11 Mai 2012, 16:33

Texto de

Opinião

Falhar é o acto mais romântico de todos…

,

Haverá neste universo muito mais vencidos que vencedores.

Num entendimento global da sociedade actual, é uma incúria pensar no falhanço como algo abjecto ou inepto. O fracasso é largamente obliterado e por evitamento serve como defesa do “eu”. O que proponho é olhar para ele noutro prisma.

Na nossa sociedade, assim como em outras, o sucesso deixa de ser uma meta para ser um caminho ditatorial, invariavelmente impossível devido à característica cada vez mais competitiva das mesmas.

Numa competição são em maior número os que experienciam o fracasso do que os que experienciam a vitória, logo haverá neste universo muito mais vencidos que vencedores.

Também seria importante saber em algumas competições ou neste estilo de vida o que de facto é logrado por estes vencedores, mas imagino que será mais ego e auto-estima vitais, semeadas com dinheiro, claro.

Pela probabilidade de ser maior o fracasso que o sucesso, a frustração em resposta a este acontecimento toma proporções virais que se estendem a uma depressão como a epidemia do século XXI.

O sucesso é portanto o único caminho de ser feliz e vende-se a todo o momento, como figurativo de confiança ou possibilidade individual de ascender a ele. A todo o momento vemos esta imagem, mas não passará de uma miragem. A sociedade não contempla mas condena quem falha. Quem falha não é pago. O falhanço é algo repressivo e repulsivo que acarreta a vergonha.

Mas o falhanço pode ser uma conquista e eu lutei muito para falhar e poder desenvolver esta pequena teoria.

Poder falhar é uma liberdade que chega a ser luxo. Saber aceitar o falhanço é de uma maturidade enorme. Contemplar o falhanço é ser auto e heterocrítico.

Falhar é o acto mais romântico de todos…

É dentro dos falhanços que encontramos a fé, o sonho, a intuição, a força e a paixão.

Procuramos sempre medidas para termos uma visão própria. Quanto vale?

Quanto custa? Quanto ganhas com isso? Quanto tempo demorou a fazer? Somos quantitativos, mas a quantidade valorativa o que é?

Em analogia, em várias artes marciais como o karaté ou kung-fu, a dor é optimizada com um controlo do corpo e mente. No combat-ki, técnica especial fundada nos anos 60, o executante permite-se a aceitar um ou mais golpes em áreas vitais como a garganta e/ou testículos sem sofrer danos.

Esta técnica permite ser imune a golpes que normalmente seriam implacáveis e permite ao utilizador continuar com o seu objectivo.

Não deve haver algo mais assustador do que um homem determinado a um fim sem sofrer alterações por golpes que lhe são infligidos.

Lógica e dedutivamente, podemos analisar os casos de sucesso. Não serão muitos deles um fenómeno de massificação, arquitectado com fins comerciais e financeiros? Das artes aos negócios, dos negócios à política, não será o sucesso algo dogmático e mediaticamente imposto? Uma manipulação e uma falsa escolha?

O fracasso é algo íntimo. Fazer algo em que se acredita ou se ame, nunca deve ser ditado por outros, tenha ou não valor. Daí ser essencial fazer algo intrinsecamente ao invés do sucesso – que é consequência externa.

Torna-se romântico pela sua impossibilidade e condenação inata e pode ser móbil de uma grande criação ou espiritualidade únicas. Saber falhar é saber cair, é uma aprendizagem contínua e genuína, é ganhar competências que só nos farão mais fortes, não para vencer o outro mas para alcançar uma auto-realização e uma maturidade emocional que nos garante uma competição interna e egocêntrica, uma vontade de melhorar. Uma construção sólida, por realizar e materializar as nossas aspirações, desprendidas do olhar crítico-destrutivo dos outros.

João Rodrigues, do Porto, é psicólogo da justiça e fotógrafo. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.