3 Mai 2012, 10:18

Texto de

Opinião

FC do Porto, uma empresa de sucesso

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Quero esquecer a realidade e fruir mais um título de campeão nacional. Quero esquecer que o meu clube já não existe e é hoje gerido como uma empresa de notável sucesso.

FC Porto

Foto: João Castro

Hoje, a imensa minoria desportiva de que faço parte – a nação portista – está em festa pela celebração de mais um título de campeão nacional. Uma premente questão demográfica me atormenta. Quantos portistas seremos?

Segundo os censos da segunda circular da capital, vermelhos e verdes, num universo de 10 milhões de portugueses, serão 6 e 4 milhões, respetivamente, o que deixa em aberto a hipótese de não existirem portistas. É isso, não existimos, somos fantasmas que preenchem de pesadelo os sonhos de benfiquistas e sportinguistas.

Nasci e cresci subordinado à tríade que marcava a noosfera lusa – Fátima, Fado e Futebol, referências seguras que batiam certeiras com o afã moralizador do Estado Novo. Os primeiros anos da minha vida decorreram num saudável e fiel proselitismo a essa tríade que me preenchiam em absoluto os anseios de dogma e diversão. Quando somos pequenos queremos certezas inquestionáveis que nos guiem no mar revolto dos pesadelos do crescimento. As angústias da dúvida e incerteza teriam tempo para medrar.

Fátima, chegou-me nas liturgias psitacistas das novenas de Maio e das rezas amedrontadas das mulheres da família.

O Fado, embalou-me o berço e as brincadeiras iniciais em gorjeios maternais que completavam os sons dos meus dias.

O Futebol, descobri-o, antes do mais, através do meu corpo, exercitado em motricidades várias que iam incluindo o desporto como referência cultural. Aventura de descoberta com os companheiros do meu crescimento, felizes coetâneos que acreditavam que a felicidade humana radicava num pouco de borracha saltitante que nos fugia insubmissa. Ninguém é verdadeiramente infeliz até ter consciência da felicidade. Por isso aqueles momentos foram os tijolos estruturantes de todas as infelicidades futuras, inclusive no futebol.

A minha adesão ao FC do Porto, antes de emocional, foi essencialmente artística, digamos melhor, cromática. Fiquei de imediato rendido àquela conjugação longilínea de azul e branco quando pela primeira tive contacto com a nação portista, quando fui ver um jogo às Antas (não me lembro qual) pela mão de um vizinho, adeleiro na rua Formosa, onde vivia. Aquela impressão cromática ficou-me na retina e cobriu com um manto etéreo de fantasia os sonhos da criança que eu era na altura.

Aquela fantasia de cores marcou uma opção que só começou a ter consistência humana com o título de campeão nacional em 1955-56. A minha galeria de heróis foi enriquecida com os nomes que perduram incólumes na minha memória: Pinho, Virgílio, Miguel Arcanjo, Cambalacho, Pedroto, Monteiro da Costa, Gastão, Hernâni, Jaburu, Teixeira e Perdigão.

Desde essa época colecionava os cromos dos jogadores do FC do Porto com o fervor místico dos iniciados religiosos na procura das pagelas dos santos das suas devoções. A devoção religiosa ao FC do Porto pedia meças ao culto cristão, com a vantagem de não me obrigar, todas as noites, a suportar a cantilena fastidiosa dos terços vespertinos. Tenho de reconhecer que o incréu em que me tornei teve a meninice controlada por 2 religiões exclusivistas – a católica, apostólica, romana e o FC do Porto.

O FC do Porto deu-me acesso a um mundo privilegiado repleto de sonho e fantasia. Ainda hoje, já grandinho, interessa-me menos a expressão física da realidade e mais a dimensão de sonho que esta comporta. E nesse mundo etéreo perdura o FC do Porto da minha infância, repleto de mitos e símbolos que tinham a força da transcendência. Só os mitos têm existência real pois são eles que catalisam os desejos de elevação espiritual da humanidade. Um grupo humano sem mitos pouco se diferencia dos grupos de primatas das selvas tropicais.

A superioridade humana deriva da sua capacidade de sonho e evasão. Hoje, o sonho foi substituído pelas premências do mercado, embora no recôndito da alma permanece um núcleo de ilusão e fantasia que me faz celebrar em festa cada êxito do meu clube.

Por isso, hoje, quero esquecer a realidade e fruir mais um título de campeão nacional. Quero esquecer que o meu clube já não existe e é hoje gerido como uma empresa de notável sucesso, somando êxitos atrás de êxitos sob o comando competentíssimo de Pinto da Costa que já não é o presidente mas sim um notável CEO ou chairman que, na selva comercial e financeira em que se tornou o futebol, esgrime as armas da competência diretiva e colhe os louros dessa atividade económica que se chama futebol, que ainda tem alguns resquícios de desporto como pano de fundo.

No futebol hodierno já não há lugar para românticos. Com certeza nunca houve e somente os meus anseios juvenis de fantasia criaram memórias perfeitas de um mundo já tocado pela imperfeição. Talvez por ser criança, os êxitos desportivos de 1955/56 e 1958/59 ficaram emoldurados em imaginação e irrealidade que são o cimento dos mitos. Por receio de crescer fiquei lá atrás, naquele tempo de sortilégio em que aos heróis do “Mundo de Aventuras” e “Cavaleiro Andante” se juntaram os gloriosos campeões portistas dos anos 50.

O futebol português, a partir dos anos 40 do século XX, foi uma realidade social tocada pela lógica da globalização que lhe fez aportar, com naturalidade, estrangeiros de todas as latitudes. No entanto, para mim, o Jaburu era tão português como o Pedroto. Naquele tempo, os meus heróis eram genuinamente portugueses, até porque o Império era bem largo e o Brasil um filho pródigo que um dia regressaria a casa.

Hoje, os deuses morreram ou partiram para parte incerta. Uns preconizam o fim da história, eu prevejo o fim dos mitos, não da história. Ficaremos mais pobres reduzidos à nossa pequenez de seres reais, sem escapes de sonho e irrealidade. Terrível preço a pagar para atingir a suprema lucidez racional.

Mas eu quero-me de novo criança e sofrer e vibrar pelo clube dos meus afetos. Pacifiquei o meu desejo de dogma, depurei o meu gosto pelo fado, mas continuo irredutível a fruir as exaltações carreadas pelas camisolas azuis e brancas, sejam estas pertença do clube da minha infância ou da empresa que o substituiu.

Hoje, para mim, o FC do Porto já não é uma religião mas simplesmente uma opção estética. Quem gosta do belo tem que ser inexoravelmente portista.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Júlia Guimarães says:

    Um texto bonito. Um texto belo e fantasticamente bem escrito por um Portista que nem sequer conhecia. Revi-me nele imensas vezes, arrepiou-me outras tantas e… vou guardá-lo no meu baú de pérolas. Obrigada ao autor.

Opinião

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