24 Mai 2011, 11:39

Texto de

Opinião

Esplanadas toldadas

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O projecto que foi erigido em Parada Leitão é como as Tulipas do poema de Sylvia Plath, magoa (o olhar) e consome todo o ar existente.

Esplanadas da Praça Parada Leitão

Foto: Arquivo

Uma grande embrulhada, é o mínimo que se pode dizer da saga das esplanadas da Praça Parada Leitão. Concebidas para substituir as pré-existentes, e pagas conjuntamente pela Gelataria Cremosi, Café Âncora d’Ouro, Café Universidade, Café o Mais Velho e, Restaurante Irene Jardim, ainda antes de abrirem já estavam envolvidas em polémica.

A demora na conclusão das obras e o desagrado pelo projecto arquitectónico foram os primeiros factores de controvérsia. Inauguradas, em Abril de 2010, continuaram envoltas em tormentas. Às críticas ao projecto somava-se a ilegalidade.

Como se abrem esplanadas ilegais? Emitindo a Câmara Municipal do Porto (CMP) a necessária licença municipal mas achando não ser, nesta matéria, preciso consultar o Instituto de Gestão de Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR). Para os comerciantes tudo estava, então, em ordem. O dinheiro gasto na obra 250 mil euros, tinha-lhes trazido estruturas em metal e vidro, que esperavam fossem para durar.

Só que, segundo o IGESPAR, as esplanadas não cumpriam a lei. Reuniões várias, na CMP e com o IGESPAR de nada serviram. O instituto manteve-se inflexível: as esplanadas não cumprem a lei e são para demolir. O parecer definitivo, negativo, veio da Direcção Regional de Cultura do Norte (DRC-N) em Setembro de 2010.

Passado mais de meio ano da decisão da DRC-N as esplanadas a demolir continuavam de pé, e ainda não havia nova solução para o problema.

Este mês a DRC-N deu parecer “informal” favorável a uma nova solução: toldos e pavimento nivelado de madeira. Diz a DRC-N que “a proposta aceite contempla a instalação de elementos mais usuais em esplanadas, como toldos de sombreamento e um pavimento de madeira nivelado”. Mas ainda falta um novo pedido de licenciamento à CMP. Só depois deste emitirá a DRC-N um parecer “formal”.

Confusos? Eu também. Voltemos à casa partida e recomecemos. Antes de qualquer coisa ser construída existe um projecto dessa mesma coisa. Bastava o mesmo, manifestamente inadequado ao espaço a que se destinava, não ter sido aprovado e nada disto teria acontecido.

Porque é o projecto desajustado do local onde se insere? Os tipos de materiais, a volumetria, a área de ocupação do espaço público, o enquadramento no todo, estão desajustados. Ali, o que pede é desafogo, leveza, harmonia. Que se deixe respirar os edifícios, que o olhar de quem estiver frente à igreja do Carmo ou à dos Carmelitas não fique sufocado. Ou seja, que as esplanadas, estando lá, passem o mais desapercebidas possível.

Eduardo Souto de Moura disse, a semana passada, a propósito do projecto de remodelação do interior do Mercado do Bom Sucesso que o dito estava “aos berros“. O projecto que foi erigido em Parada Leitão é mais como as Tulipas do poema de Sylvia Plath, magoa (o olhar) e consome todo o ar existente.

Bastava um bocadinho de bom senso. Pensar que, por vezes, a simplicidade, o mais usual num determinado contexto é o mais adequado. Ou seja, ter-se, logo de início, avançando com os tais “elementos mais usuais em esplanadas…”. Poupava-se tempo, recursos, e evitava-se ter o espaço público ocupado por algo que lhe é desadequado.

Agora, voltarão as obras. De desmantelamento e, depois, se segundo licenciamento da CMP for avante e a decisão “formal” se concretizar, de reconstrução das esplanadas. Quando estará tudo pronto e nos conformes? Ninguém sabe. Espera-se, como se tinha feito antes, que rapidamente.

Esta segunda-feira, disse Rui Rio, o presidente da CMP, na apresentação do novo portal do Turismo do Porto ser o turismo “aquilo a que podemos já deitar a mão para ajudar o país“. Também é aquilo a que podemos deitar, de imediato, a mão para ajudar o Porto. Mas convinha evitar repetir este tipo de situações. É mau para quem cá vive, para quem vem de visita, para a imagem da cidade, para o erário municipal e para os comerciantes.

  1. Eu até comentava mas para quê??? Sempre me fez muita impressão existir uma espécie de idiotas que decidem sobre o que fazer e como e quando e porque e onde e por quem e de que maneira e tudo, sem terem a mínima noção de que as suas sábias decisões não se compadecem nem no tempo nem no espaço nem na lógica da vida real, com o tempo da economia. Tá claro aos olhos de todos que aquilo até está bem feito, faz jeito e é útil, mas os gajos que decidem, e que vivem ao ritmo do Luís XIV ainda devem estar no tempo deles a pensar vagarosamente com os seus botões de madre pérola e o seu pensativo cigarro refastelados no sofã envolvidos num dos seus livros clássicos. Enquanto eles pensam e não pensam, o mundo passa, a história reescreve-se, a noite cai, o dia nasce, e a estupidez essa, fica mais uma vez. E quando finalmente decidirem que fazer com os destinos da plebe que trabalha e investe o seu próprio dinheiro para lhes pagar a incompetência e o ritmo do seu desafortunado vagar, já o mal está feito, ou neste caso o bem feito. E que tal se os idiotas do saber em vez de se ocuparem com manter o país a todo o custo no tempo da nossa senhora, tratassem de pensar no futuro e “inventassem” (digo isto mesmo sabendo que eles não conseguem inventar nada) uma solução chave-na-mão para esplanadas para a cidade entre outras coisas que eles mais que ninguém tinham a obrigação de saber prever?? É verdade que as pessoas não podem fazer o que querem nos espaços públicos, mas há gajos que em vez de serem pagos para estorvar, deviam ser pagos para ajudar a tornar este país menos provinciano, mais práctico e mais útil a todos. Sei que é difícil mas vá. É quando se somam estas pequenas coisas que vemos que afinal o país é isto mesmo. Uma sucessão de equívocos, trapaceiros e incompetentes, com os quais a comunidade civil já se habituou a ter que lidar. As pessoas não constroem as esplanadas antes das licenças só porque são anarquistas, as pessoas fazem-no porque não há outra forma de trabalhar. Não seria possível sobreviver ao ritmo daqueles que não precisam de produzir a tempo e horas com competência para que a sua vida esteja garantida. Aliás, se não fizerem nada durante um ano inteiro, muito melhor para todos. Este país é assim. Sempre teve muito mais gente ocupada a destruir que a construir. É uma estranha forma de poder baseada numa espécie de espírito colonialista e opressor do gajo do bigode que esconde a banha debaixo da cinta. E quando se lembram de construir, fazem-no não porque faz falta e fica bem, mas porque é preciso gastar o dinheiro que tem caído do céu. Até um dia.

  2. José Nogueira says:

    Nasceu no Porto, em 1968. Viveu 13 anos em Lisboa.

    Porque regressaste à Invicta? Só para dizer mal? Arre que já é demais! Três crónicas, todas cheias de fel e azedume? Dasse!Não havia necessidade! Além do mais, maldizentes, os chamados “ilustres do Porto”, já cá temos muitos.Volta prá capital do império onde, de certeza, tudo é à séria, bué de bom, faz menos friu, Enfim, como dizem alguns portuenses com aquele sotaque genuíno, mas um pouco agressivo: bai e num boltes!

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