7 Mai 2013, 9:44

Texto de

Opinião

Esta palavra saudade…

, ,

Hoje, pertencemos à última das Europas. Como não ter saudades, do tempo em que a soberania do meu país estava em Lisboa e não em Bruxelas?

1.º de Maio nos Aliados

Foto: Arq/Miguel Oliveira

Sinto saudade, uma imensa saudade daqueles dias luminosos em que a euforia de ir à praia enchia os meus domingos. Não pela praia em si, mas pela possibilidade de assistir ao que para mim era um milagre da Natureza: a chegada das redes de pesca à praia de Espinho, arrastadas para o areal por várias juntas de bois, e, depois, o abrir das redes, com o peixe ainda a saltar.

O corolário de um domingo de praia, nesses tempos em que não se ia a lado nenhum a não ser à missa, era regressar a casa no “Vouguinha” (para lá ia-se a pé), de janela aberta, apesar das fagulhas, para ver “os pinheiros a andar”…

Saudosista, eu?

Sim. Saudavelmente. De resto, que pecado é ter saudade? Pecado é não poder “matar saudades”, regressando a esses dias claros, em que as redes de pesca eram redes de fartura, em que eu colhia os legumes na horta, que minha mãe tratava como um jardim, e ia comprar ao lavrador o leite de vaca acabada de mungir.

Sim, as saudades desse tempo, que era de pobreza, mas em que se podia explorar a terra e o mar para produzir riqueza, doem-me na carne viva, sem que possa matá-las. Porque Portugal caiu na armadilha de uma Europa supostamente distributiva e sem fronteiras, uma Europa dentro da Europa, com uma economia comum. Assim como um condomínio fechado, uma classe de sobredotados. E na miragem do dinheiro fácil, o país aceitou sem pestanejar as exigências mais vis dessa Europa de mãos largas, lambuzando-se com as primeiras tranches de fundos destinados à formação e ao combate à pobreza, vindo a responder por desvios e uso indevido. Seguiu-se o abate financiado de bovinos e outras rezes. Para que precisávamos nós de criar vacas se a Europa tinha toneladas de leite (o “elefante branco”) para nos vender?

O engodo foi o mesmo para a extinção de cêpas, nas vinhas e na agricultura, em geral, como para o abate da frota pesqueira e o fim do “mare nostrum”, sendo os pescadores pagos para ficarem em terra.

Tudo isto muito depressa, porque a Europa exigia celeridade e Portugal, país bem comportado, acelerava, pois queria integrar o “pelotão da frente”. Então, depois da destruição consentida e financiada de todo o seu aparelho produtivo, Portugal passou alegremente a fazer parte do mercado comum europeu. Onde passou abastecer-se, claro, pois
com toda a economia desmantelada o que é que o país tinha para fornecer?

De então para cá, foi sempre a empobrecer, porque quem consome e não produz, não tendo como pagar, endivida-se. Passámos a respirar a crédito, enquanto a Europa foi alargando as suas fronteiras, acolhendo outros países que caíram na mesma armadilha de uma Europa risonha que financia o empobrecimento e o endividamento dos estados membros, para
depois comprar essas dívidas em regime de verdadeira agiotagem. Enfim, uma Europa que não é para pobres.

E assim, de um momento para o outro, que é como quem diz, de uma década para outra, assistimos à falência do Estado social e da Europa dos cidadãos. Sem nunca termos tido o ensejo de acompanhar o tal “pelotão da frente”. Recorrendo à mesma terminologia velocipédica, nunca abandonámos verdadeiramente a posição de “carro vassoura”.

Hoje, pertencemos à última das Europas, a Europa dos pobrezinhos, a europazinha. E podemos com propriedade afirmar que participámos desse esforço de construção da (des)união europeia.

Como não ter saudades, do tempo em que a soberania do meu país estava em Lisboa e não em Bruxelas?

Como escreveu o poeta Ary dos Santos, “Por termos sofrido tanto é que a saudade está viva”. E por mais que se replante e refloreste, por mais que se tente repovoar a paisagem rural, nunca mais se voltará ao ponto de partida. É como perder a inocência. Não tem volta. Como matar saudades do tempo em que o meu país não era um lugar estranho, à beira da
mexicanização?

Se houvesse retorno, eu escolheria voltar para o ventre materno, esse lugar confortável e insuspeito, anterior à saudade. Mas resta-me a esperança(!) de continuar a empobrecer.

  1. José Vaz says:

    Cara Alice Rios, muito mais saudoso sinto-me eu que me lembro do tempo em que os objetivos regionais de futuro eram decididos na minha terra, o Porto.
    Dava-se conhecimento à capital depois das decisões tomadas, daí ter sido conhecida por terra de liberdade.

  2. Vila Nova de Cerveira – A presença humana no território hoje correspondente ao Concelho de Vila Nova de Cerveira, remonta à pré-história. Entre os vários elementos detectados, merece destaque o tesouro da sepultura da Quinta de Água Branca, cujo espólio está integrado no Museu Nacional de Arqueologia.

  3. Sua família passou por inúmeras dificuldades citadas anteriormente no deslocamento de Porto Alegre a Silveira Martins, pois somente após o ano de 1888 as viagens entre Porto Alegre e Santa Maria melhoraram, quando se fazia de Porto Alegre a “Estação Margem”, onde hoje se localiza General Câmara, às margens do Rio Jacuí, de barco a vapor. Depois tomava-se o trem à vapor, seguindo em direção a Santa Maria, desembarcando na “Estação Colônia”, onde hoje se localiza-se Camobi, distrito de Santa Maria. De Camobi as famílias eram encaminhadas para a Colônia de Silveira Martins, embarcados em carroções, à cavalo ou a pé. Em Silveira Martins as famílias eram abrigadas no “Barracão”, onde aguardavam seu destino, para os núcleos coloniais que estavam sendo criados na região.

  4. À porta, encontramos Mary, uma das almas da casa, a esmerar-se a escrever numa ardósia. Amor, paz, prosperidade. Coisas simpáticas em tempo de Boas Festas. Mas nem era preciso. É que, mesmo fora de festas, todos os clientes serão sempre recebidos com as mais perenes palavras Amor e Arte, pintadas no frontispício da antiga Fábrica de Queijadas Finas Mathilde, outrora uma das rainhas das queijadas nos tempos em que Sintra ainda era Cintra. As artes da Mathilde terão começado por volta de 1850 e a fábrica, que é agora casa da Saudade, começou o seu labor por volta de 1889. Ainda produziria muita e muita queijada até a modernidade lhe fechar as portas circa revolução de Abril. Deixou, claro, saudades. E deixou o edifício em processo de ruína, embora uma parte ainda tenha acolhido outros negócios, como (nem de propósito) uma agência de viagens.

  5. José Nogueira says:

    Nasci no Porto, sou portuense, tripeiro, portista, bairrista e regionalista ferrenho, não conheço Lisboa (fui lá ao Jardim Zoológico quando tinha 9 anos, no fim da 1ª Classe, já lá vão 49 anos), por isso não tenho nenhumas saudades de Lisboa, porque não posso ter saudades de algo que não conheço. O país que mais gosto é a Invicta (porque é uma naçom) onde tenho as pessoas de que gosto. Sou, portanto, parafraseando os nossos alfacinhas cosmopolitas, um provinciano (com muito gosto. Estive uma vez em Bruxelas, mas não gostei da cidade, achei-a completamente descaracterizada. Gosto muito mais de Bruges, Antuérpia e do Bosque das Ardenas (um dos lugares mais lindos da Europa. Ou seja, entre Bruxelas e Lisboa…

  6. Pingback: jnciouen804ur

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.