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Foto: Arq/Miguel Oliveira

11 Fev 2014, 15:42

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Opinião

A estranha harmonia no jardim de São Lázaro

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LETRA & MÚSICA #003. Com um olho na sueca e outro na cueca, no jardim de São Lázaro joga-se ao amar por dinheiro e ao prazer sem amor.

Nunca me senti tão domado pela famosa expressão “mesmo nas tuas barbas”. Todos o vemos. Basta lá passar com olhos de ver para observar um monte de gente que passa o dia no jardim de São Lázaro, no Porto. É gente simples, idosos na sua maioria, em convívio diário entre si e com uma vintena de prostitutas. Ali e assim acontece há muito, muito tempo.

Sou dos que, quando olho, disfarço o mais possível. Não por vergonha ou voyeurismo encapotado, mas para que não se sintam julgados ou vistos como bizarras criaturas naqueles seus mais variados momentos de vida.

Nas primeiras vezes, ainda ponderei sobre a minha própria atitude, que mais me parecia próxima da necessidade de espreitar vidas alheias, género “big-casa-brother-dos-segredos”. Mas não: não vejo ali degredo ou uma série negra. Não vejo ali nenhum problema, a não ser os problemas pessoais de cada um e iguais em todo o lado: miséria humana nelas e pouca esperança de vida neles.

Além disso, não julgo e não condeno. Nem apoio, nem sou contra. Nem tenho a certeza do que imagino, pois nunca o vi de facto e o decoro impede-mo de questionar. E, convenhamos, um ou dois exemplos não são pretensão para um qualquer estudo sociológico relacionado com actos não provados, quanto mais vê-los como hábitos.

Apenas embasbaquei, uma tarde destas, no olhar brilhante de um homem com idade para ser meu avô, que fazia rir uma mulher com roupa a menos – tendo em conta a invernia –, ambos sentados num dos bancos do jardim. Aquele olhar não engana: ia pagar por ela. Ela também não o engana: vai cobrá-lo. Simples, não é?

Com um olho na sueca e outro na cueca, no jardim de São Lázaro joga-se ao amar por dinheiro e ao prazer sem amor.

Claro que podia inventar um floreado qualquer para mentes menos tolerantes e pegar num personagem ao lado (literalmente, estava um mesmo ao lado), daqueles que já só se deslocam com a ajuda da bengala, para dar uma imagem carinhosa do momento entre uma puta e um velho.

Mas não. Era mesmo um idoso com ar saudável e uma matrona avantajada nas curvas. Ele, sorridente e maroto, partiu atrás dela, em direcção a uma das muitas pensões naquela zona de Campanhã, mesmo em frente ao jardim com coreto sem música, mas com espaço e tempo para cartadas e cantadas mais ou menos veladas.

Do lado de fora, numa das esquinas – e ali não faltam esquinas –, outra mulher, bem mais jovem, olha para o chão. Tem ar rude e está vestida para o “ataque”. Quis acreditar na lógica de uma qualquer história relacionada com imigração ilegal africana, numa cidade refúgio de guerra, numa vida de discriminação ou perseguição que a tenha atirado para a rua… Tudo porque ali, naquela esquina do Porto, descansava a amargura que, de certeza, começou noutras terras e aqui continuou, afinal, sei lá por que razão.

Tivesse eu dinheiro de sobra e pagava-lhe uma hora para não ter que se despir. Uma hora para me resumir aquela sua vida e para eu tentar compreender por que raio prefere aquela esquina.

Ali, nas nossas barbas, está um palco de vidas simples, vidas que muita gentalha com responsabilidade considera quase inúteis. Há idas e vindas entre passeios, entre o jardim e as pensões. E quase não param carros para saber preços, como noutras áreas da prostituição de rua.

Ali, no jardim de São Lázaro, morreu a filarmonia no coreto. Já não há bandas dos bombeiros, da Polícia ou da GNR. Os ranchos folclóricos não têm dinheiro nem as pessoas têm ânimo para ensaios como antigamente.

Além de tudo, quem é que iria pagar músicos profissionais para encantar as tardes de velhos que jogam à sueca e de mulheres que jogam a vida?

Morreu a filarmonia, ficou a harmonia. Estranha, sim. Mas é harmonia.

Para inspiração: Neil Young – Old Man

 

Opinião

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