11 Mai 2011, 7:26

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Opinião

Exposições

E se os artistas, os galeristas, os conferencistas, os polemistas, os colunistas, os bloguistas, os "facebookistas", os desportistas - mesmo os políticos e outras categorias que enxameiam o espaço das aparições - fossem só o pretexto para a nossa exposição?

Exposições

Foto: Cindy Beau

As exposições são o contrário das imposições? Eis um exemplo raro em que prefixos antagónicos não designam antinomias. Na sociedade do espectáculo, na sociedade em que o espectáculo só é espectáculo se aceder à arena da comunicação social, a exposição não é aquilo que se expõe mas aquilo que se impôs. É na exacta medida em que se impôs que pode expor-se. Vingar, fazendo notar a sua cabeça no mar de cabeças que se pensam cabeças, é proporcional ao modo como se consegue perceber e manipular as regras desse sistema de imposição.

As pessoas sempre se expuseram na esperança de se imporem, é certo. Outras vezes expunham-se simplesmente para se salvarem – da sua invisibilidade, que não podia resgatar-se senão pela afirmação de si. Não dizer de si era, pois, inexistir. Ou, concedamos, existir mas no mesmo registo de quem não existe, portanto, no de alguém que não se vê.

Mas não é disso que falo agora, e sim daquilo que se tornou obsessivo no tempo de agora: existe-se através da exposição de si multiplicando-se a presença em acontecimentos e locais programados para o efeito. Corre-se a Serralves, vai-se à ARCO em Madrid, a um festival de cinema, à marcha global da marijuana, à performance do movimento contra as touradas, a um evento de moda, a um novo bar que promete a última tendência, porque se quer ver o exposto e, por via do pretexto do exposto, expor-se à vista, acedendo por essa comunhão dos que se vêem uns aos outros aos altos planaltos do acontecer.

Ser visto e, portanto, fazer sua também a exposição, assomando ao restrito número dos iniciados nas difíceis linguagens da arte, da moda, da mundanidade de elite. (Estranho problema: nas sociedades de massas tudo isto é massificado, produzindo o paradoxo de se ser elite ao mesmo tempo que se é massa.)

E se os artistas, os galeristas, os conferencistas, os polemistas, os colunistas, os bloguistas, os “facebookistas”, os desportistas – mesmo os políticos e outras categorias que enxameiam o espaço das aparições – fossem só o pretexto para a nossa exposição?

É necessário neste ponto sublinhar como os mass media superam hoje o espaço de televisões e jornais, pulverizando-se numa série de possibilidades que tornam o protagonismo mediático simultaneamente mais fácil e mais irrelevante. Os mass media adquirem assim na atualidade a sua aceção mais plena, a de veículos para mostrar algo de particular à massa anónima do geral.

Que é de alguém que não se mediatize, mesmo que seja apenas como devorador do que os outros expõem, expondo-se por essa via enquanto alguém que sabe, que está por dentro, que habita o epicentro mesmo da oficina que cozinha a última tendência? Ou é um liso de mente, ocupado com o mero quotidiano de quem não sabe como se voa, ou é um excêntrico isolado, desses que deram os grandes vultos artísticos ou filosóficos de antigamente. Terrível, essa vida de dantes. Como se chegava a ser admirado pela turba dos que devoram exposições, se não havia os meios mediáticos de hoje?

Numa sociedade que ainda não promovia a individualidade, o sujeito não era impelido a rebolar-se no seu narcisismo projetado na aparição. Um artesão era só um artesão, um artista podia ser simplesmente um pedreiro, um mestre existia sem ter feito mestrado. No às avessas de hoje, ó quantos artistas sem arte, quantos mestrados sem mestria! E todos a elaborar projetos, instalações, ideias para debates, altas cenas abrindo para coisa nenhuma, todos em exposição num banho de luz!

Enfim, com este estado de coisas precisarei tanto de me explicar quando opto pela vida apertada dos que ficam em casa de polainas como antigamente quando tinha de ir a uma exposição – nesse tempo de bárbaros em que a turma ir toda de autocarro à Gulbenkian não era ainda curriculum escolar, mas luxo para crianças que no intervalo da excursão comiam pão com chouriço.

Luís Fernandes escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

  1. Simão says:

    Boas Prof.

    É com admiração que li esta sua crónica mas não me constituiu novidade (na verdade, você já nos habituou a esse estilo de escrita, fluída mas mordaz na crítica aos Costumes).
    Concordo que a exteriorização do “eu” nas Sociedades Contemporâneas e a sua consequente “exposição” se traduz numa verdadeira “imposição”, imposição essa que transpira da Sociedade de Hiperconsumo que hoje vivemos, que massifica a vida Social do sujeito (que é cada vez mais objecto, alvo predileto das imposições que essa mesma Sociedade lhe incute).

    Obrigado pela crónica. Estarei atento às próximas!

    Um abraço,
    Simão

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