11 Mai 2011, 7:26

Texto de

Opinião

Expectativas

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É urgente pensar a cidade com todas as disciplinas fundamentais a trabalhar em conjunto, e não isoladamente.

Porto

"A cidade continua a perder significativamente habitantes"

Desde já agradeço ao Porto24 este convite.

Foi com um misto de receio e satisfação que aceitei colaborar com as minhas ideias sobre a cidade do Porto. Receio, porque falar da cidade do Porto com objectividade e lucidez, pareceu-me um desafio com alguns obstáculos. Satisfação, pois fiquei grato por poder expressar a minha opinião e perspectivas sobre os problemas e virtudes desta “Mui nobre e sempre leal” cidade.

Como primeiro artigo, entendi por começar com uma reflexão sobre minha relação com a cidade. Apesar de ter nascido no Porto, morei durante a minha infância na periferia, tendo começado a viver o burgo mais regular e intensamente aos 15 anos, altura em que frequentei a Esc. Sec. Aurélia de Sousa, seguindo-se os estudos na ESAP, em pleno centro histórico.

Das recordações enquanto criança, realçam-se as visitas que fazia semanalmente – quer com os meus avós, quer com a minha mãe – à baixa. Ficava sempre fascinado a olhar para as pessoas, edifícios, lojas, néones. Sentia qualquer coisa especial. Eram dos melhores momentos, pelos quais aguardava ansiosamente, com a expectativa de novos lugares e a promessa de novas experiências.

Quando iniciei os estudos do secundário “perdia” grande parte do dia em aventuras pela cidade, “descobrindo”ruínas, explorando casas e fábricas abandonadas, tentando perceber o que espoletou o estado da cidade de então. Já na Faculdade de Arquitectura, essa vivência acentuou-se de tal forma que, juntamente com os meus amigos, alugámos espaços que transformámos em ateliês de música, arquitectura, design, teatro, entre outras áreas.

Estivemos temporariamente pela Ribeira, Rua da Picaria, Rua das Flores, Largo dos Lóios e Rua de Trás. Tínhamos um fluxo constante de pessoas e projectos nas nossas vidas. Envolvíamo-nos frequentemente nos trabalhos dos nossos colegas de teatro, design ou música e, assim, começámos a ter um contacto realista e regular com outras disciplinas artísticas. Foi uma fase de livre experimentação, que promoveu a interdisciplinaridade e abertura de horizontes.

Naturalmente, comecei ter fortes expectativas para o Porto. Por cada rua que passava, por cada edifício abandonado pelo caminho, elaborava rapidamente uma ideia, um plano, e não percebia como é que ninguém tomava a iniciativa de fazer as coisas acontecer. Com o tempo, essa perspectiva, algo utópica, deu lugar a uma mais realista e, até, pragmática, sem que perdesse o lado sonhador.

Essas expectativas começaram a transformar-se em projectos. Alguns realizaram-se, outros, (ainda) não. Olho para trás e penso no que esperava da cidade por estes dias, o que sinto é uma mistura entre alegria e desilusão. Alegria, por ver o turismo crescer exponencialmente, pela igualmente crescente dinâmica cultural, nocturna e o interesse geral das pessoas pela baixa. Triste, porque a nossa cidade continua a perder significativamente habitantes, sendo vítima de escassas estratégias de recuperação e reabilitação urbana, de investimento económico, acentuando-se o declínio do comércio local e tradicional, gerando desemprego e descaracterizando a própria cidade.

Apesar de tudo, creio que é possível encontrar soluções para estes problemas. Passam sobretudo pelos agentes políticos, governamentais e económicos. É urgente pensar a cidade com todas as disciplinas fundamentais a trabalhar em conjunto, e não isoladamente. Refiro-me ao sector social, económico, empresarial, ensino, tecnologia, Indústria, cultura, turismo, urbanismo, entre outros.

Ao longo desta minha colaboração irei abordar e aprofundar os diferentes problemas aqui apresentados.

  1. Franck Araújo says:

    A amizade que me une ao Arq. Filipe Teixeira não me impede que faça um comentário completamente isento. Espero que ele me perdoe este atrevimento sincero.
    Os já longos minutos que tive o prazer de ouvir, com constante e rico fervilhar de ideias e “sonhos”, e seu passado (apesar da sua juventude) com responsabilidades pela “recuperação” da Baixa, e sua generosidade com que partilha o que vê e antevê, torna-o uma referência em colunas deste género.
    Serei um leitor atento.
    Parabéns Porto24

Opinião

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