujos governos não foram dos eleitos pelo povo…

É claro que isto se passou na segunda-feira e não havia futebol. Se houvesse futebol, e um penálti roubado, de certeza que o vírus do #prayforportugal não se tinha alastrado como se alastrou, se calhar não tínhamos sido irresponsáveis. Se calhar, tinha adormecido mais cedo. Embora o país esteja a caminhar para o precipício – com estas taxas de desemprego, a gasolina, a dívida, a Constituição rasgada – o mais importante é (dizem os estudos) quando um comentador festeja um golo de uma equipa e é apanhado, aí sim, está o caldo entornado.

Eu diverti-me com a ideia-falsa de um golpe de estado em Portugal porque sei que eu, e muitos como eu, deixariam as redes sociais e sairíamos para a rua para defender a democracia, a liberdade e os nossos direitos, e sabendo-o, torna-se quase uma impossibilidade isso de haver um golpe de estado em Portugal (a não ser que seja idêntico ao que aconteceu na Grécia e na Itália). E tenho também a certeza que nesse dia, no dia em que houvesse o despautério de se fazer um golpe de estado em Portugal, haveria nas redes, nas casas, nos cafés, nas televisões e nos jornais quem preferisse discutir se o árbitro foi o culpado na derrota da sua equipa (até porque é óbvio que foi, é sempre).

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